Nós e aconragens: O guia essencial do escalador e montanhista

Um nó é um método de apertar ou segurar um material linear (como a corda ou fita) por amarração e entrelaçamento. Ele pode consistir de um comprimento de um ou mais segmentos de corda, fibra, nylon e fitas entrelaçadas de modo que permitem que a linha se prenda a si mesma ou a algum outro objeto.

Os nós são indispensáveis para todas as atividades que envolvam trabalho em altura ou esportivas que precisem de cordas para diversas funções por exemplo: auto seguro, ancoragens, tirolesa, segurança de outra pessoa (segundo da cordada), junção de cordas e manobras de resgate.

Ancoragens

Com mais de 15 anos de experiência na área, posso afirmar que os erros mais encontrados na prática de esportes outdoor, os quais precisam do auxílio de corda, encontram-se nas ancoragens. Isso porque não se trata somente de fazer um backup que “está tudo bem”.

Muitas vezes os praticantes fazem as ancoragens de maneiras muito complicadas o que facilitam para que erros aconteçam. Portanto é de grande valia para o total entendimento de ancoragens algum conceitos da física.

A primeira premissa de uma boa ancoragem é repartir as forças em, no mínimo, dois pontos. Para isso temos que fazer um ângulo entre os dois pontos de ancoragem de maneira que nunca ultrapasse os 60°.

Qualquer ângulo maior que isso (ângulo de 60°) estará aumentando os esforços nos pontos de ancoragens ao invés de diminuir. A imagem abaixo deixa mais claro a proporção matemática entre forças exercidas nas proteções e ângulos.

Desvio

Este tipo de ancoragem é utilizado para posicionar cordas fora de perigos verticais como cantos, barras metálicas, etc.

Deve considerar um máximo de dois metros do ponto de ancoragem ou outras técnicas devem ser aplicadas a fim de proteger a corda.

O desvio, portanto, não é um ponto de ancoragem em nenhum momento.

Oxidação dos pontos de ancoragens

Mistura de materiais causa oxidação, por exemplo parabolt de aço inox com chapeleta de aço carbono com tratamento de bicromatização (metais amarelos) ou zincados (metais prateados) ou vice e versa, causa uma oxidação eletrolítica.

Porém vai demorar muito tempo para fragilizar o metal mas podendo usar tudo de inox seria a melhor pedida porém mais cara. Mas este assunto será abordado exclusivamente em uma outra matéria.

Corrosão galvânica

A corrosão galvânica ocorre quando entram em contato dois metais com diferentes potenciais eletrolíticos.

Tanto a formação de pares galvânicos, como o aumento ou diminuição da corrosão, vão depender da corrosão dos elementos na escala eletrolítica de potenciais de oxirredução.

Para eliminar os riscos deste tipo de corrosão, a superfície de contato dos aços deve ser isolada.

O efeito do ataque também pode ser diminuído mantendo o contato entre uma grande superfície do metal nobre com uma superfície menor do metal menos nobre.

Para saber mais leia em: http://www.inda.org.br e http://blogdescalada.com

Nós

Para facilitar o entendimento, neste item iremos separar os nós por uso. Porém todos seguem algumas premissas:

  • Devem ser de fácil execução em todas as circunstâncias e condições
  • Devem permitir serem desfeitos facilmente mesmo depois de colocado em tração ou com a corda molhada
  • Não podem soltar espontaneamente

Para dominar o trabalho com nós é preciso conhecer perfeitamente sua execução e a correta aplicação. Também é necessário ter consciência e conhecimento do seu mecanismo de funcionamento.

Isso só é possível treinando constantemente e efetuá-lo periodicamente para não esquecer. Somente a repetição traz o aprendizado.

Uma informação muito importante antes de entrarmos nos detalhes dos tipos de nós, é o cuidado para que não se desfaçam sozinhos quando submetidos a grandes trações. Para isso é imprescindível que a ponta seja deixada sobrando a uma proporção de, pelo menos, 10 vezes o diâmetro da corda.

Exemplificando para que fique claro, caso esteja usando um cordelete de 6 mm, após o nó deve ter uma sobra de ao menos 6 cm a 8 cm (caso seja o cordelete de 8 mm). Uma boa prática, para ter uma margem de segurança, deixe sempre 10 cm para cordeletes e 15 centímetros para cordas com diâmetro maior que 10 mm.

Também vale lembrar uma experiencia pessoal que ao efetuar um curso de alpinismo na Itália no dia de aula sobre nós e após ser passado todos os tipos de nós que iriamos usar ouvi:

– Agora iremos treina-los de ponta cabeça, com uma mão e em outra pessoa!

As justificativas para isso foram:

  1. De ponta cabeça – Pode ser preciso realizá-los após chegar em um platô na montanha olhando para baixo, uma vez que a pessoa está posicionada acima de onde fará o nó. Também é o caso quando feito em nossa cintura olhando para baixo.
  2. Com uma mão – Muitas vezes precisamos da outra para se segurar e também em muitas situações estaremos com luvas grossas onde existe neve e frio, o que muda muito a dinâmica de realizar o nó
  3. Em outra pessoa – Porque podemos ter que efetuar o nó em algum companheiro

Uso geral


Nó oito duplo

Utilizado quando precisa de uma alça na ponta da corda. Possui uma relativa facilidade em soltar mesmo após tracionado ou com a corda molhada.

Orelha de coelho

O mesmo nó oito duplo com uma volta da alça passando por todo o nó, serve para fazer duas alças separadas na corda o que é utilizado quando necessário realizar a ancoragem com a própria corda da via, pode ser inclusive equalizado controlando o tamanho das alças que podem ser diferentes uma da outra.

Fácil desfazer mesmo após tracionado ou com a corda molhada.

Borboleta

Utilizado quando é preciso de uma alça na corda já na vertical e para isolar algum pedaço da corda ou qual esteja com sua integridade comprometida.

Ligação da corda com a cadeirinha ou para escaladas o qual os alpinistas precisam estar conectados (em conserva)

 

Os protocolos de segurança de alpinismo indicam para que esta ligação seja feita diretamente da corda com a cadeirinha.

Sem o auxílio de conectores (mosquetões) pois podem causar acidentes devido ser muito mais fácil cometer algum erro de procedimento ou ao se movimentar para escalar ser solto.

Lais de guia guiado

Lais de guia guiado (também conhecido como Balso pelo Seio ou bulino na Itália) é muito utilizado na Europa para diversos usos no alpinismo, fácil de ser feito pode ser usado tanto a ponta da corda como o meio para a conserva também pode ser usado para confeccionar um talabarte com fitas.

Muito fácil de soltar mesmo após tracionado com diversas quedas ou com a corda molhada, mais seguro que o Oito Guiado já que passam duas alças pela cadeirinha. Deve ser finalizado com um pescador na ponta que sobra.

Oito guiado

Um dos nós mais utilizados e normalmente o primeiro que se aprende, devem ser tomados alguns cuidados como não deixar sua alça muito grande e nem muito pequena.

Relativamente fácil desfazê-lo quando submetido a tração de quedas fica um pouco mais difícil. Também deve ser finalizado com um pescador na ponta que sobra.

Vale lembrar que estes nós devem passar pela parte alta da cadeirinha quando o escalador estiver com mochila ( o que é pouco praticado no Brasil).

Porém este nó é indicado em todas as literaturas técnicas sobre a modalidade, por mudar drasticamente a cinemática da queda por conta do peso extra da mochila e podendo causar graves injurias para a coluna em uma queda se estiver somente com a cadeirinha baixa. (ver artigo da cadeirinhas).


Nós para segurança


Volta do fiel

É o primeiro procedimento que deve ser feito ao chegar em uma parada, passar um mosquetão (deve ser da classe “H” ou HMS que é indicado para este fim) em uma das chapeletas e se prender com o fiel para depois montar a parada equalizada, pode se manter sempre conectado a ele após a equalização já que não precisa ser aberto o mosquetão para controlar seu comprimento, também é muito utilizado em diversos procedimentos de resgate.

Fácil confecção mesmo que com luvas grossas, pode, e deve, ser treinado fazê-lo com uma única mão e de ponta cabeça o que muda muito sua perspectiva.

Utilizado para fazer uma alça na corda.

Muito fácil de soltar porém é preciso finalizar fazendo um nó na ponta da corda (pescador) pois ele tende a soltar-se sozinho.

Nó UIAA, meia volta do fiel ou nó dinâmico

Foi um dos primeiros nós utilizados no alpinismo e é muito utilizado ainda hoje, na Europa é comum encontrar experientes alpinistas que só usam ele para dar segurança ao companheiro ou para efetuar a descida, aqui no Brasil já percebi que algumas pessoas te olham torto quando você está utilizando para alguns fins, como dar segurança para o segundo por exemplo.

É indicado que somente seja utilizado para esta função por pessoas bem experientes já que ao reter uma grande queda no fator 2 existe um escorrimento grande da corda e pode causar acidentes e ferir a mão ao bater no mosquetão.

Somente devem ser feitos em conectores da classe “H” e é preciso entender bem seu funcionamento uma vez que a posição da corda é diferente para dar segurança e para efetuar descida mas ele tende a se adaptar sozinho de acordo com o lado tracionado por isso é conhecido como dinâmico.

Recomenda-se a prática ao realiza-lo de ponta cabeça e com uma única mão.

Fácil confecção porém também é fácil errar e se colocar em risco.

Volta de bloqueio ou nó de mula

Utilizado para poder soltar as mãos da corda quando usado algum equipamento que não trave automático por exemplo utilizando o nó UIAA, ATC, Freio oito etc.

Requer uma atenção muito grande para realizá-lo corretamente e com uma sobra considerável para não causar acidente ao se soltar sozinho ou então após tracionado dificultar para soltá-lo.


Nós de junção de cordas ou fitas


Pescador e pescador duplo

O pescador dever ser utilizado para toda a ponta da corda a fim de ser retido na mão do alpinista caso não perceba que a corda chegou ao fim.

No caso do duplo é um dos mais utilizados para unir duas cordas do mesmo diâmetro porém após tracionado é difícil desfazê-lo.

Nó simples

Deve ser usado para unir cordas do mesmo diâmetro quando existe a necessidade de puxá-lo por algum obstáculo de maneira que a corda não trave.

Deve-se ter atenção de deixar uma sobra de pelo menos 10 vezes seu diâmetro para que quando tracionado não solte sozinho.

Nó de fita

É um nó simples com umas das pontas de maneira que passe pela outra ponta e depois repetido com a ponta que sobra.

Muito fácil de fazer e também de soltar depois de tracionado, recomenda-se finalizar as pontas com o pescador para não soltar acidentalmente quando tracionado.


Auto blocante


Recomenda-se utilizar cordelete de no mínimo 6 mm com 60 cm de tamanho e que seja fabricado em Kevlar ou Dyneema.

A quantidade de voltas deve ser de acordo com a relação do diâmetro do cordelete (usado com o prussik) e o diâmetro da corda que irá recebê-lo.

Que deve ser de mais da metade do diâmetro da corda ou 2/3.

Prussik

Excelente nó para usar como auto seguro, em conjunto com descensores que não travem automáticos como oito, atc, etc. Também usado para efetuar a subida por uma corda, procedimento este que deve ser feito por pessoas experientes.

A subida de corda deve ser utilizada com no mínimo dois cordeletes, com este nó na corda, e de maneira que os dois estejam conectados a cadeirinha. O montanhista que ficar em cima deve possuir um pedal para auxiliar na subida. Pode ser utilizado nos dois sentidos.

Marchard

É utilizado para as mesmas funções do Prussik porém deve ser tomado alguns cuidados e possuir um bom entendimento do seu funcionamento.

Isso porque, dependendo de como feito, só funciona em um dos sentidos, não deve ser feito um número muito elevado de voltas senão irá atrapalhar mais do que travar.

Alexandre “Francês” Gazinhato é paulistano, Técnico em Segurança do Trabalho, Jornalista, Alpinista Industrial IRATA, escalador esportivo e membro do Clube Alpino Italiano e Gruppo Speleologico de Marche da Itália.

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