No mundo das montanhas não espere concordâncias

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Foto : http://warriorsway.com/

Às vezes eu recebo críticas por e-mail de pessoas que discordam fortemente com o material do Guerreiros da Rocha. Estes não são e-mails de pessoas que assinaram a lista de e-mail (que recebem quinzenalmente as lições).

Eles são de pessoas que se deparam com o material quando estão fazendo pesquisas na internet. Eles ficam tão incomodados que tomam tempo de seus horários e rotinas ocupadas para me escrever.

Todos tendemos a pensar que estamos certos em como percebemos a vida. Esta é uma tendência natural, que pode nos dar a confiança para viver nossas vidas.

Porém, pensar que estamos certos tende a limitar o aprendizado. As críticas por e-mail que recebo levam isso além, dizendo que o material do Guerreiros da Rocha está errado.

Como balanceamos o ato de pensar que estamos certos, com permanecer receptivos para aprender? Conhecer nossos valores pode ajudar. Todos nós, no entanto, não temos os mesmos valores.

Por exemplo, valorizar resultados finais é muito diferente de valorizar processos. O primeiro nos dá confiança baseado nos resultados finais que atingimos; o último nos dá confiança baseado nos processos em que nos comprometemos. Não deveríamos esperar que os outros concordassem conosco se nossos valores são diferentes.

Então, como vivemos nossas vidas quando sabemos que não teremos a concordância de todos? Precisamos desenvolver a consciência e depois falar desde essa consciência.

A abordagem “Eu estou certo, você está errado” é inconsciente. É inconsciente de que o universo faz um ciclo entre os polos de dualidade, buscando o equilíbrio. Não podemos ter uma esquerda sem uma direita. Esquerda e direita criam os polos de um ciclo. Valorizar resultados finais se aferra a um polo desta dualidade, buscando validar o que percebemos que é certo. Valorizar os processos pulsa entre os polos, modificando o que percebemos que é certo.

A vida não é um polo de um ciclo – um resultado final- para validar; é abranger ambos os polos –um processo- para modificar. Desenvolver a consciência nos distancia da valorização de resultados finais e nos faz valorizar os processos.

A abordagem “eu estou certo e você errado” limita o aprendizado, mas tendemos a leva-la além. Nós não só pensamos que estamos certos, mas queremos forçar os outros a pensar como nós. Uma das principais ideias do Zen é deixar os outros a sós e deixa-los descobrir suas próprias jornadas na vida. Tendemos a não deixar os outros sozinhos e, além disso, interferimos em suas jornadas.

Queremos mais pessoas para concordar com nossa perspectiva. Quanto maior o grupo, ficamos mais confortáveis e convictos de que nossa forma é certa, e com um grupo maior é mais fácil validar que estamos certos.

Foto :  Harrison Shull

Foto : Harrison Shull

Friedrich Nietzsche disse: “Você tem seu jeito. Eu tenho meu jeito. Em relação ao jeito certo, o jeito correto, e o único jeito, ele não existe.” O Caminho do Guerreiro é um jeito que as pessoas podem considerar em incluir em suas jornadas. É uma expressão da realidade que dá opções para os outros considerarem.

Já que todos temos perspectivas variáveis, estamos todos errados, e não certos, em nosso entendimento da realidade absoluta. Como mantemos a confiança para viver nossas vidas se sabemos que estamos errados? Deveríamos apenas ficar em silêncio até sabermos a realidade absoluta?

Não, jamais saberemos a realidade absoluta. Nossa confiança não vem de saber que estamos certos e os outros estão errados, ela vem de saber que temos um processo que vai além do certo e do errado, que inclui todas as perspectivas para que possamos cavar no profundo de nós mesmos para aprender. Valorizar os processos no lugar de resultados finais é um complemento para o aprendizado.

Ter valores diferentes causará que os outros nos critiquem. As críticas nos dão oportunidades de aprendizado, mesmo se for apenas para diminuir nossos egos. Quando eu recebo e-mails de críticas eu posso perceber o meu ego reagindo. Ele fica na defensiva, protegendo sua identidade?

Ou, ao contrário, eu considero o que eles estão dizendo e encontro uma forma para balancear minha perspectiva? Em outras palavras, eu permaneço na zona de conforto e protejo um resultado final de como o material está agora, validando-o, ou eu me permito a sentir o estresse, procurar conexões e o modifico? Às vezes eu faço o primeiro, às vezes ambos, mas minha intenção geral é viver o material, e fazer o último.

É interessante considerar por que algo nos irrita, como um post em um blog na internet, que não está endereçado a nós pessoalmente. Talvez o levemos no pessoal porque ele se dirige a algo dentro de nós que não foi endereçado. O universo requer equilíbrio. A irritação é a forma de o universo nos fazer saber que estamos fora do equilíbrio. Estamos irritados porque estamos muito longe à esquerda ou direita.

As perspectivas das outras pessoas conflitam com as nossas. De fato, quanto mais estivermos à direita ou à esquerda, mais nos irritaremos, ficamos mais bravos, e estaremos mais dispostos a tomar ações que expressem essa raiva. Os grupos extremistas vêm de extremos de pensamentos da direita ou esquerda.

Sócrates nos lembra que a vida sem examinar não é uma vida que vale a pena viver. Ele não está falando de examinar a vida das outras pessoas; ele está falando de examinar nossas próprias vidas. O Caminho do Guerreiro é um processo para examinar nossas vidas.

Ele me ajudou a examinar minha vida, me tornou mais consciente e agora eu falo dessa consciência.

Os críticos podem aprender algo com Sócrates.

Dica Prática: Examine sua vida

O Budismo ensina a importância do caminho do meio. Ele busca abranger os dois polos e encontrar uma forma de manter o equilíbrio ao caminhar pelo meio. A irritação é um sinal de que não estamos no meio, de que estamos fora do equilíbrio.

O que te irrita? Certamente existem muitas opções para escolher quando consideramos o que está acontecendo nos jornais, no nosso trabalho, nas nossas relações.

Agora, em vez de olhar para fora de si buscando a causa da irritação, examine sua própria vida. O que está dentro de você que está fora do equilíbrio?

 

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O livro “The Rock Warrior Way – Mental Training for Climbing” está à venda traduzido para a língua portuguesa no Brasil em : http://www.companhiadaescalada.com.br/

Tradução do original em inglês : Gabriel Veloso

Sobre o Autor

Arno Ilgner

Arno Ilgner

Arno Ilgner distinguiu-se como um escalador pioneiro nos anos 1970 e 80, quando as principais ascenções foram as primeiras fortes e perigosas. Essas façanhas pessoais são a base para Ilgner desenvolver o programa de treinamento físico e mental – Rock Warrior Way ®. Em 1995, após uma pesquisa aprofundada da literatura e prática de treinamento mental e as grandes tradições guerreiras, Ilgner formalizado seus métodos, fundou o Instituto Desiderata, e começou a ensinar seu programa de tempo integral. Desde então, ele tem ajudado centenas de estudantes aguçar a sua consciência, o foco de atenção, e entender seus desafios de atletismo (e de vida) dentro de uma filosofia coerente, baseada em aprendizado de tomada de risco inteligente. Ilgner considera a alegria e satisfação no esforço – a “viagem” – intimamente ligada à realização bem sucedida das metas.

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