Rápido e Devagar – Duas formas de pensar e escalar

O título é meramente uma alusão ao melhor livro que li no ano passado, “Rápido e devagar duas formas de pensar’” de autoria do Nobel de economia, o psicólogo Israelense Daniel Kaneman, referência mundial no que diz respeito ao pensamento intuitivo.

Kahneman, ao longo das 600 páginas de seu livro, nos instrui a refletirmos sobre as duas formas com que pensamos. Uma rápida, automática e simples, a qual não temos nenhum tipo de controle e outra lenta e analítica, onde essa sim “aparentemente” tem controle sob nossas escolhas. E ele chamou esses dois mecanismos de sistema 1 (rápido) e sistema 2 (devagar).

Existem também duas formas de se escalar. Uma intuitiva e natural e sua precedente, a qual precisamos treinar. É através do treinamento que desenvolvemos e enriquecemos nosso repertorio motor e os tornamos simples, automáticos, não necessitando mais pensarmos no passo a passo de como executar determinada tarefa e nossa mente fica livre para pensarmos e fazermos várias outras coisas, pois através da pratica migramos então de um complexo sistema 2 para um simples e puritano sistema 1.

Daniel Kahneman

Parece simples, mas não se enganem. E o que também está longe de ser considerado simples é concluirmos que o pensamento rápido (sistema 1) seja o salvador da pátria, o santo graal do pensamento.

Um dia você já esqueceu a panela no fogo, mesmo que já houvesse feito isso (cozinhado) centenas de vezes, isso por que seu pensamento direcionou-se a outras tarefas naquele momento.

Há alguns anos John Long, que não é cozinheiro (rsrsrs) e sim uma espécie de lenda viva da escalada no mundo, atleta habilidoso, experiente e autor de Best Sellers sobre escalada, ao abdicar de conferir um nó simples, despencou do alto de uma parede de escalada em Los Angeles (EUA). Não morreu, mas estropiou-se bastante. Num período de tempo parecido, um pai aqui mesmo em São Paulo, esqueceu o próprio filho pequeno no carro, quando o mesmo não teve a mesma sorte que o Sr. Long. O pai foi condenado à prisão perpétua decretada pelo mais impiedoso dos juízes, a sua própria mente.

John Long

Agora tudo parece mais confuso, pois praticamos horas e horas determinadas atividades para que futuramente nosso cérebro não precise despender energia com essas que para nós agora são tarefas simples, porém as coisas às vezes degringolam desde uma simples panela queimada, a alguém despencando de uma parede de escalada e uma criança indefesa presa dentro de um automóvel.

Com meu inglês beirando a precariedade pedi a meu consultor de língua inglesa o Sr. Leandro Paulo (meu filho) fluente no linguajar dos yankees que lesse o relato original do escalador John Long sobre o ocorrido. Segundo Leandro Paulo as palavras de Long podem ser resumidas como algo entre subestimação, rotina e excesso de confiança, a tríade perfeita para que as merdas aconteçam.

O senhor Long havia feito e conferido aquele nó milhares de vezes ao longo de décadas dedicadas à escalada. Esse nó fazia parte do sistema 1 para ele, salientando que para um escalador experiente errar ou deixar de conferir um nó simples seria como se você que dirigi há vários anos, mesmo assim tentasse sair com seu carro com a segunda marcha ao invés da primeira engatada.

Toda vez que adotamos a postura de que dominamos totalmente algo, isso nos leva também a ações cognitivas perigosíssimas, pois podemos incorrer na subestimação, rotina ou excesso de confiança, a tríade perfeita para que as merdas aconteçam, lembram?

Questões que nos demandam pouca ou nenhuma atenção para que sejam resolvidas são tarefas do sistema 1. Já aquelas que demandam grande quantidade de concentração, atenção e habilidades especificas bem ajustadas para que sejam elucidadas são tarefas sempre do sistema 2, nunca poderíamos desvendá-las de modo autônomo, através do sistema 1.

Se lhe perguntar, quanto é 2 vezes 2? A resposta será óbvia, rápida e automática, ou seja, solucionada pelo sistema 1 (se o numeral 4 não lhe veio à mente em décimos de segundos, pare de ler esse artigo imediatamente, porque você tem problemas mais sérios a serem tratados no momento). Já quando questionado, quanto é 19 x 14, a resposta pode demorar desde alguns segundos a vários minutos, é o sistema 2 ruminando números e analisando hipóteses para chegar a um denominador comum (salvo o fato é claro de que você seja um gênio dotado de imensa inteligência lógica, o que não é meu caso).

Exemplifiquemos para que pareça mais claro:

Você está numa montanha muito alta e se depara com um lance de escalada de extrema dificuldade e um tanto quanto exposto, cair dali não parece uma boa ideia. Dada a complexidade inusitada dos fatos e risco iminente, seu sistema 1 diante de tal impotência resolutiva pede ajuda aos universitários (sistema 2) para elucidar algumas questões que não puderam ser compreendidas de pronto por ele.

Vamos por partes (assim como fazia Jack o estripador). O condicionamento é uma maneira de que o cérebro encontrou para poupar energia, ele cria rotinas as quais somos levados a agir quase sempre automaticamente, lembra-se de quando começou a dirigir? Aquilo parecia um pesadelo, você tinha que pensar em tirar lentamente o seu pé esquerdo da embreagem, afundar vagarosamente seu pé direito no acelerador e ainda tinha que cuidar da direção do volante e imaginar que se precisasse parar o pedal a ser acionado seria o do meio, setas nessa época você as chamava de foda-se (algo que os cariocas fazem até hoje rsrsrs), apenas as acionava e entrava, pois não dava para fazer tudo aquilo e ainda calcular a distância entre você e o carro de traz. Era o sistema 2 comandando todos os seus movimentos. Hoje, passado algum tempo você faz tudo isso e ainda manda mensagem no whatsapp (salientando que essa é uma prática irresponsável e passível de pena de acordo com o Departamento Nacional de Transito), seleciona a rádio do carro, observa a moça (o) atraente do carro ao lado e alguns até conseguem dar seta de maneira consciente e segura. Pois agora o sistema 1 é o responsável por tudo.

Parece que os dois sistemas têm inúmeras vantagens e desvantagens. Lembra-se da montanha alta em que você estava e do lance que tinha de ultrapassar um tanto quanto exposto e exigente tecnicamente?

Caso houvesse treinado exaustivamente para situações como essa, a tarefa seria decifrada cada fez mais pelo sistema 1 e cada vez menos pelo sistema 2. Mas você não poderia deixar-se influenciar em demasia pelo sistema 1 ou recairia no erro do Sr Long, e caso se entregasse totalmente ao sistema 2 perderia tempo demais, talvez a escalada se tornasse por demais demorada ou seus músculos talvez não suportassem tanto esforço por tanto tempo. Mas esse não é nem de longe o maior problema do sistema 2. Ele muitas vezes simplesmente nos apresenta justificativas que salientem a concordância com o sistema 1, que por sua parte muitas vezes julga de forma rápida demais, principalmente no que diz respeito a julgamentos morais.

Estamos falando aqui de escalada em altas montanhas, certo? Você passara horas senão dias convivendo com o seu ou os seus parceiros de escalada, situações desconhecidas de ambos se apresentarão sem sombra de dúvidas nesse tipo de escalada, coisas do tipo: qual melhor momento para parar para comer, dormir, acordar, quem deve fazer tal lance ou quem será responsável por essa ou aquela tarefa específica. Sem contar que alguém pode amedrontar-se, pensar em desistir ou mesmo lesionar-se.

E para tudo isso você terá que fazer escolhas o tempo todo, e o cuidado para que essas escolhas não sejam mal fundamentadas deve ser constante. Como disse, o sistema 2 muitas vezes apenas justifica uma resolução do sistema 1, que muitas vezes pensa rápido demais, ou seja, age sem consciência plena das implicações de suas resoluções.

Durante essa sua escalada você e seu parceiro adotaram um conduta: seria uma cordada para cada um dos escaladores, e isso independeria do grau ou qualquer outra intempérie da cordada, já que vocês têm estilo, experiência e técnica de escalada muito próximos.

Porem chega à vez de seu parceiro e ele se vira para você e diz: Eu não vou escalar essa cordada, gostaria que você a fizesse por mim. Vocês já estavam quase no final de uma escalada de dezenas de horas ou de dias e as palavras de seu parceiro contrariavam tudo que tinha sido acordado previamente. Seu autocontrole agora era mínimo, pois sabemos que o autocontrole é como o dinheiro, quanto mais gastamos menos temos. Seu sistema 1 então, hábil em tomar resoluções rápidas baseadas em seu condicionamento prévio é acionado imediatamente e você responde: Sinto muito, mais é a sua vez, eu não vou. Após essa resolução o sistema 2 percebe que talvez tenha havido conflito de ideias e intervêm, porem sua função agora é de apenas encontrar justificativas para uma resolução já tomada pelo sistema 1.

E ele informa que havia sido feito um acordo anteriormente entre as partes e que esse acordo vinha sendo cumprido e dando certo até o momento, logo não fazia sentido algum mudar a ação. E isso se chama autoengano, que é o resultado de um processo mental que faz com que aceitemos uma informação como verdadeira em um momento, quando a tínhamos como falsa num outro momento, e é o que dá origem também a maior parte dos rótulos e numa esfera de maior amplitude é o que origina a maior parte dos preconceitos.

É o autoengano que te faz, por exemplo, acreditar piamente que vai começar aquela dieta ou iniciar na academia na segunda-feira, te faz crer também que irá terminar aquela relação amorosa complicada tão logo passe o próximo feriado e que irá modificar totalmente seu estilo de vida com a chegada do ano novo.

Com relação á aquela escalada, ao invés de uma resposta negativa rápida, você poderia ter considerado se seu parceiro estava se sentindo bem, se ele tinha algum plano diferente para o desfecho da escalada ou talvez até mesmo, se gostaria de discutir sobre o acordo prévio que fizeram.

Mais uma vez aqui, há de haver um equilíbrio entre as partes, para que alcancemos um denominador comum que nos faça progredir verticalmente na parede e na vida, mas de forma segura ao mesmo que ativa e objetiva. Uma vez que temos um foco, alcançar o cume da montanha ou termos uma vida boa.

‘’ Tirar conclusões precipitadas é eficaz se há grande probabilidade de que essas conclusões estejam corretas e se o custo de um ocasional erro for aceitável’’.

– Daniel Kahneman

Rui Paulo é escalador, formado em educação física e trabalha como Personal trainer na região metropolitana da cidade de São Paulo

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