Regletar na escalada : uma visão da ciência sobre apertar pequenas agarras

Uma das coisas mais comum em certos escaladores que têm muita facilidade (e apreço) na hora de agarrar-se aos regletes, e mais ainda em micro-regletes. Também é de conhecimento geral que este tipo de agarra, conhecida como reglete, é utilizado o que se chama de agarre tipo arqueio ou arqueio externo das mãos.

Este arqueio consiste em concentrar todo o peso, ou força, para levantar-se pelas digitais dos dedos, as quais estão geralmente uma ao lado da outra, com a articulação distal em hiperextensão e a proximal em flexão de 90 graus aproximadamente (Schweizer, 2001). O arqueio externo consiste em somar-se à pressão do polegar sobre o dedo indicador, incrementando a hiperextensão da articulação distal.

Esta posição é uma das mais propensas à lesão da polia dos dedos (A2 – A4), já que geram forças excessivas na articulação interfalângica proximal (PIP) e o sistema de polias que estabilizam o tendão durante a flexão do dedo (Klauser e cols, 2002).

Para muitos escaladores utilizam uma vendagem com esparadrapo ao redor da polia, com a ideia de reforçá-la e evitar este tipo de lesão, mas isso tudo é um tema para tratar em outro artigo, já que há inúmeros estudos que se encarregaram de analisar os benefícios, existentes ou não, sobre ele.

Em um estudo recente publicado por Bourne e colaboradores (2011) investigou-se o efeito do tamanho dos regletes em relação à estrutura da ponta dos dedos e a posição do arqueio da mão.

Os pesquisadores realizaram testes de máxima força que podia realizar a mão em regletes de diferentes tamanhos :

  • 2,8 mm
  • 4,3 mm
  • 5,8 mm
  • 7,3 mm
  • 12,5 mm

Para cada tamanho de reglete, um ultrassom captou as imagens das pontas dos dedos.

O teste foi feito com 15 escaladores realizando a força máximo que conseguissem implicar nos regletes de cada tamanho com cada mão. Assim obtiveram o valor referência de força máxima em um reglete maior, o qual era o que os escaladores sentiam-se mais cômodos em aplicar a maior quantidade de força.

Interessantemente à medida que o tamanho do reglete ia diminuindo, a correlação com a força máxima (testada no reglete maior) ia também reduzindo, ou seja, com regletes menores (2, 8 e 4,3 mm) os indivíduos com maior força não eram os que podiam exercer a maior força. Assim correlacionou com a espessura da pele até o osso.

Segundo os autores uma possível explicação disso é que o maior volume de tecido permite maior deformação da ponta do dedo e, assim, aumentar a superfície de contato resultando no aumento do momento de alavanca das forças aplicadas nos dedos.

Portanto é assim que aqueles que tenham dedos maiores e carnudos deveriam ter melhores possibilidades para aplicar maior força em micro-regletes. Quem não se encaixa nesta faixa de pessoas não deve desesperar-se, pois o estudo somente foca no arqueamento com os pés apoiados no solo e na melhor posição para exercer a força. Quando as variações de tipo de rocha, tudo muda.

Bibliografia

Artigo escrito por Juan Martín Miranda – Escalador argentino, professor e treinador profissional. Dedicou vários anos ao assunto tanto na Argentina como em outros países à pesquisa e é um investigador da escalada esportiva e seu treinamento.

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Sobre o Autor

Gonzalo 'Gonzo' Riobbo

Gonzalo ‘Gonzo’ Riobbo

Gonzo Rocanbolt é chileno, médico, escalador e indiscutivelmente uns dos mais completos autores de artigos sobre treinamento de escaladores existentes no mundo. Respeitado em todo o mundo é o organizador do Simpósio de Medicina de Montanha no Chile e palestrante de eventos de escalada no Chile, Argentina e Espanha

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