Tecidos impermeáveis e respiráveis: Tudo o que você queria saber e ninguém contou

Ir a uma loja de equipamentos outdoor para comprar uma jaqueta, ou mesmo uma calça, para quem é iniciante é uma infinidade de palavras novas que há de desvendar para adquirir um produto de qualidade. Existem muitas tecnologias, mas todas estas siglas e nomes fantasia, geralmente, querem dizer a mesma coisa. Porém uma verdade há de ser dita: a indumentária de montanha (jaquetas, calças, camisetas, etc) impermeáveis e respiráveis foram, sem sombra de dúvida, os equipamentos outdoor que mais evoluíram nos últimos anos.

Sua principal componente interna, a membrana responsável por impermeabilizar e permitir a evaporação do suor, é o grande “segredo”. Os vários tipos de membrana permitem diversas possibilidades de comportamento: impermeável, resistente à água, transpirável, etc. Cada uma destas características possui vantagens e desvantagens. Para cada situação, algumas destas são mais indicadas que outras e, no momento que necessitar, fazem toda a diferença.

Impermeabilidade e respirabilidade

Para entender estes dois conceitos é necessário voltarmos um pouco no tempo em mais de 40 anos. No ano de 1976 o americano Robert W. “Bob” Gore começou a comercializar as primeiras peças de roupa que à época causou furor. Eram jaquetas que além de serem impermeáveis, também eram respiráveis (evaporam o suor, não empapando o usuário). Juntamente com seu pai Bill Gore desenvolveu o que hoje é largamente conhecido como Gore-Tex, um tecido respirável à prova d’água feito a partir de politetrafluoretileno (PTFE).

Em uma época que o hábito de usar um poncho todo feito de sacos plásticos (que não respirava e dava sensação de sufocamento), o produto foi recebido com certa incredulidade. O segredo foi ter desenvolvido, a partir do PTFE, o PTFE expandido (ePTFE), que consiste de uma estrutura microporosa composta de 70% de ar. Estes microporos permitem a evaporação da umidade do corpo humano. Por área de cm² existem 1,4 bilhões de poros.

Mas como pode um vapor passar por um buraco (de dentro para fora), mas a água (de fora para dentro) não? A resposta, embora pareça bem complicada, é relativamente simples: dissociação molecular. Quando a água da chuva incide na superfície da jaqueta (obviamente no estado líquido) esta não consegue penetrar pelos poros porque o conjunto de moléculas da gota de água estão em um tamanho maior que este poro. Por outro lado, os vapores oriundos de nossa sudorese conseguem ser eliminados porque o conjunto de moléculas do vapor de água consegue passar por estes poros.

Colocando esta diferença de tamanho em números, uma gota de água é 20.000 vezes maior que o microporo da camada de Gore-tex. Mas uma molécula de vapor é 700 vezes menor que o microporo da camada.

A partir disso criou-se dois conceitos em termos de roupas de montanha: impermeável e respirável.

Indumentária impermeável

Deve-se entender como impermeável a superfície que não permite a passagem de água. Este tipo de conceito cru desta maneira, há também uma afirmação real: poucas coisas no mundo são 100% impermeáveis (incluindo o plástico). A impermeabilidade de roupas de montanha deve ser aceita como a alta resistência à incidência de água em sua superfície. O conceito de impermeável e/ou resistente à água depende de uma unidade de medida que afere a permeabilidade de água em uma determinada superfície.

Após vários debates a respeito de quais serão estas medidas a International Organization for Standardization (ISO), uma organização, com sede na Suíça, não governamental e independente (com 162 países fazendo parte) estabeleceu parâmetros de construção de superfícies impermeáveis. Para um fabricante, não importa de qual país, começar a vender um produto que seja impermeável deve obedecer a estes parâmetros e quais testes devem ser aplicados. Para tecidos impermeáveis e resistentes à água existe a ISO 811:1981 (Textile fabrics — Determination of resistance to water penetration — Hydrostatic pressure test).

Foto: Goretex.com

Simplificando bastante a explicação, é necessário entender antes o que é uma “coluna de água”, medida a qual é empregada nos testes e informada por vários fabricantes de produtos outdoor. É uma medida de pressão que afere a força que se exerce por unidade de área. Geralmente o teste é colocar em um cubo uma quantidade de água em determinada área. Mede-se quanto tempo demora para passar determinada quantidade de água.

A medida serve apenas para que se tenha uma ideia de sua resistência à água, não necessariamente a quantidade de chuva que uma superfície resiste. Índice pluviométrico, medida utilizada para aferir a quantidade de chuva, não possui nenhuma relação com coluna de água, apesar das duas medidas apresentarem a mesma unidade como resultado (milímetros).

Como saber então a capacidade de uma superfície resistir a uma chuva a partir de seu valor expresso em coluna de água? Para não fazer uma resposta matemática com várias contas, é mais fácil analisar os dados pluviométricos para estar preparado para uma determinada chuva.

  • De 0 a 5.000 mm coluna de água – Resistente a chuva fina e rápida. O valor zero é uma peça sem nenhuma resistência à água.
  • De 6.000 a 10.000 mm coluna de água – Resistente a chuva fina ou moderada, não duradoura
  • De 11.000 a 15.000 mm coluna de água – Resistente a chuva moderada a forte, mas intensas e duradouras
  • De 16.000 a 20.000 mm coluna de água – Resistente a chuva muito forte e intensa
  • Mais de 20.000 mm coluna de água – Peça com altíssima proteção e impermeabilidade.

Mas e no Brasil? Qual seria um valor aceitável para equipamentos outdoor impermeáveis?

A resposta é: acima de 2.500 mm de coluna de água para jaquetas e 1.200 para barracas. Mas esteja consciente que estes são os valores MÍNIMOS indicados, com boa margem de segurança. Como no Brasil há um clima tropical com chuvas intensas, principalmente no verão, um valor inferior a estes é ficar vulnerável a ter uma jaqueta ou barraca invadida por água por todos os lados.

Estes valores, entretanto, não são regras nem amparadas por nenhuma lei (talvez a do bom senso). Por isso quem quiser adotar equipamentos de pouca impermeabilidade, estará arriscando a vida e dando trabalho à equipe de resgates em algum parque (caso exista).

Respirabilidade

Foto: http://www.gore-tex.com

Se a impermeabilidade indica a resistência de um tecido à penetração de água, a respirabilidade é o contrário: a capacidade que uma superfície tem de permitir os valores atravessar. Quanto mais permeável a estas moléculas de vapor, melhor é a superfície. Está ligado a este valor o conforto térmico do usuário. Quanto mais sua jaqueta “respirar”, mais confortável ele se sentirá.

Este vapor é nada menos do que a água que em contato com nosso corpo evapora. Esta evaporação é medida de maneira um pouco mais complexa do que as películas impermeáveis. Isso porque tem de levar em conta alguns fatores de condições externas como umidade relativa do ar, diferença de temperatura interior e exterior, etc). Para esta medida há a norma ISO 11092:2014 (Measurement of thermal and water-vapour resistance under steady-state conditions) que obtém um resultado expresso em uma unidade chamada de resistência têxtil de evaporação (RET). Este reultado é expresso em medida en m²/pa/w. Quanto menor sea o RET, maior é a sua respirabilidade.

Durante os testes, maioria pelo menos, buscam otimizar as condições para que simulem situações reais de montanha.

Resistente à água

Um produto resistente à água é, a grosso modo, um “quase impermeável”. Usando um termo quase pejorativo: “tipo impermeável”. A sigla em inglês DWR (Durable Water Repellent) é uma categoria recente entre as roupas de montanha. Por causa desta “pouca idade”, ainda gera confusões ente usuários e até mesmo os profissionais de venda em lojas de produtos outdoor.

Um produto resistente à água evita apenas que a água se acumule na superfície, empapando o tecido. Mas, a partir de uma certa quantidade, absorverá esta água. Ao absorver a água a jaqueta, além de aumentar seu peso, perderá boa parte de sua respirabilidade. Mesmo com a jaqueta não ficando encharcada, apenas com esta película de água, uma sensação de sufocamento irá ser sentida.

Em geral um produto DWR é um tecido que passou por um tratamento químico para adquirir este tipo de capacidade frente a água. Grande parte dos softshells, espacialmente as jaquetas, possuem este tipo de tratamento.

Argentina de nascimento e brasileira de coração, é apaixonada pela Patagônia e Serra da Mantiqueira.
Entusiasta de escalada, trekking e camping.
Tem como formação e profissão designer de produto e desenvolve produtos para esportes de natureza.

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