O Budismo e a escalada

Foto : Lisete Florenzano

Foto : Lisete Florenzano

Em nossa vida cotidiana raramente temos tempo e calma para refletirmos sobre nossa vida e, também, com pouca frequência estamos realmente presentes naquilo que estamos fazendo.

Comemos assistindo ao jornal, saímos com amigos e cada vez mais estamos ligados no nosso celular com Facebook.

Caminhamos pela rua pensando no passado ou no futuro e, às vezes, se passam quadras sem que saibamos como andamos essa distância.

Mas quando escalamos tudo muda. Escalar, principalmente em uma via mais técnica, tanto em rocha como em neve e gelo, exige que estejamos presentes 100% no que estamos fazendo.

Exige concentração.

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Foto : cambetabangkokmacau.blogspot.com

Não nos permite pensar em outra coisa. E estar presente é um grande exercício espiritual, pois é no presente que a vida acontece.

Esta é apenas uma das correlações entre montanhismo e espiritualidade.

Minha relação com a montanha nasceu na América do Sul, mas desabrochou no Nepal, onde as montanhas estão investidas de grande significado espiritual.

A população que habita a região das montanhas no Nepal é de descendência tibetana, de onde emigraram a cerca de 500 anos para o lado sul dos Himalaias. Trouxeram com eles a rica tradição religiosa do budismo tibetano que sofreu uma forte influência da religião animista Bom, que a precedeu no Tibete.

Foto : Trecho do filme "Light at the edge of the world: Himalayas science of mind "

Foto : Trecho do filme “Light at the edge of the world: Himalayas science of mind “

Com isso, as montanhas são lugares sagrados para os Sherpas, a população que habita a região do Everest.

Nenhum Sherpa ousaria escalar uma montanha sem antes fazer um puja, uma cerimônia presidida por um lama para pedir permissão para adentrar a morada dos Deuses.

Essa mesma reverência pelas montanhas se repete em diversas culturas, do Japão à Bolívia. E não é à toa. É quase impossível olhar para as alturas magníficas dessas grandes montanhas sem sentir um enorme respeito por essas maravilhas da natureza.

Mas a montanha nos ensina muitas outras coisas.

Apesar da nomenclatura de escalada fazer uso de termos militares como conquistar uma montanha, ataque ao cume e outros, nada poderia ser mais errado do que isso.

Foto : bocaberta.org

Foto : bocaberta.org

Não se conquista uma montanha.

No máximo a montanha nos dá permissão para chegar ao seu cume e isso nos ensina humildade. Frente a ela, temos de aceitar que não estamos no controle da situação. Meses de treino podem servir de nada frente a uma mudança de clima que nos deixa impotentes.

Agora em outubro, contra qualquer previsão, em um dia nevou 2 metros impedindo que qualquer expedição chegasse ao cume do Ama Dablan nesta estação.

Montanhas como o Everest raramente são escalados sem a ajuda dos sherpas que montam os acampamentos, fixam as cordas e carregam os cilindros de oxigênio no dia de cume.

Foto : Lisete Florenzano

Foto : Lisete Florenzano

Como alimentar um grande ego quando nos deparamos com nossa dependência a esses homens tão corajosos e fortes? Mesmo os puristas, que dizem que montanhas só podem ser escaladas sem o uso de oxigênio suplementar e da ajuda dos Sherpas, fazem uso das cordas fixas colocadas e mantidas por eles.

Também raramente escalamos sozinhos. Nossos companheiros de escalada nos dão o apoio fundamental para enfrentarmos semanas e, às vezes, meses de expedição em condição extremamente severa, exigindo nosso máximo em termos físicos e principalmente psicológicos.

Tudo isso faz com que uma expedição de Alta Montanha seja um grande exercício de humildade.

O Budismo fala muito em impermanência, é um dos conceitos centrais e muito verdadeiro, embora nossa aceitação da impermanência das coisas é muito mais intelectual do que emocional. Quando as coisas terminam ou mudam, temos muita resistência em aceitá-las.

Foto : Manoel Morgado

Foto : Manoel Morgado

No caso do montanhismo, no entanto, este conceito pode ser usado a nosso favor, já que com muita frequência em expedições de alta montanha temos que lidar com muito desconforto e sofrimento e saber que tudo é temporário ajuda muito a lidar com isso.

Além da tolerância ao sofrimento creio que outra grande qualidade de um bom escalador de alta montanha é a paciência, outra qualidade muito enfatizada e treinada no budismo.

As expedições são muito longas, o progresso é lento, as idas e vindas montanha acima e abaixo para aclimatação são mentalmente desgastantes e, no dia de cume, precisamos avançar a uma velocidade perturbadoramente lenta, um passo, várias respiradas, se queremos ter chance de chegar ao cume.

Então, existe uma grande interseção entre a prática budista e a escalada de Alta Montanha.

Foco, estar presente no momento, paciência, impermanência, diminuição do ego e humildade são algumas das buscas do montanhista e daqueles que buscam o caminho espiritual.

 

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Sobre o Autor

Manoel Morgado

Manoel Morgado


Manoel já escalou dezenas das principais montanhas do mundo incluindo as mais altas da América do Sul (Aconcagua), da América do Norte (McKinley), da Europa (Elbrus), da África (Kilimanjaro), da Oceania (Kosciuszko), além das mais altas da Bolívia (Sajama) e do Equador (Chimborazo). Em setembro de 2009 escalou o Cho Oyu, (8201 metros) a sexta mais alta montanha do planeta e em maio de 2010 colocou os pés no cume do Everest tornado-se o oitavo brasileiro a lograr este feito. Em dezembro de 2011 concluiu a escalada da montanha mas alta de cada continente, o chamado Sete Cumes (Seven Summits), tornado-se o segundo brasileiro a conquistar este feito. Em março de 2012 lançou seu primeiro livro – Sonhos Verticais – contado suas escaladas do Cho Oyu e Everest.

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