Saiba quais são os 10 mandamentos fundamentais da escalada

Este artigo é um encerramento do conteúdo “bíblico” publicado aqui na Revista Blog de Escalada sobre esportes outdoor. Nesta “série”, que abordou de forma educativa conceitos básicos em forma de 10 mandamentos, foram escritos artigos sobre sobre segurança de qualquer atividade na montanha, trekking e hiking e começar a treinar (seriamente) em escalada.

Como não havia nenhuma referência ao assunto com o conteúdo sobre a prática de escalada em si, nada mais justo do que criar outro finalizando o tema, nos mesmos moldes dos disponibilizados. Importante lembrar que os itens abaixo, da mesma maneira que os 10 mandamentos bíblicos, não é uma “listinha clickbait” de assuntos outdoor, mas uma espécie de conselhos para orientar a boa convivência entre os praticantes.

Foto : Ben Moon | http://www.nytimes.com

Ter e seguir uma espécie de etiqueta é fundamental para qualquer atividade e que, obviamente, não sejam os praticantes apenas um bando de indivíduos dividindo o mesmo espaço.

Amar o esporte acima de todas as coisas

Muitos escaladores repetem, como se fosse uma espécie de mantra, a seguinte afirmação : “escalada é um estilo de vida e muito mais que um esporte“. Muitas vezes alguns dizem apenas da boca para fora, mas isso não tem importância.

Amar o esporte não é somente fazer de tudo (ás vezes passando por cima dos outros) para praticá-lo. É também fazer com que ele seja praticado com segurança, respeito e dignidade.

Todo escalador que diz que ama o esporte, mas nunca respeita os lugares que frequenta (jogando lixo no chão, por exemplo) nem as pessoas à sua volta (consumindo drogas lícitas ou ilícitas, por exemplo) e até mesmo as pessoas da comunidade (não fazendo procedimentos técnicos corretos, por exemplo) está confundindo os conceitos de estilo de vida com hipocrisia.

Fazer de tudo para que o esporte seja viável na região e respeitado pela população local, lutando e buscando representatividade (por federações e políticos locais) também é uma espécie de dedicação à escalada.

Praticar as técnicas corretas

Quanto menos acidentes ocorrer por conta de imperícia e imprudência de escaladores, mais o esporte se consolidará como uma prática segura perante a comunidade.

Por isso saber montar um rapel corretamente, equalizar uma via de escalada esportiva e/ou tradicional, conservar os equipamentos de segurança corretamente, observar a conservação de proteções e ancoragens é obrigação de todo escalador.

Foto : Rafael Gribel

Todo aquele que manusear incorretamente uma equipamento de escalada (como o grigri, por exemplo) está cometendo um grande erro e prejudicando indiretamente todos à sua volta e, claro, diretamente o próprio esporte.

Desculpas como “eu sempre fiz assim” não é aceitável, pois quando houver uma falha por mal manuseio quem irá responder legalmente pelo acidente será você mesmo.

Reservar domingos e festas

A cada dia do ano, observar o calendário e programar viagens de escalada é parte da personalidade de cada escalador. Fazer “maluquices” no trabalho aplicando desculpas esfarrapadas para esticar folgas ou feriados prologados é uma prática comum.

Não há mal nenhum nisso. Este tipo de “pecado” é perdoado pelos Deuses da montanha e escalada. O que é muito recomendável é que procure visitar sempre lugares novos e diferentes e, desta maneira, conviver com todos e aprender outras realidades. Aquele escalador que e dedica a apenas escalar sempre no mesmo lugar sempre, condena a si e aos seus amigos a possuir uma visão tacanha e provinciana do esporte.

O crescimento da escalada depende do intercâmbio de idéias, técnicas e conceitos. Por isso quando vir um feriado se aproximar, programe-se para conhecer um local novo.

Dar manutenção em seus equipamentos

Apesar dos socorristas do corpo de bombeiros sempre declararem à imprensa não especializada que há suspeita de rompimento de corda ou mosquetão, raramente é por este motivo que um acidente fatal na escalada acontece.

Para fazer com que este tipo de declaração esteja sempre errada, além de conversa educadamente com quem reporta o acidente, é necessário que o equipamento esteja sempre em excelentes condições de uso.

Por isso cordas devem estar em perfeitas condições de uso (e no comprimento ideal), mosquetões conservados e com gatilhos lubrificados, sapatilhas sempre em condições de dar o mínimo de aderência na rocha e assim por diante. Todas as vezes que alguém insistir em utilizar um equipamento que esteja sem condições está arriscando não somente a própria vida, mas também a prática do esporte no local onde está.

Deixe para improvisar os movimentos, nunca os equipamentos.

Não alterar vias alheias

Uma via de escalada é propriedade intelectual de seus conquistadores. Assim como acontece nas artes como música, literatura, cinema e fotografia, vias de escalada também possui uma espécie de “copyright” de sua linha e proposta.

Da mesma maneira que alguém não gosta de um gênero musical evita de escutá-lo, um escalador deve fazer o mesmo com uma via de escalada.

Como o choro é livre, todo escalador tem o direito de reclamar da proposta dos conquistadores (da mesma maneira que fazem com um filme), mas nunca (nunca MESMO) alterar a proposta inicial da via. A manutenção da via (modificar proteções e ancoragens) fica por conta da autorização do autor.

Cada conquistador, assim como um cheff de cozinha profissional estabelece uma experiência a quem quer experimentar. Cabe à cada um optar por aceitar o desafio da experiência, mas sem alterar a proposta.

Escale para você não para os outros

Deus criou a vida para que cada um fizesse o que bem quisesse da sua. Por isso, cada um sabe das suas possibilidades e potencialidades. Quem escala, deve focar no que está procurando para i mesmo, e não para parecer mais forte, macho ou invencível para os amigos.

O objetivo de cada escalador deve ser, impreterivelmente, escalar melhor. Aquele que apenas busca escalar melhor que os outros (buscando sobe o grau mais forte sem aproveitar a escalada em si) tem um visão deturpada da filosofia do esporte. Por isso uma expressão que demonstra nanismo mental (além de moral) é quando afirma que “fulano não escala nada” ou pior “beltrano nem escala grau x”.

Cada um possui uma vida separada do esporte e, por isso, tem compromissos que às vezes impossibilita de dedicar-se à escalada como deseja. Por esta triste realidade é que, muitas vezes, alguém não atingiu grau x por isso. Pois buscando no dia a dia a trabalhar e dedicar-se a outras atividades não necessariamente ligadas à escalada, é para garantir longevidade de sua prática.

Não mentir

Mentira é o nome dado às afirmações, ou negações falsas, ditas por alguém que sabe e/ou suspeita da falsidade. Na maioria das vezes espera que seus ouvintes acreditem. Infelizmente para estes Pinóquios escaladores, no universo da escalada uma mentira logo é descoberta.

Por isso qualquer notícia de cadena, ou potencialidades de escaladores(as) deve ser atestada ao vivo e não somente em verso e prosa.

Quem procura impressionar outra pessoa sempre infla os feitos e potencialidades. Atire a primeira pedra quem nunca fez isso, mesmo que não intencionalmente. Mas assim como o pior cego é aquele que não quer ver, o pior mentiroso é aquele que acredita na própria mentira. Por isso quanto mais haver honestidade a si mesmo e às outras pessoas acidentes podem ser evitados.

Não roubar

O equipamento de escalada é sagrado a quem o usa. Todos sabemos que um equipamento de escalada, qualquer um, não é barato. Por isso há pessoas que tentam “economizar” seu dinheiro roubando equipamentos das outras.

Não importa o lugar : academias, abrigos, refúgios e falésias, sempre haverá a possibilidade de alguém “pedir emprestado e não devolver”. Hás os que de fato pedem emprestado, e aproveitam a situação para não devolver o equipamento.

Durante viagens longas é muito comum que isso aconteça e durante a mescla de equipamentos alguns se percam no caminho. Cabe a todo escalador procurar não ficar com nenhum material que não o pertence. Roubar não vai causar nenhum acidente, mas demonstra falta de caráter sem limites.

Cabe também a todo escalador também seguir um conselho islâmico : Confie seu camelo a Alá, mas não deixe de amarrá-lo. Por isso, sempre coloque identificações em todos os seus equipamentos de escalada. Assim irá inibir, mesmo que superficialmente, algum furto.

Tenha repertório de movimentos

Quanto mais repertório de movimentos de escalada tiver um praticante, melhor será sua desenvoltura no futuro. Por isso é fundamental que cada escalador procure viajar para escalar no maior número de lugares que possa.

Se alguém está acostumado a sempre escalar no calcário, está na hora de desafiar-se em escaladas em granito e vice versa. para quem sempre está praticando boulder, talvez seja interessante começar a experimentar vias esportivas ou tradicionais.

Quem está “viciado” em vias de aderência deve buscar algo mais vertical e vice versa. O principal motivo de saber mais movimentos de pés, mãos e corpo é expandir a criatividade na resolução de desafios ao longo da vida. Aprender nunca é demais, por isso a escalada possui tantos estilos : convidar as pessoas a sair da zona de conforto.

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

Comente agora direto conosco

Comment moderation is enabled. Your comment may take some time to appear.