O poder de não saber

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Quando eu estava no ensino médio escolar eu pensava que meu destino era ter uma carreira musical. Eu praticava assiduamente, trabalhando em direção a uma meta de entrar em uma banda do estilo orquestra estatal no Tennessee.

Atingir essa meta validaria o fato de que eu era um dos melhores tocadores de trompa no Tennessee, e habilidoso suficiente para seguir uma carreira musical. Eu não consegui entrar na orquestra estatal. Eu não sabia o que fazer a seguir.

É muito desconfortável não saber o que devemos fazer. Nos sentimos em um estado caótico e incerto. Saber nos dá conforto. Desejar o conforto inconscientemente, no entanto, nos contrai em torno de nossas metas e perspectivas atuais, e nos limita. O conforto é apenas uma parte de um ciclo.

Abraçar o estresse, expandir no desconhecido, balanceia o ciclo. Precisamos fazer o ciclo entre o território confortável que experimentamos quando contraímos e o crescimento estressante que experimentamos quando expandimos.

Foto : Juliana Falchetti

Foto : Juliana Falchetti

Quando não sabemos o que fazer, precisamos relaxar no estresse de não saber. Não devemos equivaler não saber com a confusão. “Eu não sei” é o começo de saber: não é a confusão. É clareza.

Nós reconhecemos que sabemos que não sabemos. Confusão é “Eu não sei, mas eu acho que deveria saber.”

Saber foca nossa atenção na tarefa em mãos; a confusão distrai nossa atenção da tarefa. A tarefa é relaxar no estresse de não saber, quando não sabemos o que fazer a seguir.

Nosso maior obstáculo mental é lidar com o estresse. A mente não gosta do estresse e ela forçará e apressará o processo de tomada de decisão rapidamente para escapar dele. Saber o que fazer e não saber o que fazer são estados que vivenciamos ao longo de nossas vidas.

É importante nos permitir estar em um estado de não saber o que fazer. Este estado é incerto, caótico e ambíguo. Porém, se nos permitimos estar neste estado, o estresse começa a se ordenar, a deslocar-se para o certo e nos dá opções para poder agir.

Suponhamos que estamos escalando uma via de Sétimo grau, que esteja perto de nosso limite. Não temos certeza se podemos ou não continuar porque estamos fisicamente cansados e mentalmente estressados. Estamos fisicamente cansados da exaustão da escalada. Estamos estressados mentalmente porque não sabemos o que fazer.

Talvez o estresse mental venha da mente nos dizendo “eu deveria ser capaz de escalar sétimo grau.” Estar fisicamente cansado é um estado natural; estar mentalmente estressado porque pensamos que deveríamos ser capazes de escalar sétimo grau, e saber o que fazer, é confusão, uma distração da atenção.

Estar em um estado de confusão divide nossa atenção. Parte de nossa atenção paira no que está acontecendo: “eu não sei se consigo continuar escalando este sétimo grau.” Parte de nossa atenção está no que a mente acha que deveria estar acontecendo: “eu deveria ser capaz de escalar sétimo grau.”

Este estado de confusão acrescenta um estresse mental que desloca a mente em direção à resolução do estresse, para tomar uma decisão rapidamente que nos traga conforto e certeza. Neste exemplo de escalada, a mente escolhe se retirar do estresse, pendurar na proteção ou descer, quando nós poderíamos ter conseguido continuar.

Foto : Juliana Falchetti

Foto : Juliana Falchetti

Se mantivermos nossa atenção em aceitar que não sabemos o que fazer, então estamos receptivos e posicionados para tomar ação efetiva. Ainda podemos decidir por nos retirar, mas esta decisão será baseada em uma informação vindo diretamente da situação e não do desejo por conforto da mente.

Relaxar no meio do estresse nos permite cavar mais profundamente em nós mesmos e na situação, e a estar mais atentos às opções que podem direcionar nossas escolhas. Ao aceitar o estado de não saber, não estamos resistindo o que está acontecendo no momento. Podemos focar nossa atenção em como lidar com o que está acontecendo.

Podemos aplicar nossa maior habilidade mental para lidar com nosso maior obstáculo mental. Podemos encontrar pequenos passos de ação para tomar na direção de engajar no estresse. Fazer isso nos processará através do estresse e irá trazer uma clareza em relação à decisão de continuar ou parar, contrair ou expandir. Em nosso exemplo de escalada, nós tentamos alguns movimentos para cima e desescalamos um pouco. Sentimos quão cansados estamos e quanta força levará para continuar escalando.

Fazer isto nos dá clareza e opções para continuar.

Quando eu estava praticando para minha meta de entrar na orquestra, minha atenção estava contraída em torno de atingir essa meta. Quando eu não a atingi, minha atenção expandiu. Eu havia feito um ciclo em um estado de não saber, de estresse. Minha atenção simplesmente se abriu porque eu não estava focado estreitamente em uma meta.

Foto : http://www.garminblog.it/

Foto : http://www.garminblog.it/

Dentro de um mês eu notei um colega em minha aula de Inglês que era um escalador, que tinha a intenção de estudar Geologia na faculdade. Eu estava interessado em ambos. Portanto, eu entrei no ciclo de saber o que fazer a seguir: eu iria estudar Geologia e escalar. Dez anos depois, no entanto, eu entrei novamente no ciclo de não saber, quando perdi meu emprego de geologia.

Meu foco abriu novamente para notar opções para criar uma carreira com a escalada, o que me deslocou novamente para um estado de saber o que fazer a seguir.

O poder de não saber abre nosso foco para ver opções que não podemos ver quando estamos trabalhando na direção de metas. Não saber o que fazer a seguir é um estado natural que vivenciamos em nossas vidas. Estar em este estado aborrece nossa atenção. Precisamos receber com carinho tais estados para que possamos estar atentos e conscientes das opções para descobrir nossos caminhos através da vida.

Dica Prática: Decida não decidir

Quando se sentir estressado, não tente se apressar a desestressar. Perceba que está estressado, mas não deixe a mente resolvê-lo. Não decida o que fazer.

Pelo contrário, respire, relaxe e abra seu foco. Permita-se estar no meio de não saber o que fazer.

Depois olhe em volta. O que você ignorou? Tome passos pequenos para engajar na situação.

Fazer isto vai começar a organizar o estresse o oferecerá opções que irão te deslocar de volta à certeza.

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O livro “The Rock Warrior Way – Mental Training for Climbing” está à venda traduzido para a língua portuguesa no Brasil em : http://www.companhiadaescalada.com.br/

Tradução do original em inglês : Gabriel Veloso

Sobre o Autor

Arno Ilgner

Arno Ilgner

Arno Ilgner distinguiu-se como um escalador pioneiro nos anos 1970 e 80, quando as principais ascenções foram as primeiras fortes e perigosas. Essas façanhas pessoais são a base para Ilgner desenvolver o programa de treinamento físico e mental – Rock Warrior Way ®. Em 1995, após uma pesquisa aprofundada da literatura e prática de treinamento mental e as grandes tradições guerreiras, Ilgner formalizado seus métodos, fundou o Instituto Desiderata, e começou a ensinar seu programa de tempo integral. Desde então, ele tem ajudado centenas de estudantes aguçar a sua consciência, o foco de atenção, e entender seus desafios de atletismo (e de vida) dentro de uma filosofia coerente, baseada em aprendizado de tomada de risco inteligente. Ilgner considera a alegria e satisfação no esforço – a “viagem” – intimamente ligada à realização bem sucedida das metas.

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