Por que verdadeiramente sabemos algo quando temos a experiência?

Eu gosto de trabalhar enquanto estou no avião. Hoje, voando para Porto Rico, eu estava revisando, no meu laptop, uma palestra que iria dar para escaladores à noite.

Portanto, estava um pouco irritado quando uma pessoa sentada ao meu lado começou a fazer perguntas sobre o que eu fazia como carreira. Depois de lhe dar a descrição básica “eu ajudo escaladores a lidarem com seus medos”, ela não estava satisfeita e perguntou especificamente como eu fazia aquilo.

Foto: http://warriorsway.com/

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Eu descrevi como os escaladores têm medo de cair, resistem à prática, e que eu os ensino como cair.

Nós conversamos durante 15 minutos, mas o rapaz ainda não entendia. Depois de me sentir inicialmente irritado com suas perguntas, eu fiquei curioso.

A frase popular “uma foto vale mais do que 1000 palavras”,  surgiu na minha cabeça.

Eu decidi levar a frase além. Se uma foto vale mais do que 1000 palavras, então um vídeo deve valer 1000 fotos! E, levando mais além ainda, se um vídeo vale 1000 fotos, então uma experiência deve valer 1000 vídeos!

Quando mudamos da língua falada para imagens visuais, para imagens em movimento, passamos por uma experiência, entendemos a realidade mais claramente.Meu colega de vôo me ajudou a perceber uma progressão interessante para um dogma importante do Caminho do Guerreiro: nós sabemos algo quando temos a experiência desse algo, não quando apenas pensamos sobre isso.

O conhecimento intelectual deve progredir para o conhecimento empírico para poder saber algo.

Vamos usar as quedas para examinar esse dogma. Parece loucura pensarmos que sabemos como cair sem termos a experiência de cair. No entanto, isso é o que muitos escaladores fazem. Nós não cometeríamos esse erro com algo como escalar 8º grau.

Nós não diríamos “eu sei escalar 8º grau” sem ter a experiência de escalar vários oitavos.

Foto:

Foto: http://catalog.blackdiamondequipment.com/

Os escaladores muitas vezes correm riscos inapropriados porque eles apenas pensam sobre a queda. Quando encaram uma queda em terreno negativo, eles olham para baixo e avaliam a queda intelectualmente. A conversa intelectual típica é a seguinte: “eu vou só cair no ar; eu não vou bater em nada; então é seguro cair.”

Uma falha de concepção é achar que caímos diretamente para baixo. Existem várias outras falhas, mas vamos apenas usar esta para examinar como o conhecimento intelectual precisa evoluir para o conhecimento empírico para saber cair.

Os medos se manifestam nos escaladores de várias formas: no momento em que estão na transição para uma queda, e nos asseguradores, quando eles reagem perante como segurar uma queda. Alguns escaladores se empurram para longe da parede em um desejo inconsciente de estar separados da situação.

Outros ficam perto da parede em um desejo inconsciente de estar perto de algo familiar. Junte isso às várias formas que os asseguradores reagem à uma queda, como contrair-se ou dar uma segurança dinâmica, e várias diferenças de peso entre os escaladores e os asseguradores, e temos inúmeras possibilidades para o que os escaladores realmente vivenciem uma queda.

A experiência da queda muda tudo. Aprendemos que não caímos diretamente para baixo; caímos em forma de arco. Esse arco varia de acordo com a forma da nossa transição para a queda e qual tipo de segurança recebemos de nosso assegurador.

Se nos empurrarmos para longe da parede, criaremos um arco maior e teremos mais impacto na parede. Se recebemos uma segurança dinâmica, então aumentamos o tamanho desse arco e diminuímos o impacto na parede.

Ter a experiência de algo significa que envolvemos o corpo no processo; temos a experiência da realidade através dos sentidos do corpo. Vemos a realidade da queda enquanto olhamos para baixo; sentimos a realidade do corpo no espaço enquanto fazemos a transição para a queda e o impacto na parede. O corpo está presente para a experiência da queda, portanto, pode aprender a cair.

Devemos ter certeza de que a mente está presente também. Fazemos isso ao ter certeza de que a mente não está pensando, criando concepções falsas enquanto o corpo está vivenciando o processo experimental. A mente precisa estar consciente para que a experiência seja completa. A mente não deve intelectualizar durante a experiência; ela deve apenas prestar atenção.

A experiência da queda transforma um entendimento intelectual de cair em um entendimento empírico. Uma vez que essa conversão é feita, podemos usar as palavras novamente.

Foto: http://www.thebmc.co.uk

Foto: http://www.thebmc.co.uk

Podemos descrever a queda, talvez usando 1000 palavras, mas essas palavras vão representar a realidade mais precisamente porque elas estão baseadas em conhecimento empírico. No entanto, quem está recebendo essas palavras precisa ter a experiência da queda se quiser saber.

Palavras, fotos, vídeos, experiências… Esta progressão é um lembrete útil de que sabemos algo quando temos a experiência.

Eu não tive muito progresso com as concepções erradas sobre queda do meu colega de vôo. Então, eu sugeri que ele fosse para uma academia de escalada e experimentasse a escalada e a queda.

Dica Prática: Foque em si mesmo

Devemos pensar sobre essa progressão de palavras-fotos-vídeos-experiências da próxima vez que postarmos comentários no Facebook.

Nossos comentários têm como base palavras que escutamos, fotos que vimos, vídeos que assistimos ou experiências que tivemos?

Perceber que sabemos de algo quando temos a experiência é um cheque de realidade saudavel para mudar o foco sobre o que sabemos e qual o retorno desse conhecimento para nós, de forma que possamos aprender a clarear nossas próprias falhas de concepção.

É melhor prestar atenção no nosso processo de aprendizagem ao invés de convencer os outros sobre o que eles devem aprender.

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O livro “The Rock Warrior Way – Mental Training for Climbing” está à venda traduzido para a língua portuguesa no Brasil em: http://www.companhiadaescalada.com.br/

Tradução do original em inglês: Gabriel Veloso

Arno Ilgner distinguiu-se como um escalador pioneiro nos anos 1970 e 80, quando as principais ascenções foram as primeiras fortes e perigosas. Essas façanhas pessoais são a base para Ilgner desenvolver o programa de treinamento físico e mental – Rock Warrior Way ®. Em 1995, após uma pesquisa aprofundada da literatura e prática de treinamento mental e as grandes tradições guerreiras, Ilgner formalizado seus métodos, fundou o Instituto Desiderata, e começou a ensinar seu programa de tempo integral. Desde então, ele tem ajudado centenas de estudantes aguçar a sua consciência, o foco de atenção, e entender seus desafios de atletismo (e de vida) dentro de uma filosofia coerente, baseada em aprendizado de tomada de risco inteligente. Ilgner considera a alegria e satisfação no esforço – a “viagem” – intimamente ligada à realização bem sucedida das metas.

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