Porque o desejo de ser, fazer e ter prejudica o rendimento em qualquer esporte

Quando eu era mais jovem, eu era conhecido localmente como alguém que era destemido, e usei minha falta de medo para fazer primeiras ascensões na Montanha Whitesides (1.500 m), na Carolina do Norte, que é conhecida por suas vias assustadoras. Eu queria ser alguém importante na comunidade de escalada e essas primeiras ascensões me deram um senso de importância para alimentar meu ego.

Todos nós podemos cair nesse tipo de armadilha. Queremos ser alguém importante para validar nossa existência. Então, aplicamos as habilidades que temos atualmente para fazer vias que nos ajudam a ser importantes. Esse é o tipo de abordagem terfazer-ser da vida. Operamos a partir de um fundamento instável do ego, que busca maneiras de se validar. Auto importância cria estabilidade para o ego, mas é de curta duração. Conquistas validam o senso de existência do ego. Como a existência do ego é baseada em realizações, ela deseja continuamente mais conquistas. Como resultado, ele nunca é satisfeito e nunca chegamos a um momento em que nos sentimos estáveis e dignos de existência.

Foto: Sean Naugle | http://blackowlmedia.com/

Um foco na consciência nos dá a abordagem oposta: ser-fazer-ter. Estamos cientes de que “ser” é um dado. Não precisamos provar nossa existência para nós mesmos ou para os outros. Essa abordagem nos permite começar de uma base estável de ser. A partir dessa base, fazemos vias, para ter novas habilidades. Aplicamos habilidades com as quais temos alguma proficiência, mas procuramos melhorar essas habilidades por meio de vias que nos ajudam a aprender.

Eu tinha uma mistura dessas abordagens enquanto fazia as primeiras ascensões em Whitesides. A abordagem de ter-fazer-ser me motivou a usar minha habilidade de ser destemido para fazer vias que eram assustadoras. Isso alimentou o desejo do meu ego de validar a sua existência. A abordagem de ser-fazer-ter me motivou a estar nas vias assustadoras de Whitesides porque eu estava interessado em investigar o que significava ser destemido. Esta última abordagem revelou alguns medos inesperados, o que me ajudou a aprender mais sobre ser destemido.

Foto: Alton Richardson

Por exemplo, aprendi que me esforçar para ser respeitado por ser destemido escondeu outros medos. Comecei a notar os tipos de escalada que evitei, como vias esportivas difíceis. As vias em Whitesides são assustadoras por causa do risco físico de cair em situações de esticão, mas sua dificuldade é limitada a VIII grau. Este grau pode parecer difícil, mas eles são moderados quando comparados a vias esportivas difíceis que podem ser de XI grau. Essas vias em Whitesides criaram uma fachada que encobriu o medo de ser julgado por não poder escalar vias de graus de dificuldade mais alta.

Existem muitas camadas para nossa identidade do ego, camadas sobre camadas de realizações que o ego usa para se validar. Nós realmente não sabemos o que está por baixo de todas essas camadas até começarmos a descascá-las. A consciência é o que nos ajuda a fazer isso. Descascar camadas nos leva a um lugar que é fundamental, onde ser é uma dádiva. Nós percebemos o estado de ser como nossa essência; não o ego. Manter nosso foco nessa consciência nos dá uma base estável de ser, de onde podemos operar.

Desenvolver a consciência das camadas que meu ego estava criando me ajudou a entender a dicotomia entre ser destemido em situações fisicamente assustadoras e ter medo em situações mentalmente assustadoras. Essa consciência me levou a enfrentar meu medo de falhar mentalmente e arriscar perder o respeito da comunidade de escalada. Ao me testar nas difíceis escaladas esportivas, eu corria o risco de não ser bom o suficiente para pertencer à comunidade de escalada.

Enfrentar esse medo repetidamente, testando-me em escaladas esportivas difíceis, me ajudou a mudar para uma abordagem de ser-fazer-ter e descascar camadas da fachada que meu ego havia criado. Isso permitiu que eu me tornasse mais destemido em situações desafiadoras físicas e mentais.

Dica de Prática: Não melhore a si mesmo

Não se melhore; melhore suas habilidades. Identifique uma habilidade que você atualmente deseja melhorar. Então, concentre-se em ser-fazer-ter. Seu ser não depende de quão bem você melhora sua habilidade.

  • Lista de habilidades: queda, movimento, colocação de proteção móvel, compromisso… Selecione uma habilidade que você quer melhorar.
    Seja: Aceitar ser é uma dádiva.
  • Faça: Selecione vias que lhe permitirão praticar e melhorar esta habilidade. Identifique pequenos passos incrementais que você pode seguir para praticar. Obtenha treinamento profissional para acelerar seu progresso.
  • Tenha: Com bastante prática e orientação, você desenvolverá a habilidade para um novo nível. Concentrar-se na abordagem do tipo ser-fazer-ter manterá sua atenção no desenvolvimento de habilidades. Não vai melhorar você; isso vai melhorar suas habilidades.

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O livro “The Rock Warrior Way – Mental Training for Climbing” está à venda traduzido para a língua portuguesa no Brasil em: http://www.companhiadaescalada.com.br/

Tradução do original em inglês: Gabriel Veloso

Arno Ilgner distinguiu-se como um escalador pioneiro nos anos 1970 e 80, quando as principais ascenções foram as primeiras fortes e perigosas. Essas façanhas pessoais são a base para Ilgner desenvolver o programa de treinamento físico e mental – Rock Warrior Way ®. Em 1995, após uma pesquisa aprofundada da literatura e prática de treinamento mental e as grandes tradições guerreiras, Ilgner formalizado seus métodos, fundou o Instituto Desiderata, e começou a ensinar seu programa de tempo integral. Desde então, ele tem ajudado centenas de estudantes aguçar a sua consciência, o foco de atenção, e entender seus desafios de atletismo (e de vida) dentro de uma filosofia coerente, baseada em aprendizado de tomada de risco inteligente. Ilgner considera a alegria e satisfação no esforço – a “viagem” – intimamente ligada à realização bem sucedida das metas.

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