A lenda dos primeiros escaladores do mundo

No princípio foi assim

Há centenas de milhares de anos, quando o planeta ainda não tinha seus continentes separados pelo distanciamento das placas tectônicas e outros elementos da natureza, o mundo era um único e imenso bloco chamado Pangeia (do grego pan = toda e geo = terra), com milhares de montanhas, todas bem juntinhas umas das outras.

Há quem acredite que próximo a esse período surgiram os primeiros homens e que era impossível cavalgar sequer 14 ou 15 passadas mesmo do alto do maior e mais veloz alazão, sem que se deparassem com uma montanha. Por algum motivo que foge à esfera de nossa compreensão, ou talvez pela beleza que a vista proporcionasse, todos os habitantes do planeta decidiram viver no cume dessas montanhas.

Foto: http://anovaevolucao.blogspot.com

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Dada tamanha proximidade entre os povos, não havia necessidade de culturas diferentes, idiomas distintos. Até mesmo a pigmentação da pele, olhos e espessura dos cabelos eram próximas, pois viviam todos numa mesma altitude e partilhavam quase que do mesmo clima e influências naturais. Não havia necessidade de guerras, pois onde não se fazem presentes as diferenças não há motivo para divergências.

Aqueles homens tinham que descer do cume de suas montanhas para cuidar de afazeres nas planícies tais como o plantio, a coleta de água potável, a caça e a pesca. Porém, antes do último resquício de luz do astro rei, todos já haviam retornado aos cumes de suas montanhas, evidenciando assim que, então, éramos todos exímios escaladores.

Chuvas, relâmpagos e trovões

rui-1Às vezes aqueles homens, mulheres e crianças, entregues com fervor à labuta, esqueciam-se do tempo e acabavam por ter que cumprir parte do retorno a seus lares à noite o que se tornava impraticável quando a lua cheia não se fazia presente. Por isso surgiram então os primeiros relâmpagos, flashes de luz repentinos que denunciavam a melhor rota para que chegassem em segurança ao alto da montanha.

Por vezes o tempo entre um relampejo e outro era demasiado e os menos experientes, mais ansiosos, não esperavam e, arriscando-se numa escalada às cegas, acabavam caindo. Naquele exato momento os céus bradavam um ruído forte e estrondoso em forma de trovão, anunciando que um escalador havia sucumbido à ascensão.

Mediante tal anúncio, caso lamentavelmente a queda ultimasse em morte, os deuses do céu silenciavam por completo por alguns instantes, como que dando tempo para que todos os outros completassem suas jornadas. Daí então, de súbito, derramavam grande quantidade de água lastimando o infortúnio.

Eis que surge o Insurgente

Certa vez um homem ainda jovem que escalava de volta ao lar com sua esposa e seu único filho, assistiu atônito aos corpos de seus amados se precipitarem num abismo sem fim. E ele nada pôde fazer. Consumido pela impotência, apenas esperou.

Dizem que ficou ali parado, agarrado a um bloco de pedra, ouvindo os trovões que pareciam estourar-lhe os tímpanos e estremecer-lhe a alma. Depois suportou o interminável e ensurdecedor silêncio, para então ser açoitado impiedosamente pela chuva que lhe caía como ácido por todo o corpo, anunciando a maior desgraça de sua vida. Apesar de tudo ele permaneceu impávido como uma rocha que não se inclina ao sabor do vento e, já na calmaria, fez o que até então nenhum outro homem ousara fazer: abdicou simplesmente de cumprir sua finalidade, sua virtude, e “desescalou” a montanha.

O fim do princípio

Quando chegou ao chão ele adormeceu e de manhã, antes de abrir os olhos, rogou a seu deus que aquilo não houvesse passado de um pesadelo, mas percebeu que não fora atendido quando seu velho pai o confortou e o chamou a escalar de volta ao lar. Ele jurou então, bem ali ao pé do monte, que nunca mais escalaria uma montanha, pois ela lhe havia tirado o que ele tinha de mais precioso.rui-4

Aquele mesmo homem, um dia, apaixonou-se novamente e convenceu sua esposa a viver com ele nas planícies e nunca mais escalar também. E eles tiveram filhos que foram impelidos a nunca escalar. E de seus filhos vieram netos e bisnetos e pra esses já não foi necessária a proibição, já que escalar não lhes parecia mais necessário e nem natural. Para alguns, hoje, chega a parecer um ato insano.

Desde então fenômenos estranhos passaram a ocorrer: montanhas enormes passaram a cuspir fogo e derramar lavas incandescentes de suas entranhas; outras se transformaram em gigantescos montes de neve prontos a devorar os que ousassem escalá-las; e outras ainda se desmantelaram tornando-se imensos desertos de areia.

Inexplicavelmente os continentes começaram a distanciar-se e o céu de tanto derramar água formou imensos rios, lagos e infinitos mares a ocupar essas lacunas. Hoje, mesmo o planeta sendo ainda constituído por 25 % de montanhas, estatisticamente ninguém mais vive em seus cumes que, vez ou outra, são visitados apenas por alguns que são chamados de loucos. O mundo é tomado por guerras, descrença e intolerância, uma vez que onde se faz presente a diferença sempre haverá motivo para divergências.

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Ver, ouvir e sentir

Quando vemos um relâmpago que, sem ao menos pedir licença, rasga o espaço da noite e termina num monte qualquer ao longe, quer dizer que ele está à procura de alguém que necessita de luz para iluminar seu caminho.

Quando ouvimos um trovão ensurdecedor quebrar o silêncio noturno, é o grito de suplício do céu anunciando uma queda prematura.

E quando sentimos tocar a pele a chuva quente e espessa, é o próprio Deus se derramando em lágrimas, lamentando a perda de mais um de seus filhos que ousou repetir o gesto de seus mais longínquos ancestrais: escalar uma montanha.

Amém.

Rui Paulo é escalador, formado em educação física e trabalha como Personal trainer na região metropolitana da cidade de São Paulo

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