Saiba quais são as montanhas mais perigosas do mundo

Pergunte a alguma pessoa sem conhecimento em montanhismo qual a montanha mais perigosa do mundo, que a resposta irá referir-se ao Monte Everest (80% dos casos aproximadamente). Este tipo de pensamento é por causa da ideia errada que “quanto mais alto, mais perigoso fica”. Uma lógica longe de ser a verdade. Por isso, é importante esclarecer que nem de longe o Monte Everest é a montanha mais perigosa do mundo (afirmação também disfarçada de “montanha mais mortal do mundo”). Muito deste mito ao redor do Monte Everest é somente por ser a montanha mais alta do mundo e, por isso, no início do século XX sua escalada foi amplamente badalada pela imprensa.

Fosse possível fazer uma analogia que explicasse por que as pessoas, não ligadas ao montanhismo, perpetuam os mitos a respeito do Everest, a mais fácil seria a metáfora sobre a relação entre sexo e o “tamanho das coisas”. Pergunte por ai se “o tamanho das coisas” e prazer estão diretamente ligadas e dependentes. Seguramente terá uma resposta parecida com a que ouvirá de qualquer entendido em montanhismo a respeito do Everest. Não, o tamanho (no caso do Everest a altura) não está diretamente ligado à periculosidade de uma montanha.

Foto: David Bibby

Portanto, que fique claro que nem de longe o Monte Everest é a montanha mais mortal do planeta (muito menos a mais perigosa). Entretanto é importante também deixar explícito que, por não fazer parte de qualquer lista de “local mais perigoso do mundo”, não necessariamente a torna fácil de subir (a não ser quando for carregado por sherpas).

Prioritariamente para qualquer pessoa despreparada física e tecnicamente, uma montanha por mais baixa que seja sempre será difícil e mortal. Uma boa maneira de atestar este tipo de afirmação é ver a quantidade de acidentes reportados com pessoas em montanhas. Tecnicamente falando é fundamental observar a taxa de fatalidade por conjunto de escaladores. Este é o número que deve ser observado.

Análise de dados estatísticos

Mas então quais são as montanhas mais perigosas e mortais no planeta?

A resposta a esta pergunta deve antes passar por uma leve introdução a conceitos básicos de análise de dados. Afirmar que uma montanha faz uma quantidade considerável de vítimas fatais, baseando-se apenas nos números absolutos de pessoas mortas é um erro primário. Um erro tão pueril quanto acreditar que o prazer no sexo é diretamente ligado ao “tamanho das coisas” (como explicado no exemplo acima). É necessário entender o significado matemático deste número.

Para analisar a periculosidade de uma montanha (ou mesmo de uma cidade), é necessário utilizar taxas de porcentagem. Parece óbvio, mas analisar o número absoluto de mortes, sem compará-lo com nada, pode-se concluir que uma montanha com número absoluto de poucas fatalidades é “fácil” de subir. O que, evidentemente, é mentir para si mesmo.

O número o qual deve-se buscar é a taxa de fatalidades por quantidade de escaladores que subiram aquela montanha (excluindo os visitantes e trabalhadores do Campo Base conhecidos como sherpas). Preferencialmente, analisando as taxas ao longo dos anos. Estes números podem ser obtidos pelos números obtidos no Himalayan Database, que atualmente pode ser consultado por qualquer pessoa no mundo. Se ali está registrado algum cume, não há contestação no mundo que prove o contrário.

Portanto, um número absoluto, sem ser comparado com nada, é apenas um conjunto de símbolos. Portanto sempre que qualquer pessoa alardear um número, que a princípio parece impressionante quando verbalizado, questione-se se este número foi comparado adequadamente com outros dados.

Dhaulagiri

Monte Dhaulagiri | Foto: http://snowleopardtrek.com

A sétima montanha mais alta do mundo, o Dhaulagiri (8.167 m) possui uma taxa de fatalidade por conjunto de escaladores de 16%. Parece um número baixo, mas é uma taxa considerável, ainda mais se a compararmos com o Everest (1,5%). Lembrando que as medidas de segurança no Everest vêm contribuindo para esta taxa cair ainda mais.

Uma amostra de que Dhaulagiri é uma montanha desafiadora, somente em 1960 é que houve a sua primeira ascensão. Além disso, somente montanhistas do calibre de um Reinhold Messner conseguiram escalar. O próprio Messner teve de realizar várias tentativas para chegar ao topo desta montanha que está localizada na Cordilheira do Himalaia, na parte centro-norte do Nepal.

Kangchenjunga

Com imponentes 8.586 metros acima do nível do mar, o Kanchenjunga é a terceira montanha mais alta do mundo. A montanha teve sua primeira ascensão somente em 1955. Localizada na divisa entre Nepal e Índia, possui um alto índice de avalanches, clima extremamente frio e histórico de mudanças climáticas constantes.

A taxa de fatalidade por conjunto de escaladores é de 20% que, em termos práticos, significa dizer que um em cada cinco escaladores que tentaram escalar esta montanha morreram.

Nanga Parbat

O Nanga Parbat (8.126 m) é a nona montanha mais alta do mundo e fica no Paquistão (região da Caxemira). Sua taxa de fatalidade por conjunto de escaladores é de 22%. Por conta deste alto índice possui o apelido de “montanha assassina” e “devoradora de homens”.

Montanhistas a consideraram a mais difícil de escalar, tecnicamente falando.

K2

Monte K2

O K2 (8.611 m) é a segunda montanha mais alta do mundo e fica na fronteira da China e Paquistão. Ironicamente a segunda montanha mais alta do mundo também é a segunda mais mortal. Apesar de todos reverenciarem o incidente que culminou vários livros como o “Touching the void”, o pior acidente da história do montanhismo mundial em 2008, quando vitimou 11 montanhistas e ainda deixou outros 3 seriamente feridos.

Sua taxa de fatalidade por conjunto de escaladores é de 25%,o que ignifica em termos práticos que uma em cada quatro pessoas que tentam subir o K2 morrem.

Annapurna

Ironicamente o Annapurna (8.091 m) foi a primeira montanha do mundo acima dos 8.000 acima do nível do mar a ser escalada. Mesmo sendo a décima montanha mais alta do mundo, é a que mais mata montanhistas no mundo. Sua taxa de fatalidade por conjunto de escaladores é de 32%. Em termos práticos, de cada três escaladores que tentam escalar esta montanha, um morre.

Apesar de ter sido a primeira montanha acima de 8.000 escalada, é a menos escalada de todas acima deste nível. A titulo de comparação, o Everest até o momento já teve 6.000 escaladas bem sucedidas ao longo do tempo, enquanto o Annapurna menos de 200 vezes.

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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