Política e eleições: Patagonia entra de sola na batalha das eleições ao congresso dos EUA

Marcadas para acontecer no próximo dia 6 de novembro próximo, as eleições que irão compor 435 cadeiras na Câmara dos Deputados, e 35 das 100 cadeiras no Senado, dos Estados Unidos da América, parecem estar pegando fogo como no Brasil. Diferentemente do Brasil, que escolhe em uma única eleição para deputados estaduais, deputados federais, senadores, governadores e presidente, os EUA não escolhem presidente e governador. Esta escolha no país norte-americano é importante para saber que tipo de política será seguida a partir das maiorias e minorias nas casas legisladoras. Estas eleições são conhecidas como eleições de meio de mandato (midter m elections).

Como todos devem saber, o atual presidente dos EUA Donald Trump vem sendo duramente criticado por sua política com relação às terras de parques públicos norte-americanos. Para combater sua conduta de doar terras públicas para mineradoras, ou outras empresas privadas, à exploração, é necessário haver uma oposição mais forte. Esta oposição teria, ao menos em teoria, poder de vetar e, talvez, reverter várias dos planos tidos como danosos a quem pratica esportes outdoor. Isso porque, nesta lógica, com menos lugares para a prática, maior seria o impacto em uma indústria que a cada ano ganha mais destaque no PIB dos EUA.

Desde a semana passada, uma das empresas de maior destaque da indústria outdoor subiu o tom e deu um passo sem precedentes ao recomendar explicitamente dois candidatos para o Senado dos EUA. Desta maneira, atuando de forma tão explícita, deixa poucas dúvidas sobre onde estão suas prioridades e lealdades com relação à prática de esportes outdoor.

A empresa em questão é a marca Patagonia, reconhecidamente atuante em termos de práticas não ortodoxas de administração e relação com o cliente. Seu fundador e CEO Yvon Chouinard também falou grosso com todos seus concorrentes em declarações a veículos de imprensa americanos.

A fúria de Chouinard tem uma explicação que muitos brasileiros entendem desde 2014. Os candidatos norte-americanos, sejam eles republicanos e os democratas, estão um contra o outro a ponto de não querer tanto conquistar uma vitória para seus eleitores, mas também não quer deixar que seus oponentes “ganhem” também. Para isso é necessário que nesta “briga”, seja necessário empresas também emitirem a sua opinião diante desta polarização.

Indústria outdoor tem ‘medo da própria sombra’

Chouinard declarou de maneira contundente no ano passado, que os executivos da indústria outdoor “são um dando de ‘chorões’ e têm medo da própria sombra”. O fundador da marca Patagonia tomou frente a este enfrentamento com o governo federal norte-americano desde que o governador de Utah, Gary Herbert, desfez, com o apoio de Donald Trump, a decisão do ex-presidente Obama de criar o Bears Ears National Monument. Na época Chouinard publicou uma carta de protesto e se retirou da Outdoor Retailer (mais importante feira outdoor dos EUA), que acontecia no estado. Mais tarde outras marcas seguiram o mesmo procedimento. Após muita pressão política, a feira mudou-se para Denver, no estado norte-americano do Colorado.

Não satisfeito com o “motim” que provovou, que mudou a feira de lugar (impactando assim o orçamento do estado norte-americano de Utah em US$ 45 milhões), Yvon Chouinard começou a adotar posturas de protesto cada vez mais incisivas contra o governo federal norte-americano. A empresa chegou a processar Trump por reduzir reservas de proteção ambiental e cultural.

Muitos ativistas, é verdade, faziam barulho aparentando ser um número muito maior do que são na verdade. A melhor maneira, de ser respeitado pelos político, seria promover o encurtamento da distância entre ativistas e causas. Com o objetivo de encurtar esta distância, a Patagonia criou uma plataforma para colocar ativistas e ONG´s mais próximos um dos outros. A ferramenta tinha o objetivo de colocar pessoas que querem atuar como ativistas em contato com as organizações que melhor se encaixem com o objetivo. Apesar da ferramenta ser on-line, ela queria tirar as pessoas da frente do computador e colocá-las em ação.

Desde o mês passado, entretanto, o fundador da Patagonia aproveitou para mostrar garras e dentes nesta guerra que tomou como pessoal contra o controverso presidente norte-americano.

Foto: http://www.conservacionpatagonica.org/

Como o voto nos EUA não é obrigatório como no Brasil, Chouinard decretou que suas lojas e fábricas estarão fechadas, para que cada um de seus funcionários tenha tempo para ir votar e eleger parlamentares que abracem alguma causa ecológica. Ao todo, serão aproximadamente 1.500 funcionários liberados do trabalho para votar no próximo dia 6 de novembro.

Em uma pesquisa realizada por um instituto chamado Center for Western Priorities, a decisão de diminuir o Bears Ears foi impopular, para ambas as ideologias políticas, democratas e republicanos, que antagonizam nos EUA. De acordo com a pesquisa quase três quartos discordam da decisão.

A título de curiosidade, apenas 36% dos eleitores americanos costumam comparecer nas eleições nos EUA. A estatística é do pleito de 2014. Muitos alegaram que trabalhar no período de votação, os impede de exercer o direito cívico. Portanto uma campanha intitulada “Time to Vote“, criada para incentivar as empresas facilitarem que seus funcionários votem foi criada e tem ampla adesão de várias companhias. De acordo com o site “CEOs de empresas de todo o país estão se unindo em um esforço apartidário para garantir que todos os nossos funcionários tenham tempo para votar”.

Apoiando a campanha

No processo democrático, realizar campanhas eleitorais é uma tarefa considerada cara. Para isso é necessário dinheiro. No Brasil, até pouco tempo atrás, era possível haver financiamento de campanha de fundos privados (empresas). Mas como houve vários escândalos de corrupção por conta disso, nas eleições gerais de 2018 optou-se por um financiamento público de campanha. O dinheiro público, oriundo da união e arrecadado pelos impostos pagos pela população, foi a maneira encontrada para diminuir os escândalos em terras brasileiras. Se é certo, ou errado, não cabe aqui discutir.

Já nos EUA, as regras de financiamento de campanhas não são tão simples. Existem normas para serem realizadas em nível estadual, que variam de acordo com o estado. Mas nas eleições federais existem regras mais claras. Existem limites para o quanto um cidadão (US$ 2.500) pode doar para um candidato à presidência ou partido (US$ 30,8 mil).

Empresas particulares, como é o caso das marcas outdoor, não podem doar diretamente para um candidato. Mas elas são livres, desde 2010, para colocar dinheiro nos Comitês de Ação Política (PAC). Os PAC’s não são oficialmente ligados às campanhas, mas podem arrecadar dinheiro “sem limites” de empresas e indivíduos (para apoiar atacar). Entretanto, de acordo com declarações da própria companhia, a Patagonia não está doando dinheiro para a campanha de nenhum candidato.

Entretanto, nos EUA é visto como corriqueiro pela sociedade, empresas particulares divulgarem posições políticas. Pois foi exatamente isso que Yvon Chouinard fez. No site da empresa há uma declaração de que “democracia depende de pessoas aparecendo para votar”. Recomendando aos habitantes dos estados norte-americanos de Nevada e Montana a votar em Jacky Rosen (Nevada) e Jon Tester (Montana). Na história da indústria outdoor, esta é a primeira vez que uma empresa incentiva consumidores a votar em candidatos específicos para cargos nacionais.

Jon Tester membro do Partido Democrata do estado norte-americano de Montana (partido com viés de centro-esquerda), que prega o liberalismo social. Tester está realizando campanha de reeleição contra um conservador alinhado com Donald Trump chamado Matt Rosendale.

Em sua carreira, especialmente no último mandato, Rosendale fez diversas declarações controversas a respeito de causas ecológicas e, claro, ganhou a antipatia de Yvon Chouinard. Matt Rosendale já declarou em vários discursos, ser contra doações de terras públicas para conservação.

Jacky Rosen é também membro do Partido Democrata, mas pelo estado norte-americano de Nevada, e defensora da implementação de “energia limpa”. Rosen detém muita popularidade em seu estado. Em sua campanha, a candidata declara que “temos que liderar o caminho das energias renováveis, para que possamos crescer nossa economia, criar empregos bem remunerados e garantir nosso futuro energético”.

A Patagonia, entretanto, consegue diferenciar entre aconselhar o voto em um candidato e obrigar funcionários a votar neles. Não há no site nenhum termo incisivo como “Vote em ‘fulano'”. Apenas aconselha, caso a pessoa concorde e apoie a política conservação de terras públicas, a acreditar nos candidatos que a empresa acredita que possam defender a causa.

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