Conheça 5 regras essenciais (mas nunca publicadas) para a prática do trekking

Um dos artigos que ganhou muita atenção da Revista Blog de Escalada, sem dúvida foi a disponibilização para download dos manuais de montanhismo do exército americano. Nestes manuais, com especialidades para cada tipo de terreno, vários tópicos de montanhismo e táticas de orientação são explicadas. O conteúdo do manual passa desde ensinar a fazer nó “lais de guia” até mesmo evacuação de emergência e transporte de suprimentos.

Por questões táticas, de proteção ao território de seu próprio país, os militares gastam muito tempo em cima de tópicos como eficiência e eficácia de seus soldados. A partir deste intensivo estudo, várias conclusões foram tiradas e, por isso, existem algumas “regras nunca publicadas”, mas abertamente passada de recruta a recruta. Estas regras foram passadas dos mais experientes aos novatos.

Portanto, para caminhadas de longas distâncias com uma mochila é necessário saber se preparar adequadamente. Diferentemente do praticante de trekking civil, o soldado muito dificilmente terá a oportunidade de poder descansar quando bem entender. Exatamente por este detalhe é importante saber estas regras essenciais para que possamos também melhorar o rendimento em um trekking.

Regra do meio quilo

Após vários estudos, além de extensas entrevistas com os recrutas, o exército americano chegou a uma conclusão interessante: para cada 500 gramas a mais nos seus pés, equivale a 2 kg nas costas. Esta regra é verdadeira e foi realizada pelo Instituto de Pesquisa do Exército dos EUA (U.S. Army Research Institute) em 1984. Nos testes foram medidos a quantidade de energia gasta com diversos calçados diferentes (botas e tênis) e concluíram que é necessário de 4,7 a 6,4 vezes mais energia para se movimentar em um determinado ritmo, quando o peso é transportado para os pés e tronco. Conclusão: uma libra (453,6 gramas) em seus pés equivale a cinco libras (2.267,96 gramas) nas suas costas

Em termos práticos, significa que você pode carregar meio litro de água a mais se tiver botas mais leves. Daí a importância de procurar um calçado de qualidade. Aí está o detalhe que muitos estranham quando é afirmado que um coturno não é uma boa escolha para uma caminhada. Um coturno, caso o leitor não saiba, tem como principal preocupação a durabilidade e robustez. Por este motivo, na concepção de seu projeto, sobretudo o modelo fabricado no Brasil, é que um coturno é pesado e muitas vezes incômodo para caminhadas. Botas de trekking adequadas, geralmente privilegiam a performance e o conforto. Infelizmente não tem como prioridade a longevidade como o coturno do exército, por este motivo “dura menos”.

Portanto, para quem não quer sofrer em trekkings com a sensação de mochilas pesadas, investir em tênis ou botas mais leves, é uma decisão que irá fazer bem durante uma travessia. Isso porque, ao contrário de um soldado, você tem escolha de poder escolher o calçado, ele não. Uma bota de trekking, por exemplo pesa aproximadamente 400 gramas. Um coturno comum, vendidos em lojas de artigos militares, pesa aproximadamente 900 gramas.

Quanto mais sofisticado um coturno, como os de combate e outros usos, mais pesado ele fica. Lembre-se, junto de um calçado você estará usando meias, que após ficarem molhadas de suor, também irá pesar nos seus pés. Portanto, o uso do calçado vai da capacidade de avaliação, análise e, claro, possibilidade do usuário.

Regra dos 5%

Uma outra regra que parece apontar para a importância de um calçado leve, é a de que também faz com que o praticante de trekking gaste mais energia. Ainda de acordo com os estudos do Instituto de Pesquisa do Exército dos EUA, Cada libra (453,6 gramas) a mais nos pés equivale a 5% a mais de energia gasta. Lembrando que para um trekking, o mesmo raciocínio com o seu cartão de crédito também vale. Se você gastar muito sua energia no início da caminhada, irá faltar para que chegue ao sei destino final.

Calçados muito rígidos, sou pouco responsivos, reduzindo a eficiência do estiramento do corpo ao atingir o solo. O instituto, ao fazer os estudos, fez a seguinte conta: 5% a menos no rendimento, diminui a sua caminhada de uma milha (1,61 km) em 30 segundos. Este tempo pode aumentar, dependendo de que trecho o caminhante está (início, meio ou fim). Portanto, para quem tem pressa de chegar a um destino, maior será o “sofrimento”.

Portanto, a escolha das meias de trekking parece um tema muito apropriado quando abordamos os aspectos desta regra dos 5%. Entretanto o pior erro que um praticante de trekking pode cometer é querer improvisar qualquer equipamento no uso de montanha.

Usar meias de algodão compradas no supermercado mais próximo (em vez de utilizar meias de trekking apropriadas), pode fazer sua atividade ser demorada em várias horas, além de contribuir para o aparecimento de bolhas nos pés. Parece desnecessário falar mas é planta do pé o lugar do corpo que mais aparecerão as consequências de sua escolha errada.

Regra do peso corporal

Esta regra não é tão desconhecida assim, pois é encontrada em qualquer manual europeu do Caminho de Santiago. O peso ideal para uma mochila em uma caminhada é 10% do seu peso corporal. Ou seja, se você pesa 60 kg, para que não sofra muito o peso seria 6 kg. Claro que isso para o Caminho de Santiago, onde não se carrega muito peso e dorme-se em albergues a cada trecho. Mas para uma travessia? Bem aí a regra muda um pouco. Cada 1% de seu peso transportado na mochila faz com que você fique 6 segundos mais lento na trilha.

A conta é fácil de fazer, sendo até intuitiva. Se você tem aproximadamente 72 quilos, cada 720 gramas (0,72 kg) a mais na sua mochila irá deixar você 6 segundos mais lento para percorrer 1,60 km. Para um trekking de 25 km, você estará 93,75 segundos (1 minuto e 33 segundos aproximadamente). Parece pouco, mas fazendo a conta ao contrário, de deixar a mochila mais leve é possível reduzir 40 segundos por cada 1,6 km.

Lembrando que, como foi um instituto do exército que mediu estes valores, muito possivelmente os soldados cobaia estavam em um preparo físico exemplar.

Regra da inclinação

Como já foi explicado aqui na Revista Blog de Escalada, a maneira de calcular o tempo de um trekking é levando em consideração a velocidade de translação na horizontal e vertical. A soma dos dois tempos é que determina o tempo médio da duração de um trekking.

Porém, quanto de velocidade se perde em uma inclinação. Para saber mais sobre isso, o instituto aferiu que em termos de percentagens de inclinação, muito usado na construção civil brasileira. A porcentagem de uma inclinação é relativamente simples de entender: significa que a cada 1 metro, há uma subida de 10 cm. A inclinação em graus, como a conhecemos, é em torno de 5°.

Portanto, segundo mediu o instituto, um grau de inclinação de 10% já diminui a velocidade do praticante e trekking pela metade, não importando se está carregando 20 ou 40 quilos.

Regra da disciplina

Esta talvez seja a regra mais importante do praticante de qualquer atividade de montanha: disciplina. Disciplina é o ato de se controlar a alguém ou a si próprio, portanto todas as vezes que um praticante de trekking inventar de “inovar caminhos”, “economizar” em itens essenciais e/ou “improvisar” equipamentos, ele já estará prejudicando o seu rendimento e das demais pessoas.

Nesta temporada de montanhismo de 2018 houve vários casos de pessoas que tiveram de ser resgatadas por se perderem. Toda a cobertura jornalística, tanto de meios especializados quanto das mídias de massa, foi possível verificar toda a imprudência na grande maioria dos casos. No Brasil, ainda, não existe multas para a comprovação de imprudência e imperícia do resgatado.

Por isso, ao ir realizar uma atividade de trekking, procure estar consciente de que qualquer atraso em sua performance, a culpa é somente sua. Quando resolve saber mais que todos, porque sofre de síndrome de superioridade ilusória, pense duas vezes pois poderá virar notícias em todos os meios de comunicação do planeta. Somente porque você se sente mais inteligente que as pessoas à sua volta, ou mesmo mora próximo de uma área de trekking, não credencia você a praticar a atividade sem ter conhecimento prévio e comprovado pela comunidade de montanhistas.

Não ter disciplina para entender que nunca sabe-se tudo, nem mesmo é capaz de identificar a própria ignorância, irá fazer você não somente atrapalhar a sua atividade, como também pode encurtar a sua vida.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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