O que é certo, e o que é errado na preparação mental para escalada

Conta-se a história de um monge Zen admirado por sua sabedoria. Os cidadãos da cidade onde vivia acharam que seria útil torna-lo um juiz. No início, um assistente de corte foi designado para ajuda-lo a lidar com as tarefas do tribunal. Havia uma disputa entre duas pessoas em seu primeiro caso.

O primeiro homem explicou o seu lado da questão e porque ele pensava estar certo.

O monge Zen respondeu dizendo “Certo, certo. Você está absolutamente certo”.

O assistente ficou chocado e sussurrou em seu ouvido, “Senhor, você não pode dizer que ele está certo. Você ainda não ouviu as duas partes”.

O monge Zen respondeu: “Certo, certo. Você está absolutamente certo”.

Então o outro homem explicou seu lado do problema e porque deveria ser julgado como o correto.

Mais uma vez o monge Zen respondeu: “Certo, certo. Você está absolutamente certo”.

O assistente agora estava bem frustrado e pensou que o monge estava maluco.

De novo o monge se inclinou e sussurrou em seu ouvido: “Você não pode dizer que os dois estão certos. Como é possível que os dois estejam certos?”.

Ao que o monge respondeu: “Certo, certo. Você está absolutamente certo”.

A primeira vista, parece que o monge Zen está doido. Mas ele possui uma sabedoria sutil. Todos nós temos nossa própria compreensão e pensamos que o que compreendemos é certo.

A história ilustra que a mente possui uma tendência limitante de pensar que está certa e focará nossa atenção em validar nossa compreensão atual.

A essência da história vem à tona quando o monge Zen responde à pergunta final de seu assistente “Como é possível que os dois estejam certos?” dizendo “Certo, certo. Você está absolutamente certo”.

Ele está dizendo: sim, obviamente, como podem que os dois estejam certos? Não podem, então cada um deles deve estar um pouco errado.

Admitir que estamos um pouco errados em nossa compreensão é o começo de se tornar mais consciente.

Na lição passada nós aprendemos que precisamos lutar pelo conforto indiretamente valorizando e se envolvendo no estresse.

Envolver e processar-nos através do estresse requer expandir além da nossa compreensão atual.

Analise o gráfico que acompanha esta lição, ao qual chamo de a bala. graficoArnoIlgner

O círculo interior representa nossa zona de conforto; o círculo exterior abarca a zona de estresse.

Nós não podemos nos processar através dessa faixa de estresse pensando que nossa compreensão atual é correta. Nossa compreensão atual está confinada ao círculo interior: a zona de conforto. Pensar que estamos certo é uma abordagem que valida o aprendizado.

Foca nossa atenção em confirmar a informação que já possuímos, ao invés de modificá-la, expandindo nossa compreensão a níveis elevados. Para aprender, precisamos modificar, e não validar, nossa atual compreensão.

Precisamos desapegar de estarmos certos e aceitar que nosso entendimento é um pouco errado. É desafiador porque nossa mente está atrelada a nossa compreensão.

Por quê? Porque fazer isso é confortável.

Nossa compreensão atual, por definição, é o que está contido em nossa zona de conforto. Nós podemos saber algo sobre o que está na zona de estresse, mas por ser estressante nossa compreensão disso é limitada e incompleta. Em outras palavras, nós não tivemos experiências suficientes sobre o que está na zona de estresse ao ponto de trazê-lo para nossa zona de conforto.

Novamente vamos contra a tendência inconsciente da mente de lutar por conforto. Expandir e modificar nossa compreensão das coisas requer que mudemos, e isto é estressante, não confortável.

treinamentoMental

Foto: www.fearproject.net

Nós nos flagramos discutindo com outros, validando nossa compreensão, ou fazemos perguntas com curiosidade, procurando sinceramente modificar nosso entendimento?

É útil a cada um de nós deter-nos na questão ao invés de respondê-la. Dessa forma estaremos atentos ao nosso processo no cotidiano.

Nós precisamos de consciência. Se estamos validando nosso entendimento, então somos vítimas inconscientes das limitações da mente.

Não precisamos ser monge Zen para termos a sabedoria requerida para compreender o conceito.

Simplesmente necessitamos da consciência que a mente possui essa tendência, notarmos quando cairmos na armadilha da validação, e redirecionar nossa atenção para modificar nossa compreensão.

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O livro “The Rock Warrior Way – Mental Training for Climbing” está à venda traduzido para a língua portuguesa no Brasil em: http://www.companhiadaescalada.com.br/

Tradução do original em inglês: Gabriel Veloso

Arno Ilgner distinguiu-se como um escalador pioneiro nos anos 1970 e 80, quando as principais ascenções foram as primeiras fortes e perigosas. Essas façanhas pessoais são a base para Ilgner desenvolver o programa de treinamento físico e mental – Rock Warrior Way ®. Em 1995, após uma pesquisa aprofundada da literatura e prática de treinamento mental e as grandes tradições guerreiras, Ilgner formalizado seus métodos, fundou o Instituto Desiderata, e começou a ensinar seu programa de tempo integral. Desde então, ele tem ajudado centenas de estudantes aguçar a sua consciência, o foco de atenção, e entender seus desafios de atletismo (e de vida) dentro de uma filosofia coerente, baseada em aprendizado de tomada de risco inteligente. Ilgner considera a alegria e satisfação no esforço – a “viagem” – intimamente ligada à realização bem sucedida das metas.

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