Grandes nomes do esporte: Reinhold Messner

Um mito é diferente de lenda, porque uma lenda pode ser uma pessoa real que concretizou feitos fantásticos, como Pelé, Michael Jordan, Maradona, Michael Phelps, Martina Navrátilová, Nadia Comăneci, Marta, etc. Um mito é um personagem criado, como Zeus, Hércules, Hidra de Lerna, Fênix, etc. Mas o que dizer então de Reinhold Messner? Uma figura que para muitos é quase imune a qualquer tipo de contestação e que, frequentemente, está emitindo a sua opinião a respeito do esporte que ele dominou e revolucionou como poucos.

Montanhista, explorador, escritor e ex-político sul-tiroles, considerado por muitos como um dos melhores montanhistas de todos os tempos, Reinhold Messner dispensa apresentações. Possui uma extensa lista corrida de feitos que faz com que muitos dos alpinistas modernos ainda tenham vergonhas de si mesmos quando comparado a Messner. Sua carreira de escaladas em montanhas que, à época, eram impossíveis e inimagináveis para qualquer praticante, tem como seu feito mais notável ter subido o Monte Everest (8.848 m) sem o uso de oxigênio suplementar. Até os dias de hoje, é uma façanha pouco repetida.

Além disso, Reinhold Messner foi a primeira pessoa da história da humanidade a subir todas as montanhas acima de 8.000, em um feito que o colocou como maior nome do montanhismo de todos os tempos.

De personalidade forte, sem medo de emitir a sua opinião a respeito de qualquer pergunta feita a ele, Messner sempre está proferindo frases ácidas e muitas alfinetadas para o rumo que o alpinismo, especialmente quando se refere a Everest, que possui excesso de artistas e apresentadores de TV estabelecendo marcas vazias.

Juventude

 

Apesar de estar sempre falando em alemão, Reinhold Messner, é italiano. O montanhista nasceu em Bressanone, cidade de região do Trentino-Alto Ádige na Itália, em 1944. Atualmente a cidade possui pouco mais de 20.000 habitantes. Messner cresceu cercado pelas Dolomitas, uma parte dos Alpes Italianos e, curiosamente, a região é uma área que fala o idioma alemão (apesar de estar na Itália).

Reinhold tinha oito irmãos e uma irmã e, de acordo com suas palavras, seus pais eram muito rigorosos com ele. Messner foi introduzido ao montanhismo pelo seu pai, Josef Messner (um professor que trabalhava na região), quando ele tinha apenas 5 anos de idade.

Quando tinha 13 anos, ele começou a escalar com seu irmão Günther, de 11 anos e quando ambos estavam com vinte e poucos anos, eram considerados um dos melhores alpinistas da Europa. Desde a adolescência, ele se tornou um alpinista experiente e começou a conquista dos picos próximos, favorecendo um estilo de escalada mais minimalista, que envolvia apenas o equipamento mais essencial.

Na década de 1960, Messner, inspirado por Hermann Buhl (alpinista austríaco considerado dos melhores do mundo), foi um dos primeiros e mais entusiastas adeptos do alpinismo de estilo alpino no Himalaia. Este estilo consistia em escalar com equipamento muito leve e um mínimo de ajuda externa. Messner considerava o estilo usual de expedição “desrespeitoso” em relação à natureza e às montanhas.

A partir de 1967, Messner estudou engenharia arquitetônica na Universidade de Pádua. No entanto, ele ainda encontrou tempo para escalar as montanhas ao redor (muitas vezes com seu irmão mais novo Günther), fazendo com que suas habilidades de escalada aumentassem. À medida que suas habilidades cresciam, também crescia sua atração por picos mais altos.

Como as montanhas mais altas do mundo estavam por volta de 8.000 metros de altura, muitas delas com pouquíssimas ascensões, nascia na época a maior atração do montanhista: escaladas no Himalaia.

A morte do irmão e o Everest sem oxigênio

Em 27 de junho de 1970, Reinhold e Günther tinham acabado de completar uma escalada no face Rupal do Nanga Parbat (8.126 m). A escalada acabou tornando-se um sucesso trágico. Tanto ele como seu irmão Günther chegaram ao cume, mas na decida Günther começou a mostrar sinais de mal de altitude. Convencido de que seu irmão não seria capaz de descer a Rupal Face, Reinhold começou a procurar um caminho mais fácil.

No entanto, durante a sua descida, Günther ficou para trás. Quando Reinhold voltou para verificar seu irmão, ele descobriu que Günther havia sido levado por uma avalanche. Não bastasse a tragédia pessoal, Reinhold perdeu seis dedos do pé, que se tornaram muito congelados durante a escalada e exigiram amputação. Na época, Messner foi severamente criticado pela comunidade por insistir nesta escalada com um montanhista menos experientes como Günther.

A história foi contada em 2010, no filme “Nanga Parbat”, de Joseph Vilsmaier, o qual foi inteiramente baseado em seu relato dos acontecimentos. Mais de 30 anos depois, quando Messner publicou sua versão dos acontecimentos em “The Naked Mountain”, a polêmica foi reavivada, com alguns montanhistas questionando a veracidade de sua narrativa.

Apesar da tragédia em Nanga Parbat, a paixão de Messner pela escalada continuou inabalável. Em 1974, ele se juntou a Peter Habeler, outro montanhista que compartilhava a filosofia minimalista de Messner no montanhismo. Juntos eles ascenderam ao Eiger (3.970 m) em tempo recorde. No ano seguinte, eles escalaram o Gasherbrum I (8.080 m) na cordilheira de Karakoram. Detalhe: sem oxigênio suplementar.

Em maio de 1978, tentaram escalar o Monte Everest (8.848 m), novamente sem a ajuda de tanques de oxigênio. A escalada foi muito bem-sucedida, tornando-os os primeiros escaladores a subir o teto do mundo sem oxigênio suplementar.

Um feito que até os dias de hoje raramente é repetido. Somente para se ter uma ideia, aproximadamente 8.000 pessoas já subiram ao Monte Everest, mas apenas 193 fizeram sem oxigênio suplementar (2,41% do total). Messner mais tarde descreveu sua experiência: “Eu não sou nada mais do que um único e estreito pulmão ofegante, flutuando sobre as névoas e cumes”.

Reinhold Messner parecia insaciável, e voltou ao Everest para fazer algo inimaginável, em termos de abordagem purista a subir ao extremo. Foi quando Agosto de 1980, Messner decidiu fazer a primeira subida solitária do Monte Everest sem oxigênio extra, sherpas ou escadas de fendas. E conseguiu.

Toda a saga da escalada em solitário é contada em seu livro “The Crystal Horizon”, um dos mais de 50 títulos que publicou durante sua carreira de montanhista.

Yeti e outras expedições

Com suas escaladas implacáveis ​​aos picos mais altos do mundo, em 1986 Messner se tornou o primeiro homem a escalar todas as montanhas do mundo acima de 8.000 metros. Nessa época, ele também relatou ter visto um yeti (Abominável Homem das Neves). Apesar de ter sido rotulado por alguns como um maluco por sua fixação com os animais, Messner continuou a procurá-los, argumentando que eles são de fato reais, embora talvez apenas algum tipo raro de urso noturno.

Reinhold Messner fez um total de cinco expedições para Nanga Parbat entre 1970 e 1978. Na expedição de 1978 fez em solitário. Mas, ironicamente, em 1971, 1973 e 1977, não chegou ao cume. No ano de 1971, procurando fazer as pazes com si mesmo, foi à montanha procurar os restos de seu irmão.

Em 1985, Richard Bass postulou (e alcançou) o desafio de montanhismo Seven Summits, que consiste em escalar os picos mais altos de cada um dos sete continentes e o Denali (6.190 m). Messner, que já era uma lenda a esta altura da vida, sugeriu outra lista (a Messner ou Carstensz lista) substituindo o Monte Kosciuszko (2.228 m), pelo Pirâmide Carstensz (4.884 m). Obviamente que, do ponto de vista do alpinismo e do mérito, a lista Messner é a mais desafiadora. Isso porque a escalada na Pirâmide Carstensz tem o caráter de uma expedição “de verdade”, enquanto a ascensão de Kosciuszko é uma caminhada fácil.

No ano de 1986, Pat Morrow (fotógrafo e alpinista canadense) tornou-se a primeira pessoa a completar o Messnerlista, seguido pelo próprio Messner quando ele cume o Monte Vinson (4.892 m) em dezembro de 1986.

Além de subir os picos mais altos do mundo, Messner também realizou numerosas outras expedições, incluindo a travessia da Antártica do deserto de Gobi. Ambas expedições feitas a pé. No ano de 1999, Messner também fez uma tentativa de carreira na política, ganhando uma cadeira no Parlamento Europeu como membro do Partido Verde italiano. Durante seu mandato, que terminou em 2004, dedicou seus esforços principalmente às causas ambientais e aos direitos humanos.

Desde então, Messner tem trabalhado em uma rede de seis museus da montanha Messner, “dedicados à arte, cultura, religião e peculiaridades das regiões montanhosas em todo o mundo”. Ele também estabeleceu a Messner Mountain Foundation para “apoiar as corridas de montanha em todo o mundo”.

There are 2 comments

  1. Zizzo Bettega

    Bressanone é uma comuna italiana pertencente a Bolzano. Que junto de outra província autônoma que é a de Trento compõem as duas juntas a região do Trentino-Alto Ádige que historicamente são regiões autônomas cooperativas que pertencem ao Reino do Itália desde 1922 com o Pacto de Saint Germain [Iª Guerra]. Em Bolzano predomina a língua germânica mas existem outras minorias linguísticas como o Cimbro que é um dialeto alemão falado em território trentino onde predomina o italiano. Tem também o Ladino dolomítico que é uma língua neo-latina presente também nas regiões do Vêneto e do Friuli. Messner defendeu recentemente se limitar o uso do carro para turismo nos Alpes Dolomíticos Patrimônio da Humanidade Unesco sugerindo novos trajetos ferroviários requalificados, rotas cicloviárias, os bondinhos já existente combinados com novas travessias de trekking tudo para preservar o silêncio característico do ambiente alpino e atrair o turismo de baixo impacto ambiental.

  2. PHILIPPE LOBO

    Obrigado pelo texto. Admiro muito seu trabalho Luciano. Não dispenso apresentações como esta que me acrescentam e me fazem refletir.
    Creio que a grandeza de um homem não deva ser motivo de vergonha para os outros, mas de inspiração.
    Por mais que compartilhe a admiração por Massner, não se trata de um mito ou lenda. Estas palavras estão cada vez mais gastas e vazias. Talvez herói seja uma palavra mais adequada.
    Será que Pelé ou Michael Jordan, assim como Messner, serão tão lembrados assim daqui a 100, 200 anos? Qual a real grandeza dos feitos esportivos? Fazemos essas coisas pela fama e reconhecimento ou por um motivação mais íntima? O Valor de um “ás” do esporte ou da arte está em seu mérito de ser melhor que outros ou na simples beleza e verdade de suas obras?
    Para mim, a grandeza desses feitos, como os de Messner, sobretudo os que não nascem de um mega mercado do esporte, mas, partem de motivação pessoal e simbólica, é mostrar que o ser humano pode ter sua vida voltada ao surpreendente, ao criativo, à auto superação e à busca pela harmonia com o mundo e os seres… em vez de apenas ser explorado como força de trabalho e fonte de acúmulo de capital, poder e território.
    Ao considerar tais feitos num contexto competitivo em que se disputa qual é o ego mais forte podemos perder esta essência de impulsionamento de toda a espécie humana e cair numa simples busca por auto afirmação e confronto com os semelhantes.
    Creio que o esporte deva ser apenas um pretexto. Competir é apenas uma brincadeira que nos ajuda com uma motivação extra para crescer.
    O montanhismo é maravilhoso e sua visão como mera competição o diminui a meu ver.
    Porém, faz parte da natureza humana que a competição seja posta à frente da comunhão. Seria este nosso principal erro?

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