O caso do acesso ao Dedo de Deus: Cabos, pichações e responsabilidades

Vias ferratas fornecem um rápido acesso e uma falsa sensação de segurança em diferentes acessos e vias.

Historicamente elas são palco de diversos acidentes, como foram os casos fatais no Cabo de Aço do CEPI no Pão de Açúcar.

Aparentemente, entre o dia 06/01  e o dia 09/01 foram removidos os grampos e os cabos de uma seção de 40 metros do acesso as vias do Dedo de Deus.

Estranhamente, a remoção desses cabos fixados por grampos caseiros foi logo depois de um evento de real vandalismo no qual foram pichados na rocha do polegar alguns números que, posteriormente, foram usados para identificar e aplicar a lei sobre o “artista”.

Foto: Acervo Pessoal Felipe de Moraes Lucena

Foto: Acervo Pessoal Felipe de Moraes Lucena

Antigamente o acesso às vias era feito pela chaminé das pedras rolantes, hoje tomada pela vegetação. A atual via ferrata foi construída após um enorme deslizamento que “abriu” a linha para os cabos na rocha.

O fato é que cada vez mais as montanhas vêm sendo frequentadas, porém nem sempre por pessoas alinhadas com os conceitos éticos de mínimo impacto e respeito ao meio ambiente. Isso culmina muitas vezes em riscos evitáveis, depredações e violações de direitos e deveres, provocando impactos desnecessários.

A facilidade criada pelos cabos de aço permite o acesso de não escaladores a esses lugares e geralmente tais pessoas, assim como muitos montanhistas experientes, desconhecem as resistências dos cabos, as forças geradas em quedas estáticas ou negligenciam os procedimentos corretos de uso de cabos de aço.

Associado a esses fatores ainda existe a instalação precária e sem inspeção regular e documentada; no caso do Dedo de Deus essa falta de cuidado ou conhecimento levou a permanência de cabos deteriorados criando novos pontos de apoio nos pedaços esfiapados remanescentes.

Esses cabos oxidados e oscilantes cavaram diversas valetas em forma de meia lua na rocha, na linha dos seus pêndulos, sendo um meio de progressão muito agressivo para a rocha.

Existe um documento, fruto de um trabalho organizado do Clube Alpino Alemão com o Conselho Austríaco de Segurança em Montanha, com recomendações para a construção de vias ferratas.

Atualmente há a iniciativa de manutenção dos cabos pela FEMERJ em parceria com o Parque Nacional da Serra dos Órgãos.

Remoção do cabo de aço no Dedo de Deus

Tendo em vista esse cenário, acredito que a melhor opção seria a permanente remoção do cabo de aço, dando espaço para uma via construída com degraus colados e ancoragens anti-bomba devidamente espaçadas para permitir que esse trecho seja feito como uma escalada guiada, protegida com corda.

Foto: Acervo Pessoal Felipe de Moraes Lucena

Foto: Acervo Pessoal Felipe de Moraes Lucena

Além de mais segura e definitivamente menos sujeita a intempéries essa estrutura possui uma manutenção bem menos cara e permite descidas “seguras” mesmo com chuva, ao contrário do que ocorre em cabos de aço farpentos, oxidados e molhados.

A pergunta que fica é: o que será feito para melhorar a segurança e garantir um acesso de mínimo impacto?

Aos que tiverem paciência e interesse no assunto, há o documento com as recomendações do Clube Alpino Alemão para vias ferratas, aceito pela UIAA

Se tratando do símbolo do montanhismo brasileiro e dentro de uma unidade de conservação federal, devemos ser bem sérios e profissionais no que for feito.

Foto: Acervo Pessoal Felipe de Moraes Lucena

Foto: Acervo Pessoal Felipe de Moraes Lucena

Cabos de aço fazem parte de um passado obsoleto e que vinha sendo muito mal executado… sendo o caso recente de mais um acidente fatal no Pão de Açúcar um exemplo clássico do que não fazer com uma via muito frequentada.

Mais uma mancha negra na história secular do montanhismo brasileiro.

As recomendações para fazer a coisa bem feita existem, resta saber se os custos do material adequado e o trabalho necessário valem mais que a vida de um escalador, ou mais de um….

Felipe Lucena é escalador e vive em Petrópolis-RJ

There is one comment

  1. Menina Inteligente

    Deveriamos instalar escadas rolantes, e 3 a 4 elevadores. La em cima no Cume do Dedo de Deus um Barzinho servindo drinks? O dinheiro seria usado para acimentar um estacionamento no meio da subida panoramica.

    Apenas estrangeiros poderao subir, com numeros limitados de Brasileiros.

    Gostou? Bem na linha desse artigo. Que piada!!

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