Somos mulheres escaladoras: Não queremos suas cantadas, queremos seu respeito

Nota do editor: Na semana da mulher, a Revista Blog de Escalada pediu que praticantes destacadas de seus esportes escrevessem seus sentimentos sobre o universo outdoor, tendo toda a liberdade para expor seus sentimentos. Desta maneira a Revista Blog de Escalada, mais uma vez, demonstra ser o veículo brasileiro que mais respeita a diversidade.

O texto é de inteira responsabilidade e autoria das convidadas. Sem qualquer tipo de censura prévia.

A terceira convidada na semana da mulher é a articulista do site parceiro Escalada Granada


Por Escalada Granada

Abaixo são algumas das frases, ou afirmações, mais comuns que nós mulheres podemos escutar nos locais de escalada. São frases que parecem definir a insegurança, falta de confiança, valentia, atrevimento, etc…

  • Que medo tenho de escalar!
  • Vou cair feio!
  • Não posso fazer!
  • Acredita que sou capaz de chegar lá em cima?
  • Vai você, e dependendo de como sai, eu tento…
  • Que agarra ruim
  • Está calor, me desce
  • Dói as minhas mãos e pés

A escalada é um esporte para pessoas valentes, uma prática que levará até os limites que nem sempre conhecemos, mas uma vez alcançados, nos enche de confiança, valor e segurança em si mesmo, para alcançar metas mais além das meramente esportivas.

Estas são as justificações, que somente são usadas como desculpas falsas, deixando de lado o puramente verdadeiro: que a capacidade de enfrentar desafios desconhecidos, seja encadenando à vista, ou com a realização de um projeto de várias semanas.

Boulder “400 contra 1” | Foto: Acervo Pessoal Jordana Agapito

As mulheres escaladoras nem sempre tiveram vida fácil neste aspecto, pois parece (não que realmente seja!) que tudo isso que foi dito acima é mais próprio de uma mulher que um homem. Mas não! Os homens, já que o assunto é o gênero, também reclamam da mesma maneira. A diferença é mais acentuada em como percebemos as sensações que mulheres e homens transmitem enquanto enfrentam uma via de escalada, seja guiando ou malhando. Por isso, neste sentido, devemos ter mais empatia na hora de julgar uma pessoa que escala. Sempre esquecendo os temidos tabus de gênero, que existem ainda nos dias de hoje e, infelizmente, ainda persistem em uma sociedade que parece evoluir lentamente neste aspecto.

As mulheres têm conseguido proezas que nem sempre foram difundidas pelos meios de comunicação (especialmente as falidas e moribundas revistas impressas), aportando pouca relevância e transcendência que mereciam. Neste sentido é que hoje resolvi recordar algumas das mulheres escaladoras que fizeram história.

Lynn Hill

Foto: http://yellowscene.com/

A americana Lynn Hill foi a primeira pessoa (entre homens e mulheres) da história a escalar em estilo livre a via “The Nose” no El Capitán. Um rochedo gigante de 2.148 m e que é a via mais popular do Vale de Yosemite, nos EUA. Um ano depois a mesma Lynn Hill voltou na via e a escalou em apenas um dia (It goes boys! – afirmou a escaladora).

Hill foi a primeira em desafiar as crenças populares de que mulheres não podiam escalar mais que um 7b francês (8b brasileiro), chegando, em sua carreira, a escalar um 8b+ francês (10b brasileiro) na via “Masse Critique” na França, em local conhecido como Cimai.

Lynn Hill fez tudo isso com apenas 1,52 metros de altura.

Beverly Johnson

A americana Beverly Johnson foi possivelmente a primeira mulher da história a escalar em solitário algumas das vias de El Capitán e, junto com Sybille Hechtel, conseguiram ser as primeiras a escalar 900 metros de via em Yosemite, nos EUA. A via era a “Triple Direct” (VI 5.9 C2-) em 1973. A escalada levou sete dias, puxando haul bags que pesavam mais que as duas juntas. Beverly Johnson fez isso quando tinha apenas 24 anos de idade em 1978.

Esta escaladora americana, que tinha 1,68 metros de altura, também realizou várias outras ascensões marcantes nos anos 1970.

Foto: McHale’s Navy | http://www.supertopo.com

Beverly Johnson liderou uma equipe de seis pessoas, todas mulheres, que foram às montanhas da Nova Guiné. A equipe foi “largada” de paraquedas (literalmente), escalando pela região e voltando sozinha à base. Dedicando-se a fazer documentários e curtas com o marido, ganhou um Oscar em 1984 com o filme “Up”.

Incansável, Johnson também participou de outras atividades que marcaram época e foram divisor de águas para mulheres em atividades outdoor: A primeira pessoa a cruzar sozinha o Estreito de Magalhães em um caiaque (aproximadamente 600 km). Também cruzou a Groenlândia à pé. Um de seus feitos também foi cruzar, com windsurf, o Estreito de Bering (estreito que liga os oceanos Pacífico e Ártico entre a Rússia e os Estados Unidos).

Quem mais?

Assim como Beverly Johnson e Lynn Hill existem muitas mulheres escaladoras que marcaram a história como:

  • Miss Parminter, talvez a primeira mulher que se tem registro na história da escalada, que em 1799 já frequentava os cumes dos Alpes da região da Savoia, em vias como “Le Buet” (3.095 m).
  • Marie Paradis que em 1808 a primeira mulher da história a escalar o Mont Blanc (4.810 m). Porém por falta de divulgação e reconhecimento, 30 anos depois uma aristocrata Henriette D’Angeville realizou o cume, se autoproclamando a primeira a fazê-lo.
  • Ellie Hawkins que solou várias vias em solitário, incluindo uma em artificial que era graduada em A3 (Never, Never Land – VI 5.9 A3). Realizou também a primeira ascensão de “Dyslexia”(VI 5.10d A4).
  • Catherine Destivelle, que foi a primeira mulher que completou uma ascensão em solitário da face norte do Eiger (3.970 m)
  • Steph Davis, a única a escalar em estilo solo a face norte do Castleton Tower, localizado no estado americano de Utah
  • Lisa Rands, a primeira americana a escalar um boulder de dificuldade V11
  • Margo Hayes, a primeira mulher a escalar um 9a+

Todas elas fizeram história. Espero que esta pequena lista sirva para inspira-te, já que graças a elas hoje as mulheres são reconhecidas como grandes escaladoras e como “iguais”. Conhecer o passado nos ajuda a enfrentar novos desafios e metas.

Como disse Lynn Hill “não é o que você escala o que conta, mas como você escala” (it’s not what you climb that counts, but how you climb it).

Tradução autorizada de https://escaladagranada.es

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