Qual a resistência de um cordelete?

Reza a lenda de que todo escalador deve ter sempre um cordelete na cintura. Cordeletes são cordas auxiliares mais finas, utilizadas em uma série de ocasiões e possibilidades na escalada, desde montar uma parada, montar o backup no rapel ou fazer ascensão em corda fixa. Mas vale um aviso para os novatos: cordeletes devem ser sempre comprados em lojas especializadas em equipamentos de escalada.

Alguns escaladores chamam o equipamento de cordim, em uma espécie de tradução de “cordino”, que é a denominação espanhola de cordelete. No Brasil, ambas as denominações são consideradas corretas, tendo o seu uso variando de região para região. Lembrando que mais importante do que saber qual termo é o mas correto, é saber usar o equipamento.

Mas por que esta preocupação com o cordelete em lojas de equipamentos outdoor? A preocupação é que o cordelete que é vendido em Lojas Especializadas em Pesca, normalmente é feito de polipropileno. Já os cordeletes para escalada são feitos de poliamida (o mesmo material da corda de escalada). O polipropileno é mais barato, possui menor carga de ruptura e é menos resistente à abrasão. Por isso, um cordelete de polipropileno que serve às necessidades da escalada é necessário um diâmetro bem maior que aquele que conseguimos com poliamida.

Na escalada, em geral, escaladores usam cordeletes (também chamados de cordim) entre 4 e 8 mm, destinados unicamente a suportar cargas, mas não para absorver energia. Ou seja, são utilizados para operações auxiliares (suporte de cargas) e nunca para segurança de um escalador (absorver energia) em uma escalada. A resistência mínima de um cordelete, exigida pelo UIAA, depende unicamente do diâmetro, nem tanto do material. Este valor pode ser facilmente calculado aplicando a seguinte regra:

  • Rmin = Diâmetro x Diâmetro x 20
  • Onde
    • Rmin: Resistência Mínima (expresso em daN – decaNewton)
      • 1 daN = aproximadamente 1 kg
    • Diâmetro: Diâmetro do cordelete em milímetros

Exemplificando: A carga mínima para um cordelete de 7 mm seria a seguinte conta:

  • Rmin = 7 x 7 x 20
    • Rmin = 980 daN (aproximadamente 980 kg)

A tabela abaixo facilita para entender melhor as proporções de carga de cada cordelete de poliamida. Todas as cargas abaixo foram realizadas na mesma prova de resistência de uma corda, ou seja som o cordelete esticado.

Diâmetro (mm) Resistência Mínima UIAA
2 mm 80 daN
3 mm 180 daN
4 mm 320 daN
5 mm 500 daN
6 mm 720 daN
7 mm 980 daN
8 mm 1.280 daN
9 mm 1.620 daN
10 mm 2.000 daN

Lembrando que quando é feito um loop, fechado com o nó duplo pescador, ele reduz aproximadamente 30 a 35% da resistência do cordelete. Portanto a conta para a resistência para um cordelete em loop, seria como abaixo:

Diâmetro (mm) Resistência Mínima em Loop (daN)
2 mm 80 + (0,7 x 80) = 136
3 mm 180 + (0,7 x 180) = 306
4 mm 320 + (0,7 x 320) = 544
5 mm 500 + (0,7 x 500) = 850
6 mm 720 + (0,7 x 720) = 1.224
7 mm 980 + (0,7 x 980) = 1.666
8 mm 1.280 + (0,7 x 1280) = 2.176
9 mm 1.620 + (0,7 x 1.620) = 2.754
10 mm 2.000+ (0,7 x 2.000) = 3.400
  • Rmin= Rmin(cordin sem o nó) + Rmin (cordim com o nó)
    • Sendo Rmin (cordim com o nó) = Rmin (cordin sem o nó) x 70%

Dyneema e Kevlar

Foto: http://www.manerasdeescalar.com

Mais recentemente (de aproximadamente 15 anos para cá), estão sendo comercializados cordeletes de Dyneema e Kevlar, duas fibras sintéticas de alta resistência que vêm sendo adotadas no universo outdoor amplamente.

  • Kevlar é a marca registrada da DuPont para uma fibra sintética de aramida muito resistente e leve. Trata-se de um polímero resistente ao calor e cinco vezes mais resistente que o aço por unidade de peso. Portanto, aramida e Kevlar são as mesmas coisas. Sendo Kevlar um nome comercial do material.
  • Dyneema é um polietileno de ultra alto peso molecular e também é o nome comercial de uma fibra sintética, inventada há 20 anos pela empresa DSM Dyneema. A fibra é extremamente resistente, possui um peso mínimo e várias aplicações na indústria. De acordo com o fabricante, é 40% mais resistente que a aramida e 15 vezes mais resistente que o aço.

Portanto, vale um lembrete: Kevlar e Dyneema não são o mesmo material. Ambas são fibras sintéticas, muito mais resistentes que os de poliamida para cordeletes de mesmo diâmetro. Portanto, um cordelete de Kevlar, ou Dyneema, com o mesmo diâmetro que um de poliamida pode ter até o triplo de sua resistência. Além disso, a temperatura de fusão (derretimento) dos cordeletes são muito diferentes:

  • Poliamida: 230°C
  • Kevlar: 260°C
  • Dyneema: 145°C

Por ser altamente frágil em altas temperaturas, o cordelete de Dyneema é proibido em nós como o prussik em rapeis. Isso porque o atrito do cordelete com a corda na descida, poderia queimar e chegar perto do ponto de fusão. Além disso, de acordo com estudos realizados em laboratório, o Dyneema perde metade de sua resistência quando chega a 80°C.

Usualmente, os cordeletes de Dyneema não são muito recomentados para a prática de escalada em rocha.

A resistência de cordeletes de Kevlar é calculada pela seguinte fórmula:

  • Rmin = Diâmetro x Diâmetro x 60
    • Onde Rmin: Resistência Mínima (expresso em daN – decanewton)
      • 1 daN = aproximadamente 1 kg
    • Diâmetro: Diâmetro do cordelete em milímetros
Diâmetro (mm) Resistência Mínima UIAA
2,0 mm 240 daN
2,5 mm 375 daN
3,0 mm 540 daN
3,5 mm 735 daN
4,0 mm 960 daN
4,5 mm 1.215 daN
5,0 mm 1.500 daN
5,5 mm 1.815 daN
6,0 mm 2.160 daN
6,5 mm 2.535 daN
7,0 mm 2.940 daN

Uma pergunta pode acontecer quando analisar a resistência nominal de um cordelete de Kevlar: Por que não se fazem cordas deste material? A resposta é bem simples: o preço final. Uma corda de 9 mm poderia resistir até 4.800 daN e uma de 10 mm 6.000 daN. Mas o preço seria muito caro ao consumidor final, e por isso acabaria encalhando nas lojas causando um prejuízo à empresa.

Mas quais seriam as resistências de um cordelete de Kevlar em loop? A conta é a mesma, sempre lembrando de descontar os 30% de perda que o nó oferece.

  • Rmin= Rmin (cordin sem o nó) + Rmin (cordim com o nó)
    • Sendo Rmin (cordim com o nó) = Rmin (cordin sem o nó) x 70%
Diâmetro (mm) Resistência Mínima em Loop (daN)
2,0 mm 240+ (0,7 x 240) = 408
2,5 mm 375 + (0,7x 375 ) = 638
3,0 mm 540 + (0,7 x 540) = 918
3,5 mm 735 + (0,7 x 735 ) = 1.250
4,0 mm 960 + (0,7 x 960 ) = 1.632
4,5 mm 1.215+ (0,7 x 1.215) = 2.065
5,0 mm 1.500 + (0,7 x 1.500) = 2550
5,5 mm 1.815 + (0,7 x 1.815 ) = 3.085
6,0 mm 2.160 + (0,7 x 2.160) = 3.672
6,5 mm 2.535 + (0,7 x 2.535) = 4.310
7,0 mm 2.940 + (0,7 x 2.940) = 4.998

Diâmetro de cordelete para escalar

Além de saber os diâmetros de cordelete e suas resistências, é também imprescindível saber qual a milimetragem mínima de um cordelete para a escalada. Muitos escaladores acabam optando por cordeletes finos, por causa do preço, colocando em risco a própria segurança.

Portanto, cordeletes de 2, 3 e 4 mm não suportam o peso de um escalador. A carga é muito baixa e pode causar acidentes graves. Cordeletes desta milimetragem são ideais para reparações em barracas, pendurar material de escalada, usar como cadarço, cinto, etc. Mas nunca para a escalada.

Cordeletes de 5 e 6 mm, podem ser usados como nós auto-blocantes como Prusik e Marchard. Lembrando que os cordeletes de Dyneema não são recomendados para serem usados em rapel. Caso o cordelete seja de náilon, utilizar somente cordeletes acima de 6 mm. Cordeletes de 5 e 6 mm são desaconselhados para ancoragens, a menos que seja de Kevlar (mas somente em equalizações triplas).

Os cordeletes de 7 e 8 mm são ideais para serem usados em ancoragens (equalização simples).

Os cordeletes de 9 mm são muito grossos e podem ocupar too o espaço de uma chapeleta no caso de uma equalização.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

There are 2 comments

  1. Gilson gava

    Confesso que não entendi o calculo de resistência do cordelete depois de ter recebido um nó, pois se tenho 1 cordelete de 7mm com carga de ruptura nominal de 980 daN e ele recebe um nó que em teoria reduziria em 30% a sua resistencia ele passaria a ter 686 daN e não 1666 como mostra o resultado do calculo aonde foi somado a resistencia nominal + o resultado da fórmula

    1. Luciano Fernandes

      Gilson, a resistência é de carga digamos “na vertical” (eixo de aplicação das forças). Quando se faz um nó, você tem dois cordeletes atuando na “vertical”,o que, em teoria, dobraria o valor de resistência (lembre-se o loop é uma espécie de círculo sendo assim descem duas “linhas” de cordelete). Mas como o nó tira 30% da resistência do cordelete, (que está em uma das partes) então nao há o dobro, há um parte linear puxada “verticalmente” e a outra também. Uma resiste o valor de tração e a outra, por causa do nó, resiste 30% menos

      Por que o loop? Porque este loop é usado como uma espécie de cinta de mosquetão, na hora da parada ou mesmo no rapel em abandono.

      Abs

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