Saiba quais são as 4 montanhas mais difíceis dos Andes para escalar

Desejadas pelos tolos, e temidas por todos”.

O que define uma montanha como difícil?

Para os leigos, normalmente a resposta é a altura, mas para os pioneiros do alpinismo moderno, na verdade é uma combinação de fatores:

  • Grau de dificuldade da via: a dificuldade técnica exigida na escalada, diretamente relacionada à verticalidade da via (demandando mais uso de material, mais tempo na via), qualidade da rocha (se existente, existência de proteções boas ou ruins), e exposição à perigos objetivos (queda de rochas, cornijas, avalanches, seracs (bloco de gelo de grandes dimensões), exposição à ventos, temperaturas baixas e tormentas).
  • Localização: montanhas mais remotas demandam uma logística mais complexa, além de exigirem um grau de comprometimento maior devido à dificuldade de acesso, e consequentemente, desistência e resgate.
  • Altura: quanto mais alta, maiores as dificuldades físicas devido à altitude e possíveis problemas de saúde como HACE, HAPE e congelamentos.

Algumas montanhas tem vias de fácil acesso, e outras extremamente difíceis, como o Aconcágua, que tem uma via normal de graduação fácil e ao mesmo tempo uma das faces mais difíceis do mundo, sua parede sul.

Neste artigo focamos em montanhas que são inteiramente difíceis de conquistar, ou seja, não existe maneira fácil de escalar nenhuma destas montanhas, e são objetivos apenas dos maiores nomes do alpinismo de elite mundial, que mesmo com anos de experiência e preparo, muitas vezes são vencidos por estes gigantes quase indomáveis.

Fitz Roy, 3.402 m, Patagônia – Argentina

Foto: Tahai | http://www.summitpost.org

Foto: Tahai | http://www.summitpost.org

Localizado na fronteira entre Chile e Argentina, o Monte Fitz Roy é a montanha mais alta do Parque Nacional Los Glaciares, e provavelmente a favorita de escaladores de elite, que “migram” para El Chaltén na temporada de inverno esperando pelas raras janelas de bom tempo.

Apesar da pouca altura, a montanha fica numa região de mal clima constante e ainda relativamente isolada, mas o que da fama é na verdade a dificuldade técnica: não se pode deixar enganar pela graduação fácil de algumas enfiadas.

As escaladas no Fitz Roy envolvem uma aproximação alpina, dezenas de enfiadas verticais de graduação intermediária para muito difícil, escalada mista e escalada em gelo, tudo isso em meio à exposição ao clima nefasto.

Ou seja, não basta escalar em rocha, é preciso dominar várias disciplinas, estar treinado para tolerar o tempo ruim, ter excelente orientação, e ainda fazer tudo isso muito rápido, já que as tempestades aparecem subitamente.

Experiência essa que alpinistas de elite levam anos e às vezes décadas para adquirir, tornando o Fitz Roy uma das conquistas máximas do currículo de um escalador de alpinismo extremo em baixas altitudes.

  • Primeira ascensão: 1952, por Lionel Terray e Guido Magnone
  • Curiosidade: o logo da marca Patagonia é a silhueta das montanhas do maciço
  • História recente: a travessia do maciço Fitz Roy, feita por Alex Honnold e Tommy Caldwell, foi uma das três atividades vencedoras do Piolet D’Or 2015.

Cerro Torre, 3.102 m, Patagônia – Argentina

Foto: Nikman | http://www.summitpost.org

Foto: Nikman | http://www.summitpost.org

Considerada por muito tempo “uma montanha impossível” e conhecida por seu marcante cogumelo no cume, o Cerro Torre talvez seja uma das montanhas com maior quantidade de histórias controversas em todo o mundo.

A hoje extinta “Via do Compressor” se localiza em uma de suas faces e até hoje é tópico sensível de discussões éticas no meio da escalada.

Exposta a violentos ventos que vem do Pacífico, a montanha apresenta dificuldades altíssimas em todas as suas faces: a oeste está sempre coberta de verglas, a norte sempre exposta a queda de rochas e gelo, a sul é mais técnica e negativa.

Tudo isso somado a mais 1300 metros de desnível, instabilidade climática e isolamento – características similares ao Fitz Roy – torna o Cerro Torre terreno apenas para os alpinistas mais expertos do mundo que, mesmo com tanta experiencia, são constantemente vencidos pelas dificuldades em chegar ao seu cume.

  • Primeira ascensão: 1959, por Cesari Maestri e Toni Egger (disputada). 1974, por Daniele Chiappa, Mario Conti, Casimiro Ferrari e Pino Negri (confirmada).
  • Curiosidade: o cineasta alemão Werner Herzog, envolvido em algumas polêmicas com a montanha, uma vez disse sobre o Cerro Torre:
    • “esta montanha tem qualidades que normalmente são encontradas em humanos; existe algo de maldade nela, alguma coisa misteriosa, alguma coisa horrível”.
  • História recente: em 2012, David Lama fez a primeira ascensão totalmente em livre da aresta sudeste. O feito virou o filme “A Snowball´s Chance in Hell”.

Yerupajá, 6.634 m, Cordilheira Huayhuash – Peru

Foto: Yerupaja | http://www.summitpost.org

Foto: Yerupaja | http://www.summitpost.org

Entrando no campo de alta montanha, a rainha da cordilheira mais íngreme e mais difícil dos Andes é a Yerupajá (“amanhecer branco” em quechua), segunda montanha mais alta do Peru, e menos conhecida que a famosa Siula Grande, do filme Tocando o Vazio.

É difícil destacar apenas uma, já que praticamente todas as suas vizinhas – Siulas, Jirishanca, Rasac para citar algumas – tem paredes extremamente íngremes com longos trechos de neve a 90 graus. Também conhecida como Carnicero, a montanha reúne todos os requisitos de dificuldade possíveis. A janela de bom clima na região costuma durar apenas 1 mês ao ano, e as tempestades quando aparecem são inesperadas e violentas.

Por ser uma montanha de ultra proeminência, apresenta paredes de mais de 1200 m muito íngremes, e extremamente expostas aos seracs do cume, pedras e funis de gelo que voam para baixo como projéteis, e que estão “pendurados” por todos os lados, e sempre acima da cabeça de quem está escalando.

A escalada é bastante técnica, incluindo passos em dry-tooling e gelo azul, e rocha de qualidade ruim, tudo isso a mais de 6000 m de altitude, e em muitas e longas enfiadas.

A região é isolada, e a aproximação longa, muitas vezes superando uma semana de caminhada. Para piorar, na região as mulas só chegam até certo ponto e não existem carregadores.

Para finalizar, a aresta do cume é tão fina que cabe entre as pernas, com abismos de quase 2000 metros para cada lado. Por esses fatores, é considerada por especialistas a montanha de altitude mais difícil dos Andes.

  • Primeira ascensão: 1950, por Jim Maxwell e Dava Harrah. Segunda ascensão somente 16 anos depois.
  • Curiosidade: até 1950, era a montanha mais alta fora da Ásia que ainda não tinha sido conquistada.
  • História recente: em 2014, numa rara oportunidade em Setembro, o americano Nathan Heald e o peruano Luis Crispin fizeram a primeira ascensão da montanha em 11 anos.

Huantsán, 6.369 m, Cordilheira Branca – Peru

Foto: Cissa Carvalho

Foto: Cissa Carvalho

Escondida no fundo de um dos vales menos procurados da Cordilheira Branca, esta montanha tem péssima fama devido à ocorrência de acidentes ou fatalidades em quase todas das poucas tentativas de ascensão.

A maioria, vale dizer, sem cume.

Geleiras gigantescas, paredes de mais de 1500 m, arestas longas e constantes avalanches de neve e gelo tornam qualquer tentativa de escalar qualquer um de seus 4 cumes uma missão quase impossível.

O último cume confirmado foi de uma equipe italiana em 1999, e existe um cume não confirmado de 2013, apesar de registros de sucesso nos cumes mais baixos.

Mesmo quando o clima está favorável durante a temporada, a montanha está constantemente envolta em nuvens e com fortes ventos em todas as suas faces.

A constante sombra dos acidentes intimida mesmo os fortes escaladores locais, dos quais poucos já se aventuraram por lá, principalmente depois da morte de um dos guias mais fortes do país numa tentativa de abrir nova via, em 2013. A face leste continua virgem.

  • Primeira ascensão: 1952, por Lionel Terray, Cees Egeler e Tom de Booy.
  • Curiosidade: tem o apelido de K2 dos Andes, por seu formato e periculosidade similares ao K2.
  • História recente: a dupla britânica Nick Bullock e Matt Helliker abriu, em 2006, a via “Morte ou Glória”. Bullock posteriormente disse em relação às dificuldades que encontraram que “as tabelas de graduação não significam nada em comparação ao nível de compromisso necessário para terminar esta via”.

Menções Honrosas

Algumas “segundas colocadas” desta lista, notáveis por também só possuírem vias extremamente difíceis e poucas ascensões:

  • Torre Central de Paine – Chile
  • Chacraraju e Taulliraju na Cordilheira Branca – Peru
  • Jirishanca e Siula Grande na Cordilheira Huayhuash – Peru

Cissa Carvalho é natural de São Paulo e praticante de esportes outdoor desde os 8 anos de idade. É alpinista fanática, e nas horas vagas tenta escalar em rocha, surfar e arranjar dinheiro para continuar viajando. Já esteve em todos os continentes e já escalou na América do Sul, África, Ásia e Europa

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