Pedra Riscada, em busca da Divina Liberdade!

Montanhismo é escalada, visuais incríveis, estar na natureza… Garantia de aventura e desafios lidando com o inesperado e, muitas vezes, desconhecido. É a chance de aprender sobre si mesmo e as pessoas que te acompanham, estreitar laços com parceiros de cordada e crescer frente alegrias e dificuldades que se apresentam quando nos propomos a estar na montanha. Foi nessa atmosfera que nossa história iniciou um ano antes…

Voltávamos de São Bento do Sapucaí para o aeroporto de São Paulo após escalarmos na Pedra do Baú e região. Iríamos nos separar novamente cada um para sua casa! No final de uma trip, com a mente leve e corpo cansado, cabeça feita, é comum surgirem ideias para a próxima aventura. E foi justamente nesse momento que o Leo, amigo escalador de Campo Grande, disse: “o que acham de escalarmos a ‘divina providência’ na Pedra Riscada?” E aí surgiu o trio da cordada…

Foto: Bibiana Velloso

Voltando para casa, logo iniciaram as pesquisas… Bom, de início descobrimos o real nome da via, ‘Divina Liberdade’… E aí foi uma mistura de sentimentos, e a euforia já se iniciava para o primeiro verdadeiro big wall de todos nós!

Seria o plano da temporada seguinte e próxima trip longa de escalada. Minas Gerais, São José do Divino, Pedra Riscada, Divina Liberdade…

Então o ano voou, a data definida chegou! Nesse meio tempo, Léo deixou a cordada por um objetivo maior, mas seguimos com a ideia e intenção de representá-lo na parede! Sem muita preparação e um tanto mal equipados, seguimos para São José do Divino! Longa viagem, mais de 2000 km de estrada desde Santa Maria – RS.

Durante o caminho iniciamos conversa com o inigualável, imensurável, inestimável, Edmilson Duarte, dono do abrigo próximo a Pedra Riscada… Pessoa que desde logo nos divertiu com suas histórias e poesias! Foi ele quem nos deu todo o apoio durante a estada por lá.

Estávamos confiantes que seria só alegria! Chegamos na cidade e tomamos rumo para o local.

Foto: Bibiana Velloso

No caminho, uma pausa dramática ao encarar a pedra pela primeira vez. Chovia forte e foi intimidante ver o volume de água descendo pelas canaletas bem marcadas na pedra, nessa hora fez todo o sentido o nome Pedra Riscada. Este primeiro contato assustou! Mas ao mesmo tempo bateu um desejo infinito de vencer a escalada até o topo da via… Seriam 1100 metros da base até o cume. E sabíamos que seria um desafio e tanto!

E assim foi…

No primeiro dia organizamos os equipamentos, fazendo logística de água e comida e se preparando psicologicamente para a escalada… Enfim, na aurora do dia seguinte, iniciávamos a ascensão!

Foto: Bibiana Velloso

Logo, percebemos que seria tarefa nada fácil… na P3 surgiram os primeiros problemas ao tentarmos rebocar as mochilas… Após resolvermos a situação mudamos a estratégica e seguimos escalando ambos com mochilas. O sol nos acompanhando o dia inteiro em um calor acima de 30 graus! Felizmente não chovia!

Enfim, chegamos na P9 por volta das 18 horas, bastante exaustos, mas ali seria o nosso bivaque… Logo ao cair a noite, fomos contemplados com a visão da queda de um meteoro que riscou alaranjada o céu. Parecia que a natureza e o universo nos davam as boas vindas para a linda noite que se seguiria! Teríamos um enorme platô para nos acomodar, um jantar quente e sinal nos telefones celulares para comunicação.

Foto: Bibiana Velloso

No dia seguinte acordamos com o objetivo de encontrar água numa cacimba como havia nos garantido existir o mentor desta escalada, Leo “pantaneiro”. Após encontrarmos (ufa, porque não tínhamos mais nada) seguimos via acima… Com os problemas com o equipamento, dores no corpo e já bastante cansados nos parecia uma longa jornada… mas a vontade de vencer o desafio era maior e quando um pensava em desistir o outro puxava à frente e assim seguimos para cima.

Enfim, aproximadamente 15 horas deste dia chegamos na P21, após uma última rampa em granito quebradiço e trecho final de vegetação úmida… É topo!

Foto: Bibiana Velloso

Bom, o cume não era tudo isso, mas a vista… que vista era aquela!? Estarrecedora! Ainda me pergunto… Era uma pintura de montes e vales?!?!? Contemplamos a nossa liberdade por estar na montanha juntamente com aquele visual incrível a 1.100 metros do chão!

Ambos exaustos, não havia muito o que fazer… Precisávamos começar a descer… 21 rapéis, 21 puxadas de cordas, mais 21 vezes pendurados em paradas ao longo do caminho de volta… Parecia não ter fim! Água acabou, comida também, e nada de chegar ao chão, mas a noite logo chegou… Bom, não preciso nem falar que o rapel foi com certeza a parte mais desgastante, para não dizer quase insuportável. Finalmente cerca de 2h da manhã eis que alcançamos a terra firme.

Foto: Bibiana Velloso

Primeiramente um alívio por ter acabado… Porém o sentimento de chegar ao topo ou o alívio pelo fim da descida não foram o mais importante. E sim, a experiência e o aprendizado do caminho percorrido, o fortalecimento da nossa parceira de cordadas e a certeza de estarmos ainda melhor preparados para as próximas inusitadas e intrépidas ideias de escalarmos grandes paredes.

Pois o que desejamos e acreditamos que todo montanhista sente o mesmo, é sermos felizes, entusiasmados e inspirados por este esporte e pelas rochas perdidas mundo a fora que o compõe.

Foto: Bibiana Velloso

Escalamos porque desejamos que aquele sentimento que nos tocou na primeira vez, sempre permaneça em nossos corações, pois escalar é muito mais que chegar ao fim de uma via, escalar é desfrutar de momentos únicos, é estar em lugares anteriormente imagináveis, compartilhar momentos e conversas incríveis com pessoas incríveis que nos inspiram e talvez, poder inspirar também… É a satisfação de descobrir nossos heróis em nossos companheiros de cordada que dividem ombro a ombro o caminho conosco!

Leo… Esta pequena conquista dedicamos a ti, “gratiluz” por ter estado presente com a vibe e nos inspirado Pedra Riscada acima o tempo todo!

Foto: Bibiana Velloso

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