Realidades de uma nova ordem: As decisões de Donald Trump ameaçam aumentar o preço de equipamentos outdoor?

Pergunte a qualquer pessoa o que estava fazendo quando aconteceu o atentado terrorista em 11 de setembro de 2001 que, muito provavelmente, ela irá responder com exatidão e riqueza de detalhes. Com menos intensidade de impacto, ao menos socialmente falando, mas igualmente espantoso (ao menos para quem torcia contra) todos se lembrarão do momento que receberam a notícia de que o milionário Donald John Trump foi eleito pelos americanos para ser o 45º presidente da nação mais rica do mundo.

Trump é declaradamente desafeto da mídia que, erroneamente e insistentemente, focou as críticas muito mais nas maluquices que vociferava do que na análise de seu plano de governo e nos impactos na macro e microeconomia. Por este tipo de comportamento, durante a campanha eleitoral seu comportamento preconceituoso com mulheres, negros, gays, muçulmanos e latinos sempre teve muito mais destaque do que o profundo impacto das políticas protecionistas e de mercado.

Se isso foi um erro da imprensa tradicional é um debate longo e que, ao menos na prática, não passará de uma masturbação sociológica e, porque não, filosófica sobre o papel do jornalismo, jornalistas e, de uma maneira mais ampla, a mídia como um todo.

Donald Trump e os Esportes Outdoor

O que uma análise das decisões de um político americano tem a ver com esportes outdoor?

Muito, porque atualmente, após os anúncios de revisão das relações comerciais feitos pelo governo americano na primeira semana de governo, irão impactar no comércio de vários produtos pela América Latina.

Como grande parte das marcas de produtos outdoor são dos EUA e, por isso, são importadas por representantes e lojistas sem um comércio comum (o que significa na prática facilidades de importação), o preço tende a um reajuste por causa de novas alíquotas de importação. Qualquer ajuste no preço de custo deixa um futuro meio nebuloso sobre como irá impactar nos esportes outdoor. No meio disso tudo você que tinha uma loja que vendia um determinado equipamento a preço X, terá de se preparar para pagar pelo menos 30% disso.

O novo presidente americano preocupa o mundo com relação a temas ligados à ecologia, natureza e conservação de parques nacionais. Mas isso é um outro assunto que não se encaixa neste artigo. A lógica que leva a qualquer aumento global de equipamentos é um pouco mais complicada do que parece. O cerne do problema é muito mais profundo do que apenas uma tarifa de importação.

Rompimento com a TPP

O anúncio do presidente Donald Trump ,de que o governo americano não fazia mais parte do Acordo Transpacífico de cooperação econômica, conhecido como TPP (Trans Pacific Partnership), através de uma ordem executiva põe fim a um ambicioso, mas muito polêmico, tratado que tinha como objetivo criar o maior bloco econômico do mundo. O TPP foi escrito em fevereiro de 2016 (depois de sete anos de negociação intensa de Obama) e engloba 12 países que, juntos, representam 40% da economia mundial.

Neste bloco estão Nova Zelândia, Canada, Chile, México, Peru e Vietnam, além de outros. A saída dos EUA já era esperada, pois foi uma das promessas de campanha de Donald Trump. O objetivo do acordo era, acima de tudo, tirar o poder econômico que a China possui no comércio do pacífico e na Ásia.

Na prática a TPP não estava valendo. Até aí nenhuma relação com o preço de equipamentos outdoor, certo? Errado.

E é neste aspecto, cancelamento de tratados comerciais, é que mora a grande ameaça de um encarecimento de equipamentos. Isso porque a indústria de calçados esportivos, mochilas, vestimentas e outros equipamentos outdoor vendidos nos EUA são fabricados na Ásia e, segundo analistas de mercado, a proporção deste número chega perto de 85% de tudo o que é vendido nos EUA. Sem um acordo com estes países produtores na Ásia, o preço de equipamentos pode encarecer.

O objetivo de qualquer mercado comum, por exemplo, é conseguir manter as tarifas de importação baixas. Sem um comércio comum com países como Vietnam (grande produtor de mochilas para as marcas americanas) as taxas de exportação e importação serão aplicadas. Especula-se que os EUA paga uma taxa de importação de aproximadamente 18% em mochilas.

Com o TPP esta taxa, em teoria, não existiria e nesta expectativa de obter um produto mais barato as marcas se planejaram para investir na produção com este imposto mínimo. Agora, sem o TPP há uma quebra de planejamento e projeções por parte da administração de cada uma destas marcas e, obviamente, este tipo de gasto irá, obviamente, ser passado ao consumidor.

As motivações de Donald Trump

O presidente americano Donald Trump fez este decreto por ser a encarnação do mal? Não exatamente.

Explico: O presidente americano quer implementar um protecionismo à indústria americana, fazendo com que as fábricas voltem a funcionar no país e, consequentemente, gerem empregos para a população.

Isso porque o cenário atual da indústria americana (não somente a de esportes outdoor) está abalada, pois muitas empresas terceirizaram toda a sua produção para fábricas na Ásia, com funcionários e salários infinitamente menores que o de um operário americano. O resultado disso foi que muitas marcas fecharam todas as instalações nos EUA.

A decisão tem uma justificativa: indo a outro país os empresários conseguiam, mesmo com a taxa de importação, entregar um produto as seus clientes americanos com um preço razoável, além de paralelamente obter uma maior produção que possibilitava exportar a outros países.

Portanto a decisão de Trump é reaquecer a indústria de seu país. A decisão simplista foi promessa de campanha. Aos olhos do eleitorado, que vê as indústrias fechadas e o desemprego crescer, é uma proposta melhor do que dos seus adversários. Apesar de pensar em ter um emprego, a população americana não se preocupou com o ônus de ter alguém despreparado na liderança do seu país.

Pequenas indústrias

Um efeito benéfico desta nova realidade que pode ser encarado pelo mercado outdoor é a perspectiva do fortalecimento de pequenas e médias marcas, que passarão a ser vistas como alternativa pelos grandes lojistas americanos.

Com evidente menor poder aquisitivo que os gigantes do mercado, a decisão de Donald Trump começa a aparecer como uma oportunidade de firmarem-se no competitivo mercado outdoor americano, como uma alternativa ao encarecimento das marcas consagradas.

Pequenas indústrias de produtos outdoor que estiverem buscando materiais alternativos com uma qualidade que agrade a comunidade outdoor, tem uma grande chance de também crescerem e fazerem sombra às grandes marcas.

Esta “ameaça” pode significar duas hipóteses: grandes fusões de marcas, com gigantes comprando médios e pequenos, e o aparecimento de mais players no mercado. Somente o tempo dirá qual a tendência do mercado outdoor americano que, invariavelmente, impacta os praticantes de atividades de natureza em todo o mundo.

E no Brasil?

No Brasil a realidade ainda está muito, mas muito mesmo, longe de ter alíquotas de 14% em mochilas como nos EUA.

Não é segredo para ninguém que o preço de importação de qualquer mercadoria no país faz com que paguemos um preço 10 vezes maior nos EUA. Existe ainda o “jeitinho brasileiro” que, junto dos atravessadores, fazem alguns estabelecimentos vender com um aumento de 20 vezes.

O aumento não pode ser creditado ao volume de pessoas que compra por encomendas de quem viaja ao exterior, pois acreditar nisso como “falta de apoio com os lojistas” é acreditar em coelhinho da páscoa. O volume de pessoas iniciantes que compram dos logistas é a maior fatia do faturamento. Apenas praticantes com bastante experiência procuram driblar o preço exorbitante encomendando a um amigo que vai ao exterior.

Mas o aumento então não irá afetar os brasileiros diretamente? Nem tanto.

Para quem tem algum “esquema” de ir ao Chile, que é país convidado do NAFTA (outro acordo comercial dos EUA), ou Peru, pode ir se despedindo dos preços baratos nas lojas destes países. Especialmente se descobriu que o equipamento no Chile era muito barato, pois o acordo do NAFTA também está sendo renegociado por Donald Trump e seu governo.

A solução agora, antes de mais nada, é consumir de quem vende a preços razoáveis e, implacavelmente, boicotar quem vende a preços inaceitáveis. Parece óbvio, mas ninguém pratica este pequeno “poder” de consumidor. Na realidade, no Brasil e em todo o mundo diga-se, equipamentos outdoor nunca foram baratos. Todos sabem que quanto maior a qualidade, maior o preço, e isso existe sempre na nossa sociedade. Portanto o momento é de comprar o estritamente necessário, seja por encomendas ou por crediários.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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