Mentira ou verdade: As quedas enfraquecem as proteções de escalada?

Quedas fazem parte da escalada e isso é um fato. Mas junto com esta realidade, existe uma outra, nem tão natural, que é a proliferação de boatos, mentiras e meias verdades (declaração enganosa que inclui algum elemento de verdade) a respeito de equipamentos. Muitos destes equívocos são criados pelos próprios praticantes, muitos destes que protegidos pela “experiência” e que resolvem criar teorias empíricas sem muito embasamento científico.

Qual a melhor maneira de saber se algum “experiente” no esporte tem a razão ou não em alguma teoria? A resposta é simples: com embasamento científico, disponível sempre em livros sobre o tema. Livros os quais foram escritos após vários estudos científicos e comprovados. Dizer apenas, como acontece corriqueiramente e diariamente no cotidiano dos praticantes de escalada, sem apresentar fontes de provas, apenas servem para espalhar as meias verdades.

A principal duvida a respeito de proteções de escalada, após instaladas, é de quem pode confiar nelas? A esta pergunta existe uma outra: a cada queda, uma proteção de escalada (chapeleta ou grampo P) pode ficar enfraquecida?

A resposta a esta pergunta é relativamente simples, mas vem acompanhada de várias observações. Para que qualquer pessoa entenda, é necessário usar uma metáfora. Se um gotejar de água pode, por exemplo, abrir um buraco em uma pedra, quedas na escalada poderia fazer o mesmo em uma proteção? A resposta passa pela quantidade, frequência e tempo. Seria uma extensão óbvia do “água mole e pedra dura, tanto bate até que fura”.

Em termos práticos, com extensos estudos em mecânica dos sólidos e engenharia de materiais, para um parafuso ficar enfraquecido de maneira substancial por causa de uma queda (independente do Fator de queda), o escalador teria que exceder a resistência à fadiga e, além disso, exercer milhares (ou até milhões) de vezes esta força. A fadiga mecânica é o fenômeno de ruptura progressiva de materiais sujeitos a ciclos repetidos de tensão ou deformação.

Foto: https://www.mountainproject.com

Nas proteções de escalada, o simples ato de apertar bem o parafuso quando conquistar uma via de escalada, já evita o acontecimento da fadiga mecânica em uma proteção. Isso porque um parafuso devidamente apertado, atua como uma mola rígida que puxa a proteção e a rocha juntas. Enquanto esta tensão (do efeito mola) for maior do que a carga causada por uma queda, o parafuso não “sentirá” qualquer alteração de tensão e não falhará em fadiga. Simples assim.

Portanto, o segredo é apertar o parafuso corretamente, pois quanto mais solto será maior a sua tendência de falhar.

Muitos poderão argumentar que a inclinação de uma via irá influenciar neste raciocínio. A resposta é simples: não, se o parafuso estiver apertado devidamente. Na sequência desta realidade, alguém pode argumentar que o ato de apertar um parabolt no buraco de uma via de escalada, pode espaná-lo. Uma outra teoria que não corresponde à realidade.

Para entender sobre esta teoria, que não passa de uma lenda, é necessário entender o que é torque. Torque é a medida de quanto uma força que age em um objeto faz com que ele gire. O valor do torque depende do diâmetro do tipo parafuso, grau, coeficiente de atrito entre o parafuso e que tipo de material é a rocha e parafuso. O torque de seu parafuso de ½” para escalada é 6 kgf.m. Ou seja, somente uma força mecânica, muito acima de qualquer “apertador” manual de parabolt excederia este valor.

Portanto, a resposta para a pergunta ao título deste artigo é: Não, quedas não irão enfraquecer uma proteção de escalada (independente do fator de queda). Desde que, claro, esteja bem apertado e devidamente instalado. A proteção bem instalada não irá enfraquecer, mesmo que um escalador caia milhões de vezes.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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