Protetores solares: O que a ciência tem a dizer do novo candidato a vilão da natureza?

Há alguns anos cientistas concluíram um estudo que determinou que estava ocorrendo um branqueamento de corais por conta dos produtos químicos utilizados pelos banhistas em praias. As regiões mais atingidas eram as que estavam vivenciando aquecimento das águas pelo fenômeno climático El Niño.

O Haereticus Environmental Laboratory é uma organização científica sem fins lucrativos dedicada a aumentar o conhecimento científico, social e econômico dos habitats naturais do ambiente, a fim de melhor conservar e restaurar habitats e recursos ambientais ameaçados. O instituto realiza duas formas de pesquisa: fundamental e aplicada. A pesquisa básica, ou fundamental, é o esforço de compreender os componentes principais, a relação entre os componentes e os processos de um fenômeno natural. A pesquisa aplicada inclui muitas vezes o desenvolvimento tecnológico, seja para melhor entender o fenômeno em estudo, seja para melhor manipular o fenômeno.

Os cientistas do Haereticus Environmental Laboratory estimaram no estudo que 6.000 a 14.000 toneladas de protetor solar estão sendo liberadas em áreas de recife de corais todos os anos. A grande culpada deste fenômeno é a oxibenzona (também conhecido como BP-3 ou benzofenona-3) que está presente em mais de 3.500 produtos de proteção solar em todo o mundo, e está composto de 1% a 10% destes produtos. A oxibenzona não é só encontrada em protetores solares, mas também em batons, máscaras para cílios e xampus.

O estudo foi publicado na Environmental Health Perspectives, revista de acesso aberto revisada por pares publicada mensalmente com o apoio do Instituto Nacional de Ciências da Saúde Ambiental dos EUA, e apresentou como solução para diminuir o problema, a produção de protetores solares e cosméticos ecologicamente corretos. A substituição dos materiais seria feita com materiais que sejam de origem vegetal.

No link há uma lista completa com os melhores e piores protetores solares no mercado com base nas informações do Grupo de Trabalho Ambiental.

Protetores solares no montanhismo

Abordar a ameaça que os protetores solares, em específico produtos com oxibenzona, em corais parece muito longe da prática de montanhismo. Porém, apenas parecer, porque montanhistas também usufruem largamente de protetores solares e outros produtos com oxibenzona.

A título de curiosidade, as superfícies nevadas reflete aproximadamente 80% dos raios solares como se fosse um verdadeiro espelho natural. Por isso esta superfície potencializa a incidência dos raios solares. Além disso, a potência dos raios ultravioleta aumenta de acordo com a altitude porque há menos atmosfera para absorvê-los.

Estudos a respeito do fator de aumento de exposição a esta radiação foram realizados por alguns institutos científicos e chegou-se a conclusão que a cada 300 metros de altura o risco aumenta em até 5%. Assim em um lugar, como o Pico dos Marins (2.420 m) a incidência de raios UV aumenta em 40%. Este fator de risco aumenta quando estamos em algum pico nevado.

No momento que um montanhista tomar banho em um rio, ou mesmo em um banheiro rústico, ele poderá estar também poluindo o ambiente. Lembrando que cientistas abordam quase que exclusivamente o uso de protetores solares ecologicamente corretos em ambiente marinho, mas muito pouco em ambiente de montanha. Lugares como Patagonia, Amazônia e Cordilheira dos Andes, ainda possuem poucos trabalhos científicos da mesma envergadura que a realizada pelo Haereticus Environmental Laboratory.

O problema fica ainda mais crítico, quando se analisar que as pesquisas são realizadas em protetores solares somente para ambiente de praia, mas não necessariamente para montanha. Ao menos em teoria, dermatologistas afirmam que o mesmo produto que protege a pele na praia teria a mesma eficiência na montanha. Portanto, se um produto livre de oxibenzona não destrói os corais, também não destruiria a fauna e flora de regiões montanhosas.

De que radiação tenho que me proteger na montanha?

A radiação solar chega à ao planeta Terra se divide em três tipos: a de maior energia é a ultravioleta (UV), a continuação está a radiação visível (a única que o ser humano pode observar as cores) e a de menor energia que é a infravermelha (que corresponde ao calor).

A energia que chega ao nível do mar é de aproximadamente 42% lux visível e 9% radiação ultravioleta. A radiação ultravioleta emitida pelo sol se divide em UVA, UVB e UVC. Como a atmosfera terrestre absorve a maior parte desta radiação, 99% dos raios ultravioletas que chegam à superfície da Terra são do tipo UVA e 1% UVB. A radiação UVC, que seria a mais perigosa para a saúde, não chega à Terra, porque é absorvida 100% pelo oxigênio e ozônio da atmosfera e, portanto, não produz nenhum dano.

A radiação solar mais forte, a ultravioleta, é capaz de ionizar átomos, ativar elétron e romper moléculas em unidades pequenas, formando os temidos radicais livres, responsáveis pelo envelhecimento prematuro e serem cancerígenos.

Já a radiação visível, não é capaz de fazer nada disso porque não possui energia suficiente. Por esta razão que devemos focar a atenção, em termos de proteção, exclusivamente em radiação UVA e UVB. para saber se um protetor solar protege tanto do UVA quanto do UVB, temos de prestar atenção aos símbolos que estão na embalagem. Se aparecer a palavra UVA, com um círculo em volta, significa que este produto nos protege tanto do UVA quanto do UVB.

Tanto os raios UVA quanto o UVB, possui energia suficiente para quebrar as ligações moleculares e gerar fragmentos muito reativos chamados radicais livres. Os radicais livres são tão reativos que conseguem alterar as moléculas de DNA. Traduzindo em palavras simples, é dizer que a radiação UV pode desencadear uma mutação genética e, exatamente por isso, provocar câncer.

Outros problemas cutâneos, como a rosácea (doença inflamatória crônica da pele), eczema e acne, são agravados pela exposição à radiação ultravioleta. Por este motivo é importantíssimo proteger-se da radiação ultravioleta, tanto a UVA quanto a UVB.

No mercado são comercializados por uma unidade de medida conhecida como FPS (Fator de proteção solar). Para atividades de montanha é recomendável o uso de protetores solares a partir de FPS 50, o qual deve ser reposto a cada duas horas.

Segundo o Environmental Working Group (EGW), um filtro solar FPS 50 aplicado corretamente bloqueia 98% dos raios UVB. Já um protetor solar SPF 100 bloqueia 99%. O EWG é uma organização sem fins lucrativos, especializado em pesquisa e defesa nas áreas de subsídios agrícolas, produtos químicos tóxicos, poluentes para água potável e responsabilidade corporativa.

Lugares que proibiram oxibenzona

No ano de 2018, alguns lugares começaram a proibir protetores solares nas regiões praianas. O estado norte-americano do Havaí,? o então governado David Ig formalizou a proibição da venda em todo o estado de protetores solares com os dois compostos químicos: oxibenzona e octinoxato. Os elementos químicos são encontrados em milhares de protetores solares e outros produtos para a pele.

No mesmo ano, a ilha caribenha de Bonaire anunciou a proibição de protetores solares com os referidos produtos químicos. Porém não somente em regiões praianas estão buscando banir protetores solares com ingredientes químicos. Organizações sem fins lucrativos como Sierra Club e Surfrider Foundation, estão fazendo pressão a políticos para que se mude a legislação para parar com esse tipo de poluição em estados norte-americanos como Califórnia, Colorado, Flórida e Ilhas Virgens dos EUA.

Porém não é só nos EUA que a proibição a protetores solares está em vigor. No México, que possui extensão territorial costeira total de 9.330 km, a qual é ligeiramente maior do que o Brasil (7.491 km), já tomou atitudes quanto a protetores solares com oxibenzona e octinoxato. Reservas naturais marinhas no México já proíbem filtros solares contendo os elementos químicos.

No Brasil, além de não existir muitas opções de protetor solar natural, tampouco há uma movimentação, tanto do estado quanto da população, para banir o uso de protetores solares com oxibenzona.

Diferenças entre FPS e UPF

Tanto o FPS (Fator de Proteção Solar) quanto o UPF (Fator de Proteção Ultravioleta) são padrões usados ​​para medir a proteção contra queimaduras solares. O SPF, é um padrão usado para medir a eficácia dos protetores solares.

O sistema UPF é relativamente novo e foi criado especialmente para tecidos de proteção solar. Inicialmente, os tecidos de proteção solar foram classificados usando o padrão SPF até que fosse finalizado o padrão UPF que existe hoje e homologado pela Federal Trade Commission (agência independente do governo que promove a proteção ao consumidor e a eliminação e prevenção de práticas comerciais anticompetitivas) dos EUA. O uso do padrão UPF é voluntário, então alguns fabricantes de tecidos de proteção solar ainda usam o sistema SPF.

As medições SPF são feitas em seres humanos e é uma medida quantifica o tempo que uma pessoa pode ser exposta ao sol antes de se queimar. Por exemplo, se você queimar em 10 minutos sem protetor solar e aplicar uma dose de protetor solar com um número SPF 15, significa que deverá estar protegido de uma queimadura solar por 150 minutos.

Embora os filtros solares com números de SPF idênticos proporcionem uma proteção contra queimaduras equivalente aos raios UVB, nenhum produto de proteção solar remove todos os raios UVA. Alguns podem anunciar a proteção UVA, mas o padrão SPF atual não mede a quantidade de proteção UVA.

As medições de UPF em tecidos são testadas, em sua maioria por equipamento apropriado e não são testadas com seres humanos. A taxa UPF indica quanto da radiação UV do sol é absorvida pelo tecido. Por exemplo, um tecido com uma classificação UPF 50 permite apenas 1/50 da radiação UV do sol passe por ele. Isto significa que este tecido reduzirá a exposição à radiação UV da sua pele em 50 vezes (98% de bloqueio UV) em áreas onde a pele é protegida pelo tecido.

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