Restringir o acesso às montanhas seria a solução para frear deterioração?

Por Sofia Arredondo

Já no último trimestre de 2018 vale a penas fazermos reflexões em torno de uma problemática latente da massificação das montanhas: o livre acesso e o acesso restrito. O texto abaixo é para refletir, não para ditar nenhuma regra ou fazer juízo de valor.

O fluxo de pessoas nas montanhas vem aumentando preponderantemente. Não importa se falamos de pequenos morros que não chegam a 2.000 metros acima do nível do mar, ou de gigantes montanhas com mais de 8.000 nos Himalaias. Cada vez são mais e mais pessoas de todos os lugares do mundo interessadas em subir montanhas. Igualmente, dia a dia, nascem empresas internacionais que aderem a moda da prática do montanhismo para satisfazer o apetite voraz de chegar aos cumes de montanhas.

Como? Facilitando aos montanhistas o acesso. Já há empresas para todos os bolsos, incluindo alguns itens de luxo para quem não abre mão do conforto.

 

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As montanhas representaram, desde muito tempo, uma espécie de brilho e espaço de liberdade, de encontro com o desconhecido, de meditação e solidão, aventura e superação. Tão atrativa que resultou para o indivíduo, quanto mais este se encontra submergido em um estilo de vida rodeado de distrações, pressas, angustia e todo tipo de contaminação que as montanhas são uma zona de escape, de saída. As montanhas são a sua “outra opção”.

Mas a polêmica a respeito ao livre acesso ou não às montanhas é uma realidade presente, cotidiana e global. Por que? Há, em termos gerais, duas posturas distintas: Montanhas com livre acesso e montanhas “reguladas”.

Montanhas com livre acesso

Por um lado estão os que afirmam que, por ser território da liberdade, as montanhas devem ser espaço as que possam acessar qualquer pessoa da população mundial. O contato com a natureza é “um direito”. Além disso, como este conceito, se consolidam sociedades mais saudáveis.

Por elas, as montanhas devem ser espaços públicos (não privados), de livre acesso e de desfrute para todos.

Montanhas reguladas

 

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Por outro lado, estão quem afirmam que as montanhas são, hoje em dia, o único território sobre o planeta que não foi “tão” afetado pela deterioração e destruição do ser humano e que deveria ser protegida. Ou pelo menos que tivesse acesso regulado.

As montanhas são pulmão, manancial e lar. São entornos naturais frágeis. Por ela, são urgentes as restrições de acesso, cobradas entradas e protocolos especiais. Mas não há dúvida de que o perene desejo por desfrutar das montanhas tem atraído consequências ambientais. Basta ir aos vulcões mexicanos, desde Monte Tláloc até o Pico de Orizada, para encontrar, como em qualquer local de trekking e hiking, lixo, restos fecais. Ou seja, caminhos estão cada vez mais deteriorados pela passagem de indivíduos e mascotes, que geram, por sua vez, a perda da flora e fauna endêmica.

No Monte Everest, a montanha mais alta do mundo, a situação não é tampouco diferente. Inclusive, pode-se facilmente dizer que é pior. Calcula-se que esta montanha colossal contém 50 toneladas de lixo e, ano a ano, as populações locais sofrem as consequências da contaminação de águas que vêm do degelo da neve da montanha.

O Mont Blanc, outra montanha que consta das mais atrativas do mundo, recebe aproximadamente 30 mil pessoas cada temporada, que é de junho a setembro, sofrendo com os mesmos problemas. Por causa disso, as autoridades competentes desta zona alpina francesa recentemente tomaram conta do assunto, estabelecendo uma nova medida que entrará em vigor já em 2019. A medida será implementada na via Saint-Gervais (a normal ou Goûter). A medida tem a finalidade de frear a deterioração ambiental e os problemas de segurança da montanha. Muito disso atribui-se o “efeito Kilian”. O prefeito de Saint-Gervais, Jean-Marc Peillex, afirmou em sua conta de twitter o seguinte:

Finalmente! Foi tomada uma decisão consensual depois da reunião organizada pelo governador Lambert. Estou orgulhoso de anunciar que em 2019 o Mont Blanc não será ultrajado. Será obrigatório ter uma reserva no refúgio e também se fixará uma cota de ascensões diárias” – Jean-Marc Peillex

Sem dúvida, o problema é muito mais complexo e amplo do que estar a alguns mil metros acima do nível do mar. Desde os mares profundos, passando pelas costas, vilarejos, cidades, vales e costas das montanhas, até o ar que respiramos. A pegada ecológica que o ser humano deixa por onde passa é alarmante.

Há alguns dias, Antonio Guterres, chefe da ONU, advertiu a humanidade que sobravam somente dois anos para atuar contra as mudanças climáticas (sim, este fator tão evidente que o “brilhante” Donal Trump, não consegue ver) caso não queiramos ver “consequências desastrosas”.

 

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Hoje podemos começar a reflorestar alguma área, ou mesmo dizer “NÃO!” ao plástico, como medidas de solução, mas amanhã talvez nem isso funcione mais. De acordo com a comissão de meio ambiente e recursos naturais do México, o país produz 9 milhões de garrafas plásticas por ano e existem 90 milhões de garrafas de refrigerantes e água feitos de PET reciclável, mas não biodegradável.

Para colocar um exemplo bem claro, de acordo com os especialistas, os glaciares mexicanos terão no máximo dois anos de vida. Ou seja. Caso confirme esta previsão, no ano de 2020 não haverá mais glaciares nas altas montanhas do México.

Fechar as montanhas é a solução?

O contato com a natureza é vital. Entre muitas razões é porque, nas palavras de Eduardo Martínez de Pisón (geógrafo, escritor e alpinista), a montanha é uma recompensa moral.

A paisagem da montanha é uma fonte de satisfações sem limites que, além disso, proporciona um desfrute da vida muito maior, mas é necessário aprender a olhá-la. Quanto melhor é nossa capacidade de observação e de “estar ali” em todos e com todos os sentidos, a recompensa e mais profunda” – Eduardo Martínez de Pisón

O acesso à montanha é um direito sim, mas como todo direito vem agregado responsabilidades e educação. Esta última não basta com somente a formal e teórica, obtida por livros, mas me refiro àquela que obtemos através do contato direto.

“Se perde o contato com a natureza, perde o contato com a humanidade” – Krishnamurti

Entretanto, a velocidade de deterioração do meio ambiente do planeta é muito maior que a efetividade da conscientização e educação das populações, para proteger os espaços naturais. A cada dia, organizadores, fundações e empresas trabalham em prol do anterior. Mas não basta. No momento o que está claro, é que regular o acesso é uma solução. As restrições de acesso (como número de pessoas que ingressam, material e equipamento que carregam e lio que trazem consigo), cobrança de entradas (para manter as montanhas limas) e protocolos especiais (como programas que promovam o acesso sustentável das montanhas) são cruciais e, sobretudo, urgentes.

O ideal está claro, é que com o tempo estas tipas de medidas não sejam necessárias e, inclusive, nos pareçam absurdas. Mas não podemos pretender ser os deuses do esporte, sem também ser humano: cuidando de nossos espaços naturais. Dito isso, qual a solução que você, caro leitor, pretende implementar para cuidar de nossas montanhas, em um mundo que cresce exponencialmente com o turismo desenfreado destes espaços naturais?

Tradução autorizada: https://freeman.com.mx

Freeman é o mais importante site sobre escalada e esportes de montanha do México e organiza o mais assistido festival de filmes outdoor da América Latina

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