O que é certo “Cordada” ou “Enfiada”? Termos e polêmicas sobre jargões de escalada

No Brasil, um país que possui pouco mais de 200 milhões de habitantes, com uma extensão territorial da mesma proporção que continentes, é comum a existência de várias palavras para designar a mesma coisa.

Exemplos para este caso não faltam. Um dos mais emblemáticos talvez seja um produto bem brasileiro, que dependendo da região possui nomes diferentes:

  • Mandioca (na parte sul e sudeste do país)
  • Aipim (somente no Rio de Janeiro)
  • Macaxeira (norte e nordeste)

Palavras como “pernilongo” (usada no sudeste e sul do Brasil), “carapanã” (norte e parte do nordeste) e “muriçoca” (parte do nordeste e centro-oeste), também fazem parte do conjunto de palavras que quer dizer a mesma coisa. Todas estas palavras significam a mesma coisa. Se quiser a pessoa entrar em polêmica, basta tocar no assunto de bolacha (termo usado em todo país) e biscoito (usado somente no estado do Rio de Janeiro).

Como não poderia ser diferente, na escalada há palavras distintas para designar a mesma coisa, como cadeirinha (utilizado em todo Brasil) e baudrier (utilizado somente no Rio de Janeiro), ou até mesmo Arnês (utilizado em Portugal). Novamente vemos  mesmo caso de várias palavras, para designar uma mesma coisa.

Cercada de polêmicas, com discussões acaloradas entre escaladores, por onde quer que o assunto é levantado, existe a disputa sobre qual seria o termo correto para cada trecho de uma via longa: “cordada” ou “enfiada”.

Mas qual é o termo mais certo?

Largamente usado no Brasil, independente de estar certo ou não, o termo “cordada” se designa aos trechos pertencentes a uma via de vários trechos.

Porém o termo não está exatamente correto, pois na realidade se refere ao “time” que está escalando uma determinada via. Normalmente “time” é composto por uma dupla, mas pode haver trios e até mesmo quartetos.

A expressão “enfiada” é utilizada para designar cada etapa pertencente a uma via, de “parada” a “parada”.

Assim, uma via com 5 enfiadas, pode ser escalada por uma “cordada” com 4 pessoas. (via de dividida em 5 trechos por 4 pessoas usando uma corda).

cordada-ou-enfiada-ilustracao

Entretanto o termo “cordada” é utilizada coloquialmente para designar também o número de trechos de uma via. Este equívoco que é aceito, e difundido, largamente por escaladores os quais não se importam muito com esta troca de nome. Importante lembrar que em qualquer esporte há jargões entre os praticantes, e a cada geração há nomes que são tidos como sinônimos e nem sempre está certo ou errado.

Não faz muito tempo o termo “cadena” era abominado por quem fazia parte das primeiras gerações de escalada, porém hoje é amplamente utilizado por toda a comunidade. Assim como esta mesma comunidade decidiu por abortar o uso de siglas, ou traduções mal feitas realizadas, nos primórdios da escalada.

O importante, entretanto, é fazer-se entender, e por isso todo e qualquer escalador no Brasil aceita(embora erroneamente) que uma via de várias cordadas equivale ao mesmo de que escalada em várias enfiadas.

Foto: B. Delapierre | http://petzl.com

Foto: B. Delapierre | http://petzl.com

Explicação linguística

No idioma falado no Brasil, algumas palavras utilizadas no passado acabam por cair em desuso e, com o tempo, serem substituídas por outras. Lembre-se que um idioma (qualquer um) está “vivo” e vai evoluindo e amadurecendo com o tempo.

Exemplos deste tipo de mudança são:

  • O “maiô” agora diz-se “body”
  • O “bustiê” agora diz-se “top”
  • O “contínuo” diz hoje  “office-boy”
  • “Secretária” evoluiu para “gerente de relacionamento”
  • “Rótula” do joelho virou “patela”
  •  ”Diretório” virou “pasta”
  • “Correio eletrônico” foi substituído por e-mail
  • “Tele jogo” por “vídeo game”

Algumas palavras tidas como erradas como “terraplanagem”, quando o correto era “terraplenagem”, foram aceitas como corretas.

O passar do tempo, e a mudança de gerações (que acaba por desafiar as gerações anteriores) que pratica um esporte, ou até mesmo uma profissão, faz com que termos, linguagens, adjetivos e jargões sejam adotados e outros esquecidos.

Vale lembrar que todo idioma é vivo, e vem evoluindo e mudando com o tempo. Fosse assim ainda estaríamos falando “vossa mercê” em vez de “você”.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

There are 8 comments

  1. Eric Nyssens

    Na mesma linha de Enfiada (ou cordada mas este termo pra minha época designava a equipe que escala, por exemplo cordada de dois ou de três escaladores, etc), ha outro sinonimo, o “Esticão”.
    Ja quanto ao aparecimento de termos franceses no linguajar da escalada no Brasil, talvez eu tenha sido o primeiro a citar o termo francês “reglette” que no final pegou e continua ate hoje. Isso deve ter sido no final do ano 88 quando havia recem retornado de uma longa viagem pela Europa.

  2. André Ilha

    Se a “comunidade decidiu por abortar o uso de siglas ou traduções mal feitas realizadas nos primórdios da escalada”, então “cadena” e “encadenar” deveriam ter sido abolidos, pois são termos em espanhol para palavras corriqueiras na língua portuguesa (“cadeia” e “encadear”, respectivamente).
    A primeira pessoa a usar o verbo “encadenar” no Brasil, para designar a escalada contínua, sem descansos nas peças (fixas ou móveis), de sequências difíceis de escalada foi, não surpreendentemente, a argentina Silvia FitzPatrick, no final dos anos 80/início dos anos 90. Ela se expressou corretamente – no seu idioma -, mas o termo então “pegou” entre nós. Não é o mais correto, mas também não há nenhum grande mal nisso. Como é bem lembrado na nota, as línguas são dinâmicas mesmo.
    Este é um asunto interessante.

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