Perigo em Andradas : Uma escalada que quase terminou mal

Não conheci Davi Marski, mas aprendia bastante com seus artigos e vídeos sobre técnicas de escalada. Num meio em que há tanto estrelismo e vaidade, ele me parecia um cara boa praça que se destacava por ser um montanhista importante que socializava seu conhecimento. Por isso eu o admirava.

Sua morte, em Andradas, durante a escalada da Pedra do Pântano, em novembro do ano passado, me entristeceu bastante. Mas confesso que meu inconformismo com o modo como ele morreu – atacado por abelhas – me machucava mais.

Boa parte do meu imaginário sobre montanhismo é constituída por histórias de tragédias e heroísmo protagonizadas por escaladores que se meteram em grandes desafios, como Toni Kurz, no Eiger, e Pierre Mazeaud e seus parceiros no Pilar Frêney do Mont Blanc.

Morrer em situações como as vividas por esses homens é aceitável.

Atacado por um enxame na primeira parada de uma via em rocha, não! Não foi justo…

marcos-angelim-3

Foto : Marcos Angelim

À época, conversar sobre isso foi a forma que encontrei de exorcizar as sensações que me atormentavam e que me levavam a questionar meu desejo de escalar.

Assim, logo o tempo se encarregou de debilitar esses sentimentos e só me lembrava do fato quando lia alguma outra notícia ruim.

Eu nunca tinha escalado em Andradas. Primeiro porque o destino comum da maioria dos meus amigos escaladores é São Bento; segundo porque ou me faltava tempo ou parceiros. No entanto, o desejo de conhecer o lugar estava na cabeça, incubado.

E foi nesses primeiros dias de agosto que surgiram a oportunidade e as condições de escalar naquela região: dias livres, tempo bom e, acima de tudo, um bom parceiro – o Thiago, que parecia tão fissurado quanto eu para escalar.

O plano era escalarmos dois ou três dias lá e na volta fazermos uma escala no Cuscuzeiro, em Analândia.

Saímos de São Paulo às nove da manhã de terça, quatro de agosto, com a intenção de não chegarmos muito tarde a Andradas e escalarmos a Pedra do Elefante, mais precisamente a sua cabeça, pela via Vulcano – 5º Vsup E1 180m.

Na verdade, a intenção e proposta de escalarmos ainda aquele dia eram do Thiago.

Foto : Marcos Angelim

Foto : Marcos Angelim

Eu me sentia sonolento e desejava sombra e água fresca, mas tínhamos que aproveitar o dia, afinal estávamos indo para um lugar riquíssimo em vias, com três grandes pedras a explorar e não tínhamos a semana inteira!

Porém, em parte por causa de uma parada em Espírito Santo do Pinhal para comprar a comida necessária para três dias no Abrigo de Montanha do Pântano, chegamos por volta das 14h ao local onde se deixam os carros. Ali, o de sempre: escolha do equipo etc…

A trilha para a via nos impôs cachorros nada amigáveis, bois desconfiados e um forte calor. Mas às 15h15min começamos a subida. Não era tão tarde assim para uma via de apenas quatro enfiadas relativamente fáceis, mas era bom terminá-la com luz, posto que a descida se faz rapelando as seis enfiadas da Era do Gelo.

O Thiago terminou rápido a primeira enfiada; a segunda eu toquei, também num tempo bom e, pela lógica do revezamento, ele pegou a terceira com destino à P3. Estava tudo como o previsto: escalávamos sem demora, sem erros e sob um lindo céu azul.

Foto : Marcos Angelim

Foto : Marcos Angelim

Depois que cheguei à terceira parada, tranquilos conversávamos sobre sapatilhas apertadas quando escutamos um zunido e vimos algumas abelhas voando em torno de nós. Atentos àquele ruído que aumentava, olhamos para baixo, à nossa direita, e vimos que se formava um grande enxame a cerca de seis ou sete metros.

O coração acelerou, a adrenalina tomou conta de mim e a história do Marski voltou como uma rajada de vento.

– Se te picar, não mata! – falei.

– Cara, são muitas!

Sem pensar tirei a mochila das costas e peguei o frasco contendo um resto de repelente.

– Não se mexe, fica parado…

Imóvel, segurando a mochila com a mão direita, vi a primeira abelha pousar na parte anterior do meu antebraço e me picar. Decidido a não me mover, suportei a picada, que pareceu durar minutos. O enxame lá embaixo não aumentava, mas já tinha dimensão maior que a de um automóvel.

Era assustador. Levei, então, a segunda picada – agora perto do cotovelo esquerdo. Logo veio a terceira, na mão esquerda, e como rodeavam meu rosto achei que começariam a me picar sem parar. A possibilidade de levar mais picadas e ter um choque anafilático me apavorou.

– Me dá corda. Vou descer! – eu disse.

– Não, cara! Somos dois aqui…

Procurei recuperar a calma e passei a inspirar pouco e soltar o ar devagar, em pequenas expiradas. O Thiago tinha levado apenas uma picada no ombro, mas elas continuavam a nos rodear.

Nosso grande medo era de que o enxame subisse e nos envolvesse. Não, morrer assim, não! Não é justo… Tínhamos de fazer alguma coisa, mas o que? A imobilidade era melhor escolha.

Era? Eu ainda estava na seg como segundo. Ele poderia liberar corda devagar enquanto eu desescalava, mas eu teria de passar ao lado do enxame, perto demais! Subir, então? Como?

– Vou montar sua seg. Você sobe…

Falávamos, pensávamos, mas não nos movíamos, em parte por resolução, em parte por medo.

Depois de um tempo que me pareceu uma eternidade, vimos que o enxame parecia diminuir. Talvez estivesse se afastando, indo para outro ponto da rocha. Mas ainda havia abelhas à nossa volta.

– Vou montar sua seg, devagar – disse eu, de novo.

E, fazendo movimentos curtos, lentos e silenciosos, preparei a segurança do Thiago. Ele começou a escalar como que pisando em ovos e, aos poucos, sumiu de vista.

Eu continuei lá, com abelhas zunindo em volta de mim, e tomei mais uma picada. Outra abelha tentou entrar no meu nariz, então a afastei com um tapa e elas se irritaram.

– Vamos, Thiago! Me dá seg! – gritei.

– Vem!

Comecei a escalar com cuidado, mas qualquer protuberância, qualquer pequenino cristal, era uma agarra. As abelhas me acompanharam e próximo à parada ainda tomei outra picada – desta vez abaixo do olho direito.

Foto : Marcos Angelim

Foto : Marcos Angelim

Quando cheguei, já escurecia e ele me pediu para caminhar para a esquerda a fim de encontrar a parada da Era do Gelo, que ele não conseguia ver.

Eu não achei nada! Então subi para o cume.

Ele veio depois, sem conseguir disfarçar a preocupação e o nervosismo. O alívio me dominou. Para mim, tinha acabado.

– Meu, precisamos descer.

– Eu sei.

– Temos de achar a parada…

– Na pior das hipóteses dormimos aqui…

-Não, cara! Vamos descer por onde viemos.

– Não. A descida não é por aí e eu não vou passar perto delas.

– É noite, não vão atacar…

– Não, eu não vou.

Começávamos a divergir, mas uma espécie de calma anestésica me dominara e me permitia entender a situação sem alterar meu humor. Na realidade, para mim, ali em cima, tudo estava bem e às vezes eu ria achando graça na situação. Sob aquele céu estrelado, lá estava eu, entorpecido pela felicidade de estar vivo.

Já estava escuro. Peguei o croqui:

-Olha, a parada está embaixo, numa diagonal à esquerda da Vulcano.

-Eu vou lá, me dá seg. – disse ele.

Sentei na melhor reentrância que achei ali, opus os pés e dei seg para ele descer à procura da parada.

– Tô na minha! – gritou.

Não tinha sido difícil achar. Estava escuro, mas a luz de nossas headlamp´s era suficiente. Seis “rapéis” depois até a base e finalmente pudemos ambos compartilhar de novo uma mesma sensação – a de segurança.

Fizemos a trilha de volta para o carro e fomos para o abrigo. Lá, contamos para a Dona Berenice o que acontecera e ela se surpreendeu porque “não tem abelhas na Vulcano”. Num mural do abrigo há um aviso informando onde há abelhas na Pedra do Pântano e do Elefante.

De acordo com esse alerta, não há abelhas na Vulcano nem na via à direita dela, a Erupção. E realmente não vimos nenhuma colméia por onde passamos ou nas laterais. Nossa hipótese é a de que as abelhas estavam migrando.

marcos-angelim-1

Foto : Marcos Angelim

Migrações, com base numa breve pesquisa que fiz, são comuns entre junho e agosto, antes da florada. Então, elas podem estar em qualquer parte e não basta saber em que vias existem colméias.

Escalamos em áreas de floresta, em zonas rurais, e podemos ser surpreendidos a qualquer momento por um enxame migratório.

Apesar disso, os picos de Andradas ficam cada vez mais conhecidos pela presença de abelhas e por isso podem ficar “queimados”. Nós, no dia seguinte, abalamos para Analândia.

Não é exagero. Escapamos por pouco.

Tivemos sorte, uma sorte que o Marski não teve duas vezes. – Em fevereiro de 2014 ele sobrevivera a um grave ataque de abelhas no Baú.

Sobre o Autor

Marcos Angelim

Marcos Angelim

Marcos Angelim é paulistano e escala há três anos. Dedica a maior parte do seu tempo à escalada e a tudo o que gira em torno do montanhismo

There are 4 comments

  1. Fabio Fernandes

    Só de ler senti a tensão e o alívio! Qdo a população de abelhas numa colmeia (na rocha, geralmente o buraco em que habitam) excede a capacidade, a rainha produz uma nova rainha, para dps partir com uma grande quantidade de abelhas em busca de uma nova casa (isso é chamado “enxamear”). Como elas se enchem de mel (alimento) para a viajem, mal conseguem contrair o abdomem para picar; sendo por isso, raro um enxame migrando atacar pra valer – só um “pequeno” grupo, as soldados, que vão picar aos poucos na intenção de afastar a ameaça; até pq nessa circunstancia elas ñ têm uma casa com estoque de mel para defender. Por isso vcs tiveram a melhor atitude (“calma”, imobilidade, silêncio, afastar-se qdo possível). Diferente de bater na porta duma colmeia, caso em que o ataque aumenta se não nos afastarmos rápido; exatamente o que não conseguimos fazer na parede.. Restando a nossa maior e 1ª defesa OBSERVAR o máximo de longe (binóculo de preferencia).
    Há casos em que apicultores conseguem resgatar o enxame e fechar o buraco. Creio ser uma providencia até necessária diante do que tem ocorrido por aí, naun!?

Comente agora direto conosco

Comment moderation is enabled. Your comment may take some time to appear.