Saindo da zona de conforto : entenda como a mente se assusta sozinha

Eu estava escalando na área de Obed, em Tennessee, com Benji e Wes, dois escaladores locais com quem estou trabalhando para melhorar o poder mental. Depois de aquecer em algumas vias, entramos na “Barbwire and Lingerie” (7b brasileiro) para uma tentativa à vista. A via começa com alguns pequenos regletes em um negativo até passar as duas primeiras chapas. Ela também tem um crux perto do topo que é difícil de decifrar. Wes entrou primeiro, escalou com confiança a primeira parte, entrou em uma sequência que não conseguiu reverter no crux de cima, e caiu. Eu tive uma experiência semelhante. Depois foi a vez de Benji.

Eu perguntei a ele sobre o que ele estava pensando antes de começar a escalar. Ele disse que tinha muitas perguntas envolvendo a incerteza de não ser capaz de clipar a segunda chapa. “Será que vou conseguir me segurar nos pequenos regletes ? Será que vou conseguir costurar? Será que vou cair no chão se eu cair enquanto costurar ?”.

Foto : Kelly Brown | http://www.greenergrasspublishing.com/

Foto : Kelly Brown | http://www.greenergrasspublishing.com/

Ele se sentia ansioso sobre a incerteza criada por estas questões. Depois ele compartilhou uma observação interessante : ele se sentiu ansioso por se sentir ansioso. Ele se imaginou segurando nos pequenos regletes, ficando ansioso, e se sentiu ansioso por estar na via em tal estado.

O treinamento mental é composto de muitas partes, e uma das mais interessantes é descobrir como a mente se assusta sozinha. Já é desafiador o bastante lidar com medos tangíveis como o medo de cair. Estes medos vêm diretamente da situação. Existe a possibilidade da queda e nós tememos essa consequência tangível.

O que é mais desafiador é descobrir como atravessar esses medos intangíveis que criam uma situação interna tóxica. Ficar ansioso por estar ansioso não é gerado pela situação. É criado pela forma como a mente reage à situação. Nós desejamos a certeza, e saber que podemos ficar ansiosos remove essa certeza.

Eu perguntei a Benji o que ele pretendia fazer sobre sua ansiedade. Ele disse algo muito interessante: “Algumas perguntas não podem ser respondidas”. Ele explicou que simplesmente fazer perguntas e pensar sobre o que poderia acontecer não nos dá informação o bastante. Em vez disso, o que precisamos é experimentar a situação em si. Benji sabia que ele devia escalar e deixar seu comprometimento lhe dar as respostas.

Foto : http://brentperkins30.blogspot.com.br/

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A habilidade de observar o desejo da mente por respostas específicas é uma parte essencial do treinamento mental. A mente tende a ser motivada por atingir um estado final que é confortável, tal como chegar no final de uma escalada, ou costurar uma chapa com sucesso. Atingir um estado final confortável é incerto, o que desvia nossa atenção para a mente, causando um espiral de ansiedade tóxico que se alimenta por si só. Estamos ansiosos por ficarmos ansiosos, o que diminui significativamente nossa confiança.

Nós deslocamos nossa atenção para escapar desse espiral toxico. Em vez de focarmos nossa atenção no que é incerto, focamos no que é certo. Não temos certeza do resultado; temos certeza dos processos. Não temos certeza da nossa habilidade de atingir um estado final confortável; temos certeza sobre dar pequenos passos através do estresse conforme nos movemos na direção desse estado final.

Os resultados são incertos. Não sabemos se seremos capazes de atingi-los pois eles existem no futuro. Pensar sobre os resultados mantem nossa atenção na mente, focada no que não podemos controlar, gerando ansiedade.

Os processos são certos. Eles são ações. Sabemos como realizar processos como respirar, relaxar e movimentar. Estes processos ocorrem no momento presente. Focar neles desloca nossa atenção para o corpo, no que podemos controlar, e diminui a ansiedade.

Foto : http://www.cruxn.com/

Foto : http://www.cruxn.com/

Para sermos efetivos nessa mudança, devemos reconhecer quando estamos em tal estado. Isso foi o que Benji fez. Ele reconheceu que as perguntas que sua mente lhe fazia não poderiam ser respondidas antes do comprometimento. A partir dessa observação, ele foi capaz de deixar sua ação lhe dar as respostas. Ele focou na respiração, em ficar relaxado e em se movimentar enquanto ele usava os pequenos regletes e escalou até a segunda chapa. Ele achou um posicionamento e costurou. Depois seguiu até o topo, obtendo sucesso na via mais difícil escalada à vista por ele até hoje.

Observar a mente criar a ansiedade e focar nossa atenção intencionalmente nos processos, transforma a incerteza em certeza. Ao focar em certos processos não deixamos que a mente nos assuste. Conseguimos relaxar no presente estressante e dar pequenos passos através dele.

Dica Prática: Os processos

A mente cria perguntas sobre resultados incertos. Reconhecer que nos fazemos perguntas que criam certeza em uma situação incerta cria ansiedade. Esta ansiedade é criada pela mente, não pela situação.

Certos processos como respirar, permanecer relaxado e mover lhe permitem fazer pequenos passos adiante. Um pequeno passo que te levará ao seguinte pequeno passo. É possível que necessite retroceder ou continuar. Mas a certeza deste passo te dará a resposta, não a sua mente.

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O livro “The Rock Warrior Way – Mental Training for Climbing” está à venda traduzido para a língua portuguesa no Brasil em : http://www.companhiadaescalada.com.br/

Tradução do original em inglês : Gabriel Veloso

 

Sobre o Autor

Arno Ilgner

Arno Ilgner

Arno Ilgner distinguiu-se como um escalador pioneiro nos anos 1970 e 80, quando as principais ascenções foram as primeiras fortes e perigosas. Essas façanhas pessoais são a base para Ilgner desenvolver o programa de treinamento físico e mental – Rock Warrior Way ®. Em 1995, após uma pesquisa aprofundada da literatura e prática de treinamento mental e as grandes tradições guerreiras, Ilgner formalizado seus métodos, fundou o Instituto Desiderata, e começou a ensinar seu programa de tempo integral. Desde então, ele tem ajudado centenas de estudantes aguçar a sua consciência, o foco de atenção, e entender seus desafios de atletismo (e de vida) dentro de uma filosofia coerente, baseada em aprendizado de tomada de risco inteligente. Ilgner considera a alegria e satisfação no esforço – a “viagem” – intimamente ligada à realização bem sucedida das metas.

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