Colabore com você mesmo: Quais os dois processos de pensamento dentro de nós?

Com quem estamos competindo quando estamos em uma competição? Podemos pensar que estamos competindo com os outros concorrentes e estaremos parcialmente corretos. No entanto, há uma competição mais importante e interessante ocorrendo ao mesmo tempo: uma competição contra nós mesmos. Há uma parte de nós que não quer competir. Ela busca conforto e faz o possível para impedir o estresse que teremos na competição. Se cedermos a essa parte, não daremos 100% de esforço para ter o melhor desempenho.

O livro de William Irvine, “Um Guia para a Boa Vida”, investiga como podemos aplicar a sabedoria estóica em nossas vidas hoje. Os estóicos estavam cientes das limitações da nossa parte que busca conforto e tentaram competir contra ela. Irvine diz: “Quando faço coisas para me causar desconforto físico e mental, eu me vejo como um adversário em um tipo de jogo.” Irvine chama esse oponente de seu “outro eu”. Ele continua: “Meu ‘outro eu’ não é um amigo; pelo contrário, ele é considerado, nas palavras de Epicteto, “como um inimigo à espreita”. Irvine sugere que, para ganhar uma competição, é preciso estabelecer um domínio sobre esse “outro eu”, como, por exemplo, causar-lhe desconforto, não permitindo que experimente prazer, ou forçando-o a enfrentar seus medos. Esta é uma abordagem típica de resistência e força mental ao treinamento mental.

Irvine usa um exemplo em seu livro sobre uma competição de remo. “Quando remo competitivamente, pode parecer que estou tentando vencer os outros remadores, mas de fato estou envolvido em uma competição muito mais significativa: aquela contra o meu outro eu. Ele não queria aprender a remar. Ele não queria fazer exercícios, preferindo passar as horas antes do amanhecer dormindo em uma cama quente. Ele não queria remar para a linha de partida da corrida. (Inclusive, no caminho até lá, ele reclamava repetidamente que estava cansado.) E durante a corrida, ele queria parar de remar e simplesmente deixar os outros remadores vencerem. (“Se você simplesmente desistir de remar”, ele diria em sua voz mais sedutora, “toda essa dor chegaria ao fim. Por que não simplesmente desistir? Pense em como seria bom!”).

Em seguida, Irvine oferece uma convincente mudança de perspectiva na forma como competimos com os outros. “É curioso, mas meus competidores em uma corrida são simultaneamente meus companheiros de equipe na competição muito mais importante contra o meu outro eu. Correndo um contra o outro, todos corremos simultaneamente contra nós mesmos, apesar de nem todos estarmos conscientes disso”.

E finalmente, Irvine nos dá uma perspectiva interessante sobre ganhar competições. “E é inteiramente possível que alguém perca a competição contra os outros remadores – até mesmo fique em último -, mas no processo de fazê-lo triunfou na competição contra o seu outro eu.”

Eu concordo parcialmente com a hipótese de Irvine aqui. Temos uma parte que busca conforto contra a qual podemos competir, e podemos aprender muito não cedendo à busca de conforto. Eu também acho que é útil ver outros competidores como companheiros de equipe, ao invés de inimigos contra quem um está lutando. Mudar nossa perspectiva de vencer com base em nossa classificação com outros concorrentes, para dar ou não 100% de esforço nos dá uma nova visão sobre a competição. No entanto, esse ‘eu’ em busca de conforto não é um inimigo como Epicteto o chamava. Em vez disso, ele precisa ser direcionado corretamente. Entender nosso diálogo mental pode nos ajudar a descobrir como direcioná-lo.

O diálogo mental parece uma batalha entre dois processos de pensamento dentro de nós. Um processo de pensamento quer que nos envolvamos com o estresse para aprender e crescer. Outro processo de pensamento quer que nos sintamos confortáveis e mantenhamos o status quo. Esses dois processos de pensamento não estão em uma batalha, e sim nos ajudam a alcançar objetivos diferentes. O que busca conforto nos ajuda a descansar e recuperar energia. O que envolve o estresse nos ajuda a aplicar nossa energia quando estamos descansados. O desafio, porém, é que a busca por conforto nos influencia de maneiras limitantes quando decidimos nos engajar em situações estressantes. Além disso, ela tende a ser mais forte do que aquela que quer nos engajar no estresse. Nossa tarefa é saber como orientá-la.

A negatividade da parede na Cima Grande é evidente | Foto: Acervo Pessoal Cissa Carvalho

O processo de pensamento em busca de conforto pode ser direcionado de maneira eficaz se o apontarmos na direção de um objetivo. É aqui que a escalada em si pode ser útil. Por sua própria natureza, o objetivo da escalada é explícito; chegar no topo de uma linha. O processo de pensamento em busca de conforto pode nos informar como precisamos subir para atingir a meta o mais rápida e facilmente possível. Ao direcioná-lo para o estresse, ele buscará as formas mais eficientes de exercer esforço enquanto trabalhamos em direção ao objetivo.

Chamar esse “outro eu” de inimigo é uma abordagem típica de resistência mental ao treinamento mental, que busca estabelecer domínio sobre ele, fazendo-o sentir desconforto, não permitindo que ele experimente prazer, ou forçando-o a enfrentar seus medos. Em vez de competir contra isso, colaboramos com isso. Isso é flexibilidade mental. Estabelecemos equanimidade com o “outro eu”, direcionando-o para o estresse quando escolhemos, permitimos que ele experimente o prazer quando escolhemos e enfrentamos os medos de forma incremental, para que possamos encontrar os caminhos mais fáceis através deles. Ao invés de lutar contra um inimigo que está nos atrapalhando, abraçamos o “outro eu” como um aliado que nos ajuda. Fazer isso nos envolve de maneiras mais importantes e interessantes e nos permite aprender lições mais profundas sobre o que significa competir com os outros e com nós mesmos. Nós vencemos independentemente de termos chegado ou não. Nós ganhamos porque estamos colaborando com o nosso “outro eu” para que possamos dar o nosso melhor esforço.

Dica Prática: Conduza seu “outro eu”

Seu “outro eu” lhe dirá que escape do estresse a menos que o conduza. Conduzindo-o irá te informar de como processar o estresse. Utilize este processo de quatro passos para guiar ao seu “outro eu” para que possa processar o estresse de maneira eficiente e alcançar seu objetivo:

  • Estabeleça o objetivo: Determine o objetivo para que o “outro eu” saiba para onde o está guiando.
  • Identifique os processos: Pare e pense para a preparação, em seguida mova-se para a ação.
  • Utilize o “outro eu” para processar o estresse: Peça a seu “outro eu” que encontre o caminho de menor resistência através do estresse, à medida que trabalha até sua meta. Isso inclui dedicar sua atenção a um dos dois processos que identificou no ponto nº 2.
  • Reconduza sua atenção: Quando sua atenção se distrai dos processos que não estão alinhados com o trabalho até a meta, reconduza sua atenção a estes processos.

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O livro “The Rock Warrior Way – Mental Training for Climbing” está à venda traduzido para a língua portuguesa no Brasil em: http://www.companhiadaescalada.com.br/

Tradução do original em inglês: Gabriel Veloso

Arno Ilgner distinguiu-se como um escalador pioneiro nos anos 1970 e 80, quando as principais ascenções foram as primeiras fortes e perigosas. Essas façanhas pessoais são a base para Ilgner desenvolver o programa de treinamento físico e mental – Rock Warrior Way ®. Em 1995, após uma pesquisa aprofundada da literatura e prática de treinamento mental e as grandes tradições guerreiras, Ilgner formalizado seus métodos, fundou o Instituto Desiderata, e começou a ensinar seu programa de tempo integral. Desde então, ele tem ajudado centenas de estudantes aguçar a sua consciência, o foco de atenção, e entender seus desafios de atletismo (e de vida) dentro de uma filosofia coerente, baseada em aprendizado de tomada de risco inteligente. Ilgner considera a alegria e satisfação no esforço – a “viagem” – intimamente ligada à realização bem sucedida das metas.

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