Pico da Pedra Maior : Um relato de conquista e sua importância no desenvolvimento da escalada local

O Parque Estadual Carlos Botelho possui um ponto culminante de pouco mais de 1.000 metros de altitude, conhecido como Pico da Pedra Maior. Este ponto está localizado na bacia do Ribeira de Iguape (verifique no mapa abaixo), no município de Sete Barras-SP, não muito distante da divisa com o Parque Estadual Intervales.

Desde o início de atividades administrativas e de levantamento de dados, sempre se soube do potencial do local, sendo um dos atrativos mais nobres desta Unidade de Conservação.

No ano de 2013 foi iniciado pelo autor deste artigo, por meio do Instituto Manacá com o fomento da Fazenda Elguero, o projeto de estruturação e operação do Pico da Pedra Maior, após um levantamento prévio realizado em uma expedição de 2011.

Parte do projeto, previa a conquista de seus dois cumes: acontece que para se chegar ao cume propriamente dito, é necessário escalar um trecho de aproximadamente 15 metros de altura, em uma parede vertical a negativa.

Foto: Hiago Ermenegildo

O cume da esquerda, menor, foi conquistado no dia 3 de janeiro de 2014, numa expedição que contou com a participação do Instituto Manacá, moradores da comunidade do Rio Preto e um montanhista da região de Sorocaba (Fábrica de Monstrinhos).

Sempre com o apoio da gestão do Parque Estadual Carlos Botelho, à época na pessoa do Dr. José Luiz Camargo Maia.

A via foi conquistada em artificial de Cliff e grampo “P”, possuindo 12 metros de altura. A linha ficou denominada como: “Frio e Vento” (A1/12 m), dada as condições climáticas totalmente desfavoráveis que nos encontrávamos nesta conquista.

Foto: Hiago Ermenegildo

Utilizando batedor com broca 12, na chuva insistente e vento constante, a via foi aberta em 7 horas e 30 minutos. Para esta expedição, foram necessários duas pernoites no Acampamento Avançado.

Desde o início da execução deste projeto, foram realizadas mais de 10 expedições de elaboração e manutenção da trilha oficial. Estacas pintadas foram colocadas ao longo de 90% de todo percurso, em espaçamento de no máximo 80 metros, facilitando a orientação e a oficialização de um único percurso. E a estruturação da área de oficial de acampamento, a Casa de Pedra.

Todas as expedições contaram com a participação do entorno, em especial extrativistas da comunidade do Rio Preto.

Foto: Hiago Ermenegildo

Todas as intervenções, e a trilha propriamente dita, seguiram as premissas descritas no Plano de Manejo do PE Carlos Botelho: conforme orientações para Turismo Sustentável em Zonas Primitivas. Além dos relatórios de Ecoturismo do BID (Banco Internacional de Desenvolvimento) elaborados em 2012 pela Fundação Florestal.

A trilha oficial possui aproximadamente 15 quilômetros de extensão, iniciando no Núcleo de Sete Barras e terminando no colo das duas pedras. Ida e volta, somam-se quase 30 quilômetros.

Durante seu percurso, atravessa-se trechos de floresta madura a primária, rios subterrâneos e diversos mirantes – ainda existe a possibilidade de se encontrar espécies raras, como o Muriqui, a Jacutinga, a Onça-pintada, a Anta e diversas outras.

Na continuidade da execução deste projeto, no dia 18 de fevereiro de 2017 foi conquistada finalmente a pedra mais alta, o ponto culminante do Parque Estadual Carlos Botelho – nunca antes alcançado.

Esta expedição contou com a participação do Natanael Ozório, Edinilson Rodrigues (Guardas-Parque do PE Carlos Botelho), Hiago Ermenegildo, Mariana Landis [Pesquisadores do Instituto Manacá] e Pietro Scarascia (gestor da UC à época).

Para acessar o cume foi necessário vencer 13 metros de parede vertical a negativa. Desta forma, foi aberta a via: “Brachyteles” (A1, 15m).

Foto: Natanael Ozório

Seu nome foi em homenagem a este importante primata, o Muriqui, que vive nas matas do Parque Estadual Carlos Botelho e encontra-se na categoria mais alta de ameaça.

A via “Brachyteles” foi aberta em técnica de escalada artificial, alternando furos de Cliff, chapeletas e grampos. Foram necessárias 3 chapeletas e dois grampos “ P “. O mais impressionante desta via, foi o engano que tivemos na escolha do local: acreditando estar abrindo a via na parte mais curta da rocha, ao vencer um trecho negativo, tivemos a surpresa de mais uma boa parte de rocha – como uma ponta –, tornando a linha como a mais longa. Entretanto, devido a isto, a via terminou exatamente no cume do Parque Estadual Carlos Botelho.

Foram 7 horas de caminhada até o colo, e mais 3 horas e 30 minutos de abertura da via de escalada até o cume. Tivemos a sorte de pegar um bom tempo. Após pernoite, com muito pernilongo, 4 horas de retorno.

Não há registro de ascensão de ambos cumes, pois é obrigatório vencer trecho de escalada essencialmente técnica. Desta forma, esta conquista é um registro histórico para o montanhismo nacional e do Vale do Ribeira.

Até o momento, somente três pessoas pisaram no cume do Parque Estadual Carlos Botelho: Pietro Scarascia, Mariana Landis e Hiago Ermenegildo.

Em seu ponto mais alto, foi colocada uma urna com um Livro de Cume do Parque Estadual Carlos Botelho, onde os montanhistas e ecoturistas poderão registrar o seu nome e a conquista desta montanha.

Foto: Pietro Scarascia

O projeto do Pico da Pedra Maior pleiteia utilizar o montanhismo como ferramenta de inclusão social. O intuito é que guias e agências regionais vendam o pacote/produto do Pico da Pedra Maior do Parque Estadual Carlos Botelho a ecoturistas e entusiastas de montanhismo.

O objetivo principal é incentivar práticas legais e sustentáveis, e a abertura desse atrativo possibilitará nova fonte de renda a extrativistas ilegais que atuam nesta Unidade de Conservação.

Durante a expedição, foram estudados outros potenciais ecoturísticos do local, tais como: um novo mirante, que orienta a visão ao vale do Rio Quilombo; abertura de outras vias de escalada em pedras adjacentes; e a instalação de uma escada de ferro, para que o cume possa ser acessado por turistas que não dominam a técnica de escalada.

Destaca-se a beleza do local.

Foto: Pietro Scarascia

Do ponto culminante, é possível visualizar quase que a totalidade do Parque Estadual Carlos Botelho, parte do Parque Estadual Intervales e a grandiosidade do Vale do Ribeira ! – Pegando o nascer-do-sol, as montanhas da Serra do Mar litorânea.

Agradecemos a todos os participantes de todas as expedições, reforçando o agradecimento na participação da comunidade do Rio Preto, município de Sete Barras.

Foto: Hiago Ermenegildo

Sobre o Autor

Pietro Scarascia

Pietro Scarascia

Pratica montanhismo há quase 20 anos, tendo escalado em diversos Estados do Brasil e países da América do Sul – como na Cordilheira Blanca no Peru e o Monte Roraima na Venezuela. Já abriu diversas vias no Estado do Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo. Investe em um estilo mais tradicional de montanhismo e escalada.
Atua com conservação da natureza por meio de pesquisa científica, gestão ambiental e desenvolvimento sustentável. Possui MBA em Gestão Ambiental e Sustentabilidade, e cursa Mestrado Profissional em Sustentabilidade na Gestão Ambiental, foco em Áreas Protegidas. Foi Chefe de Unidade da Fundação Florestal, lotado como gestor do Parque Estadual Carlos Botelho. Atualmente trabalha como Diretor Técnico de Unidades de Conservação do Instituto Manacá, tendo como foco a criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural e a elaboração/execução de Planos de Manejo.

There are 6 comments

  1. Fidelcino Teixeira de almeida Junior

    Meu amigo Pietro,me deste um presente,fico emocionado ao ver todos os dias, do portão de casa esta montanha,pela qual sou apaixonado,de ler e ver sua narrativa,pude sentir a emoção de estar lá,de sonhar,mais uma vez agradecido.

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