O poder do silêncio – O segredo para qualquer montanhista

Eu sou um workaholic (‘viciado’ em trabalhar). Eu já fui conhecido por levantar às 3 da manhã, dirigir por uma hora até meu trabalho e trabalhar até às 21:00h, um dia após o outro. Isso não é saudavel. Eu não trabalho mais assim, mas eu o fiz quando trabalhei no negócio de ferramentas industriais do meu pai.

Por que eu trabalhava assim? A necessidade era parte do motivo. Éramos empresários, portanto a responsabilidade de completar o trabalho estava em nossas mãos. Mas, trabalhar em jornadas dessa forma, ano após ano, demonstra motivações desalinhadas além da necessidade. Quem sabe eu não estava perdido na ocupação em vez de fazer um trabalho intencional?

O filósofo francês do século XVII, Blaise Pascal, disse: “Todas as misérias dos homens derivam deles não serem capazes de sentar em uma sala silenciosa sozinhos.” As motivações da mente podem criar miséria em nossas vidas. Ela pode igualar a ocupação com trabalho. Ao aprender como sentar em silêncio, e estar em silêncio, podemos observar a mente. De tais observações, podemos ir além da miséria e aproveitar mais nossas vidas.

Foto: Andres R. Alonso | https://araphotos.com

Foto: Andres R. Alonso | https://araphotos.com

Podemos ter a tendência de estar motivados pela ocupação. Ela nos da uma sensação de estarmos vivos. Estamos ativos e nos movendo. A ocupação externa pode indicar um estado mental interno ocupado. Nossa atenção é desviada para dentro da mente, aonde ela se perde no pensamento, e em um desejo de falar e expressar o que estamos pensando. O pensamento e o ato de falar criam um ambiente mental barulhento.

Duas motivações compõem nosso ambiente mental: um desejo de ser desafiado (trabalhar) e um desejo de estar confortável (descansar). Ambas motivações são importantes. Portanto, nossas motivações precisam se complementar, em vez de competirem uma com a outra. A ocupação tende a motivar uma competição entre o estresse e o conforto; a intencionalidade tende a equilibra-los de uma forma complementar.

Estar ocupados pode nos dar os meios de atingir metas. Tais realizações podem nos dar uma sensação de auto valor. Mas, já que nossas motivações estão na competição, nossa atenção se distrai. Ela tende a ser desviada na direção de um desejo por conforto quando estamos ocupados. Depois, quando estamos confortáveis, desejamos nos ocupar para poder atingir metas novamente. Ficamos presos em um ciclo de ansiedade que se perpetua, perdidos na prisão barulhenta e competitiva da mente.

Então, como mudamos essa tendência ocupacional orientada pelas realizações? Mudamos nossa orientação. A orientação por ocupação tende a ser uma forma de interagir com a vida no estilo mapa-para-território. Vivemos nos mapas mentais da vida, dentro de um ambiente mental barulhento, e projetamos esses mapas no território do mundo externo.

Foto: Micah Ness | http://micahness.com/

Foto: Micah Ness | http://micahness.com/

Para sair dessa prisão mental, precisamos mudar nossa orientação. Começamos com o território e depois mudamos para nossos mapas mentais. Para fazer isso precisamos aplicar o silêncio. Nós “sentamos em um quarto silencioso, sozinhos” como sugere Pascal. Fazemos isto focando nossa atenção no território. Nossa atenção está comprometida com nossos sentidos em vez da mente pensante. Podemos perceber as intrusões da mente melhor desta perspectiva.

Com uma orientação de território-para-mapa, nossa atenção está mais comprometida com qualquer tarefa que estivermos fazendo. Quando estamos trabalhando, nos comprometemos com o trabalho e paramos de desejar um tempo futuro onde estaremos confortáveis.

Em vez disso, buscamos o conforto enquanto estamos no meio do estresse, relaxando nele, e comprometemos 100% de nossa atenção no trabalho. Depois, quando for hora de descansar e estar em nossas zonas de conforto, paramos de desejar o trabalho, colocando 100% de nossa atenção no descanso.

É mais fácil entender intelectualmente do que viver tais conceitos. Mas, é isso que precisamos fazer. Todos nós temos longas listas de “afazeres”. Intelectualmente, nós sabemos que nunca terminaremos tudo, que tenderemos a estar ansiosos no estresse, e que iremos associar o trabalho com realizações. Vivemos esses conceitos para transformar a sabedoria intelectual em sabedoria experiencial.

E como fazemos isso? Eu já dei algumas dicas mais cedo. Mudamos nossa orientação para o silêncio. Observamos a mente focando nossa atenção no pensamento e em falar, e a redirecionamos para o território. Mudar nossa atenção para o território silencia a mente, o que nos deixa mais atentos.

Desde esse espaço de atenção, decidimos quais tarefas estamos fazendo e comprometemos toda nossa atenção a elas. Se flagrarmos nossa atenção desviando para o conforto quando estivermos trabalhando, ou vice versa, então a redirecionamos para a tarefa. Ao fazer um ciclo equilibrado entre trabalho e descanso, nós equilibramos nossas vidas e reduzimos a ansiedade.

O silêncio nos ajuda a viver nossas vidas no território do mundo em vez de estarmos perdidos na mente. O diálogo interno barulhento diminui, o que nos permite observar a mente em níveis mais sutis. Não estamos perdidos em uma mente barulhenta que está pensando e falando incessantemente.

Focamos nossa atenção no território do mundo e observamos com o silêncio. Fazer isto nos ajuda a encontrar uma saída da nossa miserável prisão mental de ocupação, criando mais intencionalidade em nossas vidas.

Dica prática: Por que você faz o que faz?

Avalie a motivação por trás de sua ocupação:

  • Você deseja conforto quando está trabalhando? Por exemplo: você pensa em um final de semana confortável quando está no meio do trabalho?
  • Você deseja trabalhar quando está descansando? Por exemplo: você trabalha nos finais de semana quando deveria estar descansando?

Estas perguntas podem te dar uma visão interna de sua motivação.

Agora, aplique o silêncio para ter essa experiência. Pare de pensar e de falar. Escolha trabalhar ou descansar e comprometa-se com sua escolha. Depois faça um ciclo de forma equilibrada entre ela e o seu oposto (trabalho ou descanso).

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O livro “The Rock Warrior Way – Mental Training for Climbing” está à venda traduzido para a língua portuguesa no Brasil em: http://www.companhiadaescalada.com.br/

Tradução do original em inglês: Gabriel Veloso

Arno Ilgner distinguiu-se como um escalador pioneiro nos anos 1970 e 80, quando as principais ascenções foram as primeiras fortes e perigosas. Essas façanhas pessoais são a base para Ilgner desenvolver o programa de treinamento físico e mental – Rock Warrior Way ®. Em 1995, após uma pesquisa aprofundada da literatura e prática de treinamento mental e as grandes tradições guerreiras, Ilgner formalizado seus métodos, fundou o Instituto Desiderata, e começou a ensinar seu programa de tempo integral. Desde então, ele tem ajudado centenas de estudantes aguçar a sua consciência, o foco de atenção, e entender seus desafios de atletismo (e de vida) dentro de uma filosofia coerente, baseada em aprendizado de tomada de risco inteligente. Ilgner considera a alegria e satisfação no esforço – a “viagem” – intimamente ligada à realização bem sucedida das metas.

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