É possível pendurar-se por 2 minutos em um reglete de 20mm? Leia a análise

Parece incrível que um escalador consiga ficar pendurado por dois minutos em um reglete de 20mm. Este tamanho de reglete é usado por outros escaladores para treinar força máxima de dedos pendurando-se por apenas 10 segundos.

Em um campeonato ocorrido em Chamonix, foi realizado um teste em uma espécie de competição promovido pela marca Zlagboard (especializada em fingerboard) para averiguar quem conseguia durar mais em um reglete deste tamanho.

Para espanto de todos a escaladora ucraniana Nika Potapova, de apenas 15 anos, conseguiu ficar por dois minutos. Vale, a esta altura do artigo, lembrar que a escaladora já encadeou em sua carreira uma via graduada em 8c francês (11a brasileiro). O vídeo no topo do artigo, da façanha de Nika Potapova, serve como prova de que a escaladora consegue ficar 2:40 em um reglete de mesmo tamanho.

Mas, além de surpreender-me assistindo ao vídeo, resolvi fazer uma análise de como uma pessoa consegue ficar todo este tempo, porque é evidente que ela tem um excelente uso de técnica para conseguir ficar mais tempo. Para que aproveite melhor a análise, sugiro que leia artigo que escrevi sobre o G-Tox

Análise

Assistindo ao vídeo (assista vídeo acima) repare que a atleta começa a pendurar-se muito relaxada. Logo de início seu troco e pernas estão completamente relaxados, com sua cabeça olhando para frente e levemente para baixo. Esta posição faz com que toda a sua musculatura não relacionada com o reglete não seja usada.

Todo o seu sistema cardio-circulatório e mental focado somente em se pendurar, especialmente seus músculos do antebraço. Aos 30 segundos, ela faz um gesto de mover-se para melhorar o posicionamento das mãos no reglete. Isso parece somente um ajuste das mãos, mas foi fundamental esta fração de segundos para fazer circular o sangue para os antebraços.

Durante a contração, a circulação é quase nula, chegando a ser inexistente. Assim, se não há um relaxamento da musculatura, é impossível levar mais oxigênio para tirar os eletrólitos acumulados, especialmente diminuir a acidez muscular que leva à fadiga.

Esta escaladora seguramente possui um sistema anaeróbico na maior parte dos minutos, mas em alguns movimentos faz menção que a oxigenação muscular é importante para manter o sistema metabólico ativo. Há estudos médicos realizados, nos quais escaladores treinados melhoram muito sua saturação de oxigênio, somente agitando os antebraços um segundo. Nika, com este gesto que realizou para posicionar suas mãos, fez um movimento de agitação. Estes décimos de segundo devem ser um pequeno alívio para obter mais oxigênio e liberar resíduos.

Após este movimento rápido, a atleta volta para a sua posição de relaxamento e repete o movimento de reposição de oxigênio aos 55 segundos.

Logo aos 1:30 começa sua verdadeira luta. Depois de reposicionar as mãos, seu corpo não mais relaxa e seus braços ficam em 90°, mudando a longitude de concentração dos músculos do antebraço e aplica uma carga diferente a eles. Somente por ter mudado de postura corporal, a força pode ser incrementada de maneira artificial.

Já aos 1:45, adota uma postura que para muitos é conhecida de quando está muito cansado: sobe-se os cotovelos. Isso é uma reação intuitiva do corpo. Os músculos antagonistas se contraem e o pulso faz uma sobre-extensão. Isso faz com que os músculos flexores se estiquem ainda mais e, com este estiramento, gerem uma tensão sobre os tendões distais. Ou seja, os dedos se mantêm contraídos por um efeito indireto dos músculos antagonistas, mas neste caso está indo a um caminho sem retorno.

A possibilidade de buscar a agitação muscular já não é possível, porque qualquer movimento extra fará com que a mão se abra. A falta de oxigênio e a súbita alta de acidez são irreversíveis. Nika finalmente apresenta uma falha muscular e cai, mesmo com a postura mantida. Claro que tudo isso depois de 2:02.

Parece muito longe? Sim, mas a mesma reação física poderia repetir em você, mas não no mesmo tempo e, talvez, em um reglete maior. Mas se somente pendurar-se, sem fazer nada, seguramente o seu tempo não será nem a metade do que conseguiria se o fizesse da mesma maneira que Nika. Na escalada acontece a mesma coisa, se não possui as ferramentas técnicas para aumentar sus tempos em agarras.

Tradução autorizada de: http://rocanbolt.com

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Gonzo Rocanbolt é chileno, médico, escalador e indiscutivelmente uns dos mais completos autores de artigos sobre treinamento de escaladores existentes no mundo. Respeitado em todo o mundo é o organizador do Simpósio de Medicina de Montanha no Chile e palestrante de eventos de escalada no Chile, Argentina e Espanha

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