Massificação da escalada: Saiba quais os problemas que NÃO deveriam acontecer

A escalada tem se transformado em um esporte cada vez mais popular e, exatamente por isso, uma maior quantidade de escaladores aparece em diversos locais de escalada. É o início de uma grande quantidade de problemas, mas na verdade somente são problemas se os próprios escaladores não estiverem dispostos a enfrentar para solucioná-los. Ainda que isso tenha inevitavelmente de arrumar o que outros se encarregaram de estragar.

A massificação (ato de popularizar uma certa atividade que pode ser mais abrangente em todos os níveis) é inevitável, portanto quem alegar que é a pior coisa do mundo (atitude mais fácil), ou enfrentar uma realidade e procurar ver como fazer para para que tenha uma solução positiva.

A primeira coisa é enumerar os principais problemas da massificação:

  1. Lixo e excrementos
  2. Superpopulação de escaladores nas mesmas vias
  3. Marcação de agarras com magnésio e outros manias

Lixo e excrementos

O conceito de massificação como etiologia no aumento de lixo, é tão hipócrita como colocar a culta nas outras pessoas pelo baixo compromisso para que as coisas sejam piores. O problema do lixo é individual, ou seja, alguém coloca o lixo ou deixa os papéis higiênicos usados. Dentro de um monte de pessoas, que frequentam os locais de escalada, é necessário ter em mente que nem todos são iguais e que existe pessoas que não se interessam em cuidar das coisas. São as mesmas pessoas que transformaram este mundo em um lugar à beira do colapso. Entretanto, não se pode esquecer que atrás destas pessoas, existem muitas outras que não querem lugares de escalada sujo, mas que não fazem nada para evitar.

Mas então quem é o culpado? Se acredita na comunidade: todos, incluindo o que não suja, mas que não se da ao trabalho de não deixar que os outros sujam.

Mas para piorar mais ainda, quando se fazem pesquisa na internet, a grande maioria esta a favor de não ter lixo nos lugares. Estas mesmas pessoas dizem que quanto mais gente escale, maior a quantidade de pessoas que estão a dispostos a cuidar dos lugares. É necessário fazer um exame de consciência, pois não se pode falar da comunidade se não está disposto de maneira individual a ser ativo em melhorar seu meio ambiente. Somente esbravejar em grupos de whatsapp e não fazer nada faz de você parte do problema.

Superpopulação

Foto: Mark Roth | https://www.mountainproject.com/

Este é um fato e, inevitavelmente, caímos no mesmo dilema. Mais escaladores falando que existem mais escaladores nas vias. Mas vale uma reflexão: quantos escaladores estão dispostos a colaborar para que se conquistem mais vias de escalada? Inclusive, para que fique claro, a superpopulação pode ser uma motivação para qualquer pessoa a abrir mais lugares e vias de escalada.

Lamentavelmente é visto constantemente uma tendência em esconder (sem divulgar para a comunidade nem para as mídias especializadas) locais de escalada, com o medo pueril e regionalista de que o local vai encher ao ficar conhecido. Esta visão míope e torpe impede a todos de ver mais além do problema em si, pois deveríamos saber que a escalada existe também a moda. Existem lugares que ficam na moda, outros não. Portanto, quanto mais setores e lugares abertos, melhor para todos, pois sempre existirá uma novidade que será alternativa para algum lugar que está “na moda”.

Historicamente falando, os novos setores sempre são visitados nos primeiros anos, mas logo acontece um equilíbrio natural, compatível com a capacidade do lugar. Além disso, um outro motivo é a própria superpopulação que faz muitos escaladores evitarem o lugar, criando um equilíbrio na quantidade de visitas. Portanto, esconder lugares de todos nem é uma boa solução, pois de qualquer maneira todos acabam ficando sabendo. Nem adianta culpar as redes sociais nisso, pois o problema são as pessoas, não as tagueadas nas fotos.

Vale lembrar que é aconselhável também não ficar tão otimistas com o crescimento da escalada, pois se o esporte esta crescendo, inevitavelmente haverá uma grande deserção de escaladores ao envelhecer. Muitos destes começarão a criar família, trabalhar de verdade e outras obrigações de adulto. Os que ficam, ao menos a grande maioria, são os maiores motivados e proativos do esporte. Alguns envelhecem, abandonam a prática para algo mais leve como tai chi chuan, mas também se dedicam a ficar somente xingando e despejando suas frustrações em grupos de whatsapp, mas isso é um outro assunto para um outro dia.

Magnésio e outras manias

Foto: http://www.chockstone.org/

As famosas e elogiadas manchas de magnésio, as quais ajudam muitos escaladores a saber onde ir, é um problema sério. A verdade é estas manchas podem ser bastante subjetivas, caso levarmos em conta a maioria dos lugares de escalada, os quais estão cheios de magnésio. Mas inegavelmente que é um item mais estético do que outra coisa. Mas qual é o limite destas manchas?

Inclusive, estão aparecendo marcas de magnésio coloridas. Acredito que tenha de ter um bom senso para distinguir entre o que é um ginásio de escalada, que tem o uso extensivo e intenso de magnésio (afinal a faxineira do lugar limpa depois), e do uso na escalada em rocha. As manchas de magnésio para algumas pessoas podem tão irritantes para alguns quanto chegar a um setor na rocha e encontrar uma pichação ao pé da via. A justificação inicial das manchas de magnésio foi, a princípio, marcar agarras com linhas de magnésio enquanto se equipava a via. Elas tinham sua justificativa. Mas no momento chegou ao extremo de transformar vias em verdadeiras sequências manjadas.

Acredito que massificar o esporte não é um problema é novamente a tendência individual que arrasta a pessoas não capazes de questionar-se sobre o que é certo ou errado, ou diferenciar um esporte ao ar livre e outro em quatro paredes.

Música?

A famosa música de celular ou em alto-falantes bluetooth. Enfim, qual a música que devemos ouvir? O rock, clássica, regeaton, eletrônica, cuenca, tango, axé, sertanejo…

Música depende muito de gostos, mas seria mais simples perceber que o que gosta a alguém, não necessariamente agradará a outra pessoa. Preferencialmente a pessoa ao seu lado. Muitos estão com o costume de ir à rocha para viver uma experiência longe da cidade. Escutar música em alguns lugares, como setores de escalada, não é uma experiência bucólica. O bom costume de perguntar e conviver socialmente, apelando à tolerância de quem está à sua volta, perdeu-se.

A massificação é um problema inegável, mas pode ser o ponto de partida para que todos percebam que o problema também faz parte de cada um. Não podemos negar a ninguém a possibilidade de escalar, mas devemos ser conscientes ao olharmos no espelho. Para perceber que somos parte da massificação, mas sendo ativos e respeitosos, esta massificação poderia transformar-se em algo positivo.

Tradução autorizada: http://rocanbolt.com

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Gonzo Rocanbolt é chileno, médico, escalador e indiscutivelmente uns dos mais completos autores de artigos sobre treinamento de escaladores existentes no mundo. Respeitado em todo o mundo é o organizador do Simpósio de Medicina de Montanha no Chile e palestrante de eventos de escalada no Chile, Argentina e Espanha

There is one comment

  1. Renato

    Gostei da abordagem.

    Outro ponto que poderia ser abordado é o consumo de drogas (lícitas e ilícitas) em ambientes de montanha.

    Cito isso até como um experiência pessoal recente. Estive fazendo a travessia Petrô-Terê, e, no abrigo, enquanto eu e minha filha (13 anos) fazíamos nosso jantar, um grupo (com várias pessoas se alternando) puxava seu baseadinho, a cerca de 3 metros de nós.
    Ora… até para ouvir música, nós hoje estamos pedindo (com razão) permissão, como é aceitável pessoas que se dizem integradas à natureza considerarem que seus vícios não causam incômodo muito grande aos outros?

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