Saiba como é feito o gerenciamento das equipes de resgate

Um dos aspectos mais importantes numa operação de busca e salvamento é a organização. O bom gerenciamento do cenário de crise é fundamental para o êxito da missão.

Abrangendo, dentre outros, os seguintes fatores: organização da logística necessária; coordenação dos membros das equipes; a filtragem das informações que serão repassadas a imprensa; contenção de curiosos que estejam na área que será alvo da missão; coleta de informações para melhor avaliar o cenário que se terá de enfrentar.

Uma das ferramentas utilizadas para esta finalidade é o chamado Sistema de Comando de Operações/SCO. Ou também o Sistema de Comando de Incidentes/SCI (baseado no Incident Command System/ICS – desenvolvido nos Estados Unidos da América).

Bastante empregado pelas polícias e bombeiros militares, e também pela Defesa Civil.

Em linhas gerais, não é incorreto afirmar que tanto o SCO como o SCI são basicamente variantes de uma mesma diretriz. O SCO tendo sido moldado seguindo as diretrizes do SCI. Estes dois sistemas possuem algumas variações conceituais. Mas nada que os tornem contraditórios entre si.

Em Santa Catarina, em regra, é usado o SCO no âmbito militar da Policia e Bombeiros Militares, e civil (Defesa Civil e Bombeiros Voluntários).

De acordo com o manual elaborado pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de Santa Catarina em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina, intitulado “Capacitação em Defesa Civil: Sistema de Comando em Operações – SCO”, o SCO é um sistema de gerenciamento, que permite “coordenar a atuação integrada de múltiplos órgãos em situações críticas”.

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Obviamente que não é o objetivo desta coluna analisar em detalhes as concepções do SCO ou do SCI. E sim ressaltar a importância de se ter um mecanismo de controle da operação de busca e salvamento, que permita ter uma unidade na cadeia de comando.

Do contrário, se os membros da equipe (ou as várias equipes de diferentes grupamentos de resgate) não estiverem tendo uma única coordenação acabará, inevitavelmente, ocorrendo confusão e perda de energias. Que deveriam ser concentradas para potencializar os recursos (humanos e materiais) que se tem a disposição.

Neste contexto, um dos grandes desafios é conseguir uma postura colaborativa de todas as unidades, que estejam participando de uma operação conjunta. De maneira a que entrem em acordo, acerca de quem será colocado como centro de referência, para o comando das ações.

No Grupo de Resgate em Montanha de Joinville/SC (GRM), temos tido boas experiências, em parceria com outras unidades civis e militares. Na prática, o que o GRM vem vivenciando em treinos e missões reais, é uma atuação sinérgica de todos que estão envolvidos.

Ou seja, todas as lideranças das diferentes instituições e grupos tem a oportunidade de exporém suas opiniões (brainstorm). E, ao final, as decisões são tomadas em consenso.

E, uma vez acertada a estratégia a ser seguida, o comando central fica encarregado de gerenciar a execução daquilo que foi determinado.

Certamente, estas estratégias terão que ser adaptadas à medida que novos fatos e versões sejam trazidos ao conhecimento dos responsáveis pelo planejamento da operação.

Foto: Sérgio Netto

Foto: Sérgio Netto

Como afirmava Helmuth Von Moltke (Marechal prussiano do século XIX), “Nenhum plano de batalha sobrevive ao contato com o inimigo.”

Adaptando essa orientação para o cenário de missões de resgate, parece correto afirmar que: nenhum planejamento de uma operação de busca e salvamento resistirá ao contato com os primeiros obstáculos encontrados em áreas remotas, de difícil acesso. Mesmo assim, é absolutamente fundamental ter este planejamento inicial.

Avaliando todas as variáveis passíveis de serem antevistas, e tendo a capacidade de improvisar e se adaptar às dificuldades que, inevitavelmente, serão encontradas durante a missão.

Não importa se a operação de resgate vai ser baseada nas diretrizes do SCO ou do SCI. O que realmente importa, é que exista um Procedimento Operacional Padrão (POP), que seja utilizado na execução da missão.

Este raciocínio é especialmente válido para as equipes civis, formadas por voluntários, que não possuem uma estrutura militar, baseada nos princípios da hierarquia e disciplina.

Estas equipes voluntárias, antes de mais nada, precisam conquistar o respeito e confiança das demais equipes militares ou dos órgãos públicos governamentais. Precisam demonstrar que não são um “bando de resgate.” Mas sim que são um grupo de resgate bem organizado, e disposto a se submeter a um comando central.

Até porque, se é verdade que nenhuma autoridade pública (militar ou civil) pode obrigar uma equipe voluntária a se engajar em uma missão de resgate, também é verdade que esta mesma autoridade pública pode, a qualquer momento (a qualquer momento mesmo) impedir que uma equipe voluntária participe da operação, ou que algum membro da equipe participe.

Se for considerado que esta equipe (ou algum membro da equipe) não está qualificada, ou não sabe respeitar a hierarquia da estrutura de comando.

Percepção de risco

Neste contexto, a percepção de risco é um dos fatores mais importantes a ser observado pelas equipes. A falsa percepção da realidade perigosa, pode gerar acidentes graves.

Foto: Sérgio Netto

Foto: Sérgio Netto

Se o membro da equipe não tiver esta noção, porque acha que é o “heroi” que revolve tudo, ou que com ele as coisas não vão acontecer porque é especialista na área, e “mata no peito” qualquer desafio, não estará qualificado para participar da operação.

Não se trata de covardia, mas sim de percepção de que o risco, nestas missões de resgate em ambientes naturais, está sempre presente. Risco real este que não pode ser eliminado, mas apenas controlado, ou quando muito, em alguns cenários, isolados.

Foto: Sérgio Netto

Foto: Sérgio Netto

Para lidar com estes riscos, a primeira preocupação do integrante da equipe de resgate, é consigo mesmo (tem que cuidar da sua própria integridade). Se o resgatista não estiver bem, ele vai se tornar um problema, e prejudicará a efetividade da missão.

A segunda preocupação é com o seu parceiro da equipe. Numa equipe bem entrosada, cada um deve cuidar do outro, fazendo o double check dos equipamentos, verificando se o parceiro está focado, e bem física e mentalmente.

A terceira preocupação é evitar que outras pessoas (curiosos e outros que estejam no local da ocorrência) tornem-se novas vítimas. Na ansiedade de querer ajudar, ou apenas por causa da curiosidade, outras pessoas podem facilmente se acidentar, e aumentar o número de vítimas a serem resgatadas.

A quarta e última preocupação é com a vítima. Parece insensibilidade fazer uma afirmação destas, mas a verdade é que vítima já é vítima. Ela já é um problema, e não há nada que se possa fazer para reverter esta situação. Restando, agora, adotar os procedimentos de atendimento pré-hospitalar (APH), ou mais básicos de primeiros socorros. E promover, tão rápido quanto for possível, sua extricação para um local seguro.

Somente quando todos tiverem retornado (resgatistas e vítima) para um local seguro, é que a missão estará concluída, e as equipes poderão ser desmobilizadas.

Como se constata, é fundamental que o responsável pelo gerenciamento da operação de busca e salvamento tenha conhecimento e experiência para comandar uma missão destas. Missões como estas exigem muito treinamento e organização. Não é local para improvisação.

Para estas equipes que realizam resgates em áreas remotas, não há dia fácil.

Ou, como diz o ditado repetido à exaustão entre os integrantes da tropa de elite da Marinha Norte-americana, os US Navy SEAL: the only easy day was yesterday.

Confira os livros:

Manual de Rastreamento Humano em Operações de Busca e Salvamento Terrestre

A influência do comportamento da vítima nas operações de busca e salvamento

busca-e-salvamento-areas-remotas

Sérgio de Oliveira Netto é Diretor Operacional do Grupo de Resgate em Montanha (GRM) em Joinville – SC

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