Qual o gosto da vitória?

Resolvi escrever sobre este tema depois de tantas reportagens nas últimas semanas sobre Lance Armstrong.

Para quem não conhece, Armstrong é um ex-ciclista americano, heptacampeão do Tour de France, e que teve anulado pela União Ciclista Internacional (UCI) todos os resultados conquistados entre 1999 a 2005.

Esta anulação se deve ao uso de dopping e distribuição de substâncias proibidas. Além da anulação dos resultados e de ter em seu histórico atlético a história do dopping, o atleta deverá devolver monetariamente todos os prêmios recebidos.

É claro que ele não é o único atleta a ter uma acusação como esta, mas é uma acusação que vem se mostrando cada vez mais corriqueira na área esportiva.

O que leva um atleta a fazer uso de dopping e outras substâncias proibidas?

O que foi alterado no decorrer da história do atletismo para que estes acontecimentos aconteçam com maior facilidade?

Na antiguidade, o atleta competia, mas sua busca pela vitória não estava fundamentada na derrota do adversário, e sim na superação dos próprios limites.

A vitória sobre o adversário era uma decorrência desse processo e os vitoriosos seriam aqueles que superavam seus limites físicos e morais.

Hoje em dia, a melhor performance passou a se associar à conquista da primeira colocação, ou ainda ao recorde.

Sendo assim, a vitória passa a ser o maior valor da competição esportiva e estaria associada diretamente ao reconhecimento social e em consequência, ao dinheiro.

Não podemos esquecer que nem toda preparação física, mental ou uso de substâncias dopantes dão a certeza ao atleta da garantia da vitória.

Mas e aquela frase que escutávamos que o mais importante era participar?

Bem, mesmo que a vitória e a derrota façam parte da rotina do atleta, digamos que aquele que conseguiu chegar a um nível de representação nacional, com certeza viveu muito mais situações de vitória que de derrota.

E todos aqueles que participam e não vencem são de fato derrotados?

A derrota pode levar o atleta a dois tipos de comportamento: ou provoca o abandono da vida competitiva, ou produz um fortalecimento de atitude de mudança.

“Saber perder” é uma característica que se atribui ao “estilo esportivo” e os momentos de derrota são sempre vistos como momentos de avaliar erros e refazer planejamentos.

Quando a derrota é vivida como um momento de mudança, retornos positivos são provenientes deste momento.

Cagigal (1996) diz que quando a derrota não cristaliza em frustração, e se produz na reorganização de forças pessoais, aí está o princípio da superação.

Segundo ele, “A derrota superada significa enriquecimento da pessoa…esta antítese desencadeia novas energias, descobre inusitadas habilidades, abre horizontes, ordena uma reestruturação de mecanismos, enriquece as diferenciações e,de todo o qual, sai a personalidade fortalecida”.

Se a derrota tem seu lado positivo, porque tantos atletas fazem uso de substâncias proibidas para conquistar a vitória?

Porque há a dificuldade, tanto do ponto de vista individual, quanto social em lidar com a derrota.

Vou explicar melhor:

Essa situação vem de encontro com o pensamento de Skillen (2000) que afirma ser o esporte um produtor de auto-estima e um objeto de mérito, ou seja, o orgulho das realizações esportivas não reside apenas na vitória, mas na percepção do atleta em se sentir entre os melhores.

No século XX, a lógica e a prática do esporte competitivo sofreram transformações e impôs uma representação diversa do papel social do atleta.

Hoje, o atleta profissional não é apenas aquele que tem ganhos financeiros pelo seu trabalho.

Ele é também a representação vitoriosa de marcas e produtos que querem estar vinculados à vitória, à conquista de resultados.

Sendo assim, ele não carrega em si somente a superação em si mesmo, mas também, as expectativas dos “sponsors”.

Sendo assim, onde estaria o espírito esportivo?

Infelizmente no início do século XXI a vitória prevalece a qualquer custo e neste sentido o dopping, a corrupção e a trapaça tornaram-se bem mais valiosos para alguns atletas que a preparação física e psicológica em si.

É claro que não podemos avaliar esta situação isoladamente, mas sim como mais um produto da sociedade contemporânea que é capaz de transformar o esporte em um dos principais fenômenos culturais contemporâneos e em um veículo privilegiado de projeções sociais.

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Sobre o Autor

Flávia Arpini

Flávia Arpini

Flávia é formada em psicologia com ´pos graduação em Recursos Humanos e MBA em Gerenciamento de Projetos. Atuou em Florianópolis, São José dos Campos e Rio de Janeiro.
Possui experiência em recrutamento, e é especializada em Treinamento e Aperfeiçoamento de Lideranças. Hoje está entre Itália e Brasil atuando como consultora de RH e Coaching. É praticante de trekking.

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