Mito ou verdade: O nó “lais de guia” é seguro para ser usado na escalada?

O nó conhecido como “Lais de Guia” é um dos mais conhecidos e utilizados por escaladores em todo o mundo. Apesar de ser bastante criticado por um grupo de montanhistas, os quais alegam que é inseguro, continua sendo usado por boa parte da comunidade de montanha. Geralmente este nó é conhecido por uma grande vantagem em relação a muitos outros: é fácil de desatar. Exatamente por isso que escaladores de uma escola mais clássica, optam por usá-lo.

O nó possui o nome em inglês de “bowline”, em espanhol de “as de guía” ou “bulin” e em francês “Nœud de chaise”. Grandes nomes da escalada mundial já se acidentaram, alguns chegaram até mesmo a morrer, devido à execução incorreta do nó, o caso mais famoso talvez seja o acidente do John Long. O Lais de guia não é um nó recomendado por nenhuma federação ou associação de escalada, tanto no Brasil quanto no exterior.

David Rothman, um escalador de 73 anos de idade, morreu em decorrência de um acidente de escalada. Após investigações, um juiz britânico determinou que o nó lais de guia era o grande culpado da morte do escalador que tinha, segundo divulgado, mais de 50 anos de escalada. Somente nos EUA, que possui um reporte de acidentes conhecido e com boa consistência de dados, registrou 23 acidentes na década passada (2003 e 2004), destes 8 foram fatais.

As críticas em relação ao nó baseiam-se no fato de que, se mal executado, desmancha-se com facilidade, colocando a segurança do escalador, mesmo que em uma hipótese remota, em perigo. Uma distração simples do escalador, no momento de encordar-se pode causar um acidente. Além disso, vários escaladores experientes, assim como instrutores de escalada, enumeram os seguintes defeitos:

  • O nó é fácil de ser feito incorretamente
  • O nó é difícil se ser conferido pelo parceiro e/ou segurador parceiro de escalada
  • O nó pode se desfazer “sozinho” com a vibração natural da corda

Uma boa referência para quem deseja conhecer mais sobre o lais de guia, assim como as suas variações, é consultar a obra “Livro de Ashley sobre Nós” (The Ashley Book of Knots) publicado originalmente em 1944, o qual é até hoje a principal referência sobre o assunto.

Porém, uma pergunta que parece pertinente a esta altura: se existem tantas críticas a este nó ser usado por escaladores, por que então muitos ainda insistem em usá-lo. Muitos escaladores aproveitam uma espécie de variações e finalizações para evitar cada um dos itens criticados acima. As duas mais populares existentes entre os escaladores do mundo são: finalização yosemite e a duplicação do lais de guia (conhecido também como lais-de-guia duplo).

Dutch Bowline

Como citado no início deste artigo, um dos livros mais completos que existe para saber mais sobre nós de todos os tipos, é a obra “Livro de Ashley sobre Nós”. O Lais de Guia na obra recebe o número 1010 e uma variante recomendada pela marinha holandesa (dutch em inglês) recebe o número 1034 e meio.

Na foto acima, estão dois nós lais de guias propositalmente sem arremate. A ausência de arremate é para que possa ser facilmente visualizado. Apesar de inicialmente parecerem o mesmo nó, são na verdade diferente. A partir da visualização vale uma pergunta: Qual seria a diferença funcional entre o “Lais de guia” da esquerda e da direita?

O lais de guia da esquerda é o clássico (saindo por dentro) e o da esquerda é o “dutch bowline” (saindo para fora).

O nó da esquerda se desmancha após ser chacoalhado, desfazendo-se sozinho. Este tipo de característica já demonstra que, em um escalador muito agitado, ou que o nó roçou na superfície da rocha, pode desmanchar ao escalador depositar o peso na corda.

O nó da direita é mais difícil de acontecer, mas acontece. Por este ser mais difícil de acontecer é considerado menos inseguro que o da esquerda. Mas menos inseguro não significa ser seguro. Ainda mais porque a finalização conhecida como yosemite, não é possível de fazer.

Conclusão

Por possuir uma margem de erro muito grande na sua execução, pois na descrição vários “mas” são usados, há muitas possibilidades de algo dar errado na execução do lais de guia por um escalador. Portanto o lais de guia é seguro para ser usado na escalada, mas não 100% seguro. Inseguro ele somente é quando mal executado, mas mesmo assim, outros nós também sofrem do mesmo mal: a imperícia.

Por causa desta margem de erro, colocando o lais de guia com 80% de segurança em relação a outros nós mais utilizados e recomendados por federações e certificações de guias de montanha, fica a sugestão de que, apesar de ser seguro, mas nem tanto, qualquer escalador pode entrar na porcentagem da margem de erro com alguma distração.

A melhor recomendação é estar com o maior índice de segurança sempre. Para saber quais são os melhores nós, além de como fazer, baixe um livro de nós disponível para download: http://blogdescalada.com

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

There is one comment

Comente agora direto conosco

Comment moderation is enabled. Your comment may take some time to appear.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.