No mato sem cachorro : O que fazer quando se perder na montanha

Faz parte do histórico de qualquer montanhista alguma história de quando foi à montanha fazer alguma atividade e, por algum motivo que não vem ao caso, acabou se perdendo. Óbvio que há diversas maneiras de se perder na montanha, algumas mais ou menos dramáticas, o que torna não torna o fato de estar perdido uma vergonha para ninguém. Errar é humano e faz parte do processo de aprendizado.

A maneira a qual irá se comportar diante da perda de orientação na montanha é que faz toda a diferença. Alguns, geralmente os mais experientes e maduros, procuram manter a calma e raciocinar com calma para sair dela. Outros escolhem seguir a intuição (que às vezes nem possui) e seguir a direção a qual o nariz está apontando, confiando assim totalmente na sorte e no acaso. Aquele que conta com orgulho qualquer “perrengue” que passou em alguma atividade e deixa explícito que não aprendeu nada com isso, é forte candidato a aparecer em alguma notícia de resgate.

Foto : https://str8art.wordpress.com/

O pior inimigo de um montanhista é, sem dúvida nenhuma, ele mesmo e suas escolhas. Desde o equipamento até o tipo de análise que faz coloca toda a comunidade que pratica a mesma atividade sob a análise.

Não somente na produção de documentários superficiais e indefensáveis estão os “inteligentinhos“, em atividades de montanha eles aparecem todo o tempo. Por isso é importante saber não se portar como um sem-noção.

Poder mental

Pode parecer uma dica tirada de um livro de auto-ajuda, mas não é. Como poder mental considere vários ingredientes : conhecimento técnico, maturidade, calma, confiança, maturidade e responsabilidade.

Repare que todas estas qualidades aparecem com a frequência da atividade e não necessariamente com descrições de atividades recheadas de adjetivos superlativos.

Foto : http://teacherprobs.com

Tudo o que acontecer a partir do momento da pessoa reconhecer que está perdida é a atitude psicológica que tiver e somente dela é que aparecerá as atitudes certas pra sair da situação. Saber que não adianta desesperar-se, angustiar-se e controlar sintomas físicos como cansaço, fome, fadiga, etc.

Em uma situação extrema, como ficar perdido na floresta Amazônica, ou qualquer outro lugar remoto, a principal arma de sobrevivência é a racionalidade e, de preferência, esquecer a passionalidade.

Ter e não ter medo e pânico

Há sempre muito interesse do público por canais do youtube que abordem dicas de sobrevivência em situações extremas. Alguns possuem excelente qualidade, outros, que geralmente os que passam na TV aberta são indefensáveis.

Independente da qualidade de conteúdo destes canais tente observar algo : todas as técnicas mostradas ali você conseguiria realizá-las em uma situação extrema ?

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Você pode, por exemplo, até mesmo saber fazer fogo com dois gravetos (grande clichê dos canais de sobrevivência) mas saberia realizá-los quando o fator medo e pânico estiver á sua volta ? Esta é a pergunta que deve sempre se fazer. Observe que os apresentadores destes canais sempre aparentam estar calmos e concentrados na atividade. Mesmo sentindo medo do que pode acontecer, ou pânico da situação vivida, procuram concentrar-se no que estão fazendo.

Este mesmo raciocínio vale para você. Primeiramente pare de achar qualquer situação cômica, ridícula ou vergonhosa e concentre em identificar o medo para que não se torne pânico. Identificando o medo saberá racionalizar o que de fato deve ser mais precavido e o que é apenas o crescimento de uma situação psicossomática.

Inimigos silenciosos

Pessoas que se perdem e vêem-se sozinhas tendem a entrar rapidamente em depressão quando a situação parece sem solução. Quando o sentimento de derrota parece tomar conta de todo e qualquer pensamento é o momento de se preocupar-se e isolá-los.

Divagações e pensamentos não objetivos devem ser evitados, da mesma maneira que ficar pedindo ajuda divida. No momento de estar perdido na montanha é a hora de colocar em prática o que estudou e aprendeu nas suas atividades de montanha.

Foto : http://survivalplanet.org

Por isso elaborar atividades que façam o tédio da espera por algum resgate ajuda a concentrar-se no que no agora. Atividades como cozinhar, procurar comida, arrumar uma cama, abrigo, etc ajudam a sair da monotonia.

Montar uma fogueira, limpar o lixo, etc, também ajuda a manter-se racional e sobreviver sem comprometer a capacidade mental.

A preparação : a melhor arma

Durante uma situação extrema a melhor arma que possa ter é o seu conhecimento. Tudo aquilo que aprendeu nas atividades de trekking, nos artigos técnicos que leu e estudou, nos livros que comprou para reforçar o conhecimento e nas trocas de idéias e técnicas com pessoas da comunidade é que fazem a diferença.

Por melhor que seja o equipamento que tenha comprado, mais caro que tenha sido seu curso de montanhismo, mais renomado seja seu professor, somente o que tenha aprendido de fato é que irá salvar você.

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Grande parte das pessoas que se perdem em trilhas e posteriormente têm de ser resgatadas não possuíam conhecimentos básicos de montanhismo. Muitas delas acreditam que é uma atividade sem necessidade de aprendizado contínuo.

Não ter expertise em atividades de montanha é a razão que apresentadores de TV pagam sherpas e guias de montanhas para que os praticamente os carregue em expedições como a do Everest ou qualquer outra do pacote comercial Seven Summits.

Pela mesma razão, despreparo técnico, é que há tantos incidentes em lugares que tornaram-se popular por falta de fiscalização como o Pico dos Marins, que hoje é o maior exemplo de pessoas despreparadas por metro quadrado. Comprar equipamentos adequados não necessariamente transforma ninguém em montanhista experiente, mas apostar em realizar qualquer atividades sem eles identifica potencialmente uma pessoa despreparada.

A preparação física também faz parte das atividades de montanha. Estar resistente para longas caminhadas e algum esforço físico extra é fundamental para a sobrevivência em atividades outdoor. Passear no shopping, caminhar no parque, correr na esteira, ente outra atividades urbanas, infelizmente não prepara ninguém a um trekking exigente. Durante uma situação extrema, como ficar perdido em uma floresta ou travessia, o preparo físico é tão importante quanto o conhecimento técnico.

Como proceder

Da mesma maneira que existem em vários aspectos de nossas vidas é necessário saber proceder diante de uma situação. Quando estamos estudando, por exemplo, sabemos exatamente preparar a atmosfera que nos condicione a um bom aprendizado.

Da mesma maneria quando estamos cozinhando, sabemos como nos comportar para evitar acidentes e preparar a comida com perfeição. Pois então, a mesma coisa deve ser feita quando estivermos em uma situação extrema.

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Os passos abaixo são uma espécie de exemplo da maneira ideal de como proceder quando estiver perdido no meio do nada. Obviamente varia muito de acordo de pessoa para pessoa, mas o essencial está escrito em cada palavra do texto.

1 – Analise a situação como um todo. Procure traçar um panorama completo e realista da situação e elabore um plano. Caso haja pessoas lesionadas, como um tornozelo torcido ou o braço quebrado, leve em consideração a dor e a capacidade de esforço delas. Procure saber sobre a situação de água e alimentos, assim como a possibilidade de obtê-los nas proximidades de onde estiver.

Procure saber também os tipos de perigos que existem nas redondezas como, por exemplo, abismos, cachoeiras, corredeiras, matilhas de lobos, etc. Existem ocasiões que depende muito de fatores concretos e não de medos infundados. Ficar com medo do aparecimento de ursos quando estiver perdido na patagônia ou de onças em região desértica apenas atrapalhará sua análise.

Enumere as suas prioridades

  • Prestação de socorros em acidentados e lesionados
  • Preparar sinais para resgate
  • Abastecer o estoque de água
  • Procurar um refúgio seguro
  • Procurar comida
  • Fazer inventário dos equipamentos disponíveis

2 – Não tenha pressa. Mesmo em casos como uma emergência médica, confundir pressa com fazer coisas com rapidez e muito comum. Nos momentos de tensão é muito comum apressar-se a fazer algo e acabar esquecendo procedimentos técnicos. Fazer as coisas com pressa também irá minar a sua energia e isso pode fazer falta em uma situação que demande mais força e resistência. Por isso que, como explicado no item 1, é necessário ter um plano de operação e foco no seu cumprimento. Distrair-se com atividades, discussões, diálogos e técnicas desnecessárias apenas atrasa o processo.

3 – Lembrar-se de onde está. Provavelmente quando etá procurando ajuda para alguém tenha de explicar exatamente a posição. Algum ponto de referência, ruído e até mesmo coordenada geográfica são imprescindíveis para que equipes de resgates saibam onde possam encontrá-lo. Preferencialmente vá marcando o caminho para que saiba voltar para o seu abrigo, pois perder-se procurando ajuda pode piorar as coisas.

Foto : http://www.bikatadventures.com

4 – Domine o medo. Não entre em desespero, nem comece a ficar histérico gritando a esmo de maneira aleatória. Isso somente irá cansar você, desequilibrar quem estiver te acompanhando e afasta-lo da racionalidade. Gritar por ajuda é muito útil em um shopping center ou parque municipal na sua cidade, mas em lugares onde esteja perdido não. Mantenha a calma e procure sempre raciocinar de maneira lógica e linear. Não fique mudando de ideia a cada 5 minutos apenas porque está entrando em pânico com a situação. 

5 – Valorize a sua vida. Durante uma situação extrema é normal que ocorra erros de julgamento de situações e lugares. Por isso a vontade de sobreviver tem de ser maior que a depressão. Não fique preocupado em chorar sobre a situação, muito menos acusar qualquer pessoa do grupo. Caso alguém oferecer ajuda, aceite. Não é humilhação para ninguém pedir ajuda quando se necessita.

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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