Quem faz a manutenção das vias de escalada?

Neste mês de junho, um acidente na Face Leste do Pico Maior de Friburgo chamou a atenção da comunidade de escaladores e suscitou uma série de discussões – on e offline – acerca da qualidade das proteções e a responsabilidade da manutenção de vias de escalada no Brasil (veja o artigo).

Quando ocorre um acidente como este, somos chamados a refletir sobre os riscos e as responsabilidades da prática da escalada. A segurança na escalada exige a eficiência de um sistema que conta com um equipamento pessoal e um equipamento coletivo, mas, principalmente, requer a eficiência dos escaladores e sua real capacidade de avaliar cada situação e assumir parte dos riscos que julgar aceitáveis ou mesmo inevitáveis.

Foto: André Rodrigues | reprodução facebook

Acontece que, assim como precisamos confiar na nossa corda, no nosso nó e e em nossa habilidade, precisamos confiar também nas proteções da via em que decidimos entrar.

Mas afinal, quem faz a manutenção das vias?

Manutenção das vias

Curiosamente, o Rio de Janeiro parece ser um dos estados brasileiros mais organizados em relação a isto. A FEMERJ (Federação de Esportes de Montanha do Estado do Rio de Janeiro) possui até um Fundo de Incentivo ao Manejo de Trilhas e Vias de Escalada (FIM-TE).

O acidente mencionado no início deste artigo, ao que tudo indica, foi provocado pela falha de uma chapeleta usada para um trecho em artificial e aconteceu numa das regiões mais importantes para a escalada no Rio de Janeiro e no Brasil e em uma das vias mais clássicas da escalada tradicional brasileira. Algumas vias da região dos três picos de Nova Friburgo já passaram por manutenções nos últimos anos. A própria Face Leste, conquistada em 1974, foi recuperada em 2001 em projeto que buscou restaurar a grampeação original dos conquistadores.

Entretanto, mesmo com os recursos e apoio oferecido por federações ou clubes, a manutenção de vias de escalada no Brasil ainda depende muito do trabalho voluntário de escaladores. Aparentemente, não há nenhuma pessoa ou instituição que seja totalmente responsável ou obrigada a realizar manutenções em vias de escalada em locais públicos no Brasil (ainda que haja organizações criadas para este fim). Por isso, não adianta ficar apontando dedo e culpando ninguém. Acidentes acontecem e, na escalada, o risco é sempre presente e muitas vezes muito alto.

Para um escalador pouco experiente como eu, o mínimo que posso fazer é me informar o máximo possível antes de entrar numa via, observar e tentar avaliar a qualidade das proteções, conversar com outros escaladores para compartilhar informações atualizadas, e ainda, na medida do possível, me capacitar para colaborar na manutenção das vias.

As vias precisam de manutenção. Seria inteligente para qualquer escalador pensar sobre isto e procurar, em espírito colaborativo, um meio de melhorar a forma como é feito. As federações e clubes podem criar fundos destinados especificamente para isto e incentivar o trabalho dos escaladores que se dispuserem a fazer a manutenção. Mas, no final, nós somos os responsáveis. Nós: os escaladores. Há muito o que pode ser feito, mas não faz sentido cobrar ou acusar uma federação ou clube do qual não faço parte ou com o qual não colaboro.

Com essa coisa da escalada olímpica o foco tem estado muito na competição e virtuosismo atlético, enquanto a escalada tradicional parece seguir como algo marginal. Pode até ser uma característica própria da escalada de aventura e tradicional, mas os tempos mudam e poderíamos melhorar nossa organização.

Vejo manutenções em vias esportivas feitas aqui na região do Carste em Lagoa Santa-MG sempre por iniciativa dos próprios conquistadores ou zeladores dos picos e com recursos próprios.

Patrocinadores, competições, encontros, crowdfunding, projetos, podem gerar recursos para isto. Podemos melhorar a comunicação, criar planilhas compartilhadas com as vias cadastradas em cada região informando todas as manutenções feitas, destacando vias que estejam a mais tempo sem manutenção e ainda aquelas em que há problemas relatados como peças soltas ou algo do tipo e divulgar em portal próprio para isto.

Para os escaladores novatos, ver este tipo de organização seria uma ótima razão para se filiar a alguma associação, federação ou clube.

A capacidade de executar uma manutenção exige alto grau de conhecimento, não somente de como fixar uma chapeleta ou grampo, mas também da preservação das características da via e a observação de normas e regulamentos de cada área de escalada. Talvez por isto alguns conquistadores defendam suas vias impedindo que outros escaladores realizem manutenções.

Levantar esta questão agora é importante para amadurecer a visão que a comunidade tem e melhorar a organização.

Afinal, é uma questão do interesse de todos nós e seria bom se deixássemos de lado a postura defensiva ou acusatória e agíssemos como membros de uma mesma comunidade. Somos escaladores.

Fontes

Philippe Lobo é músico, professor, produtor audiovisual, artista marcial, escalador amador e apaixonado por atividades outdoor.

Residente em Lagoa Santa-MG, região pólo de escalada esportiva em rocha de calcário, escala desde 2014. Atualmente é diretor da escola de música online Domínio da Música.

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