Grandes nomes do esporte: Lynn Hill

A norte-americana Lynn Hill, atualmente com 57 anos de idade, é um dos maiores nomes da história da escalada mundial. Ao abordar a história do esporte moderno, a escaladora é nome certo na lista dos maiores e melhores do mundo. Enquanto a comunidade como um todo planejava superar graduações em vias esportivas, Hill assombrou o mundo com uma ascensão em escalada livre na icônica via “The Nose”, no local de escalada americano de Yosemite, pulverizando para muitos “especialistas” o que seria impossível para a escalada mundial.

Até hoje ativa no esporte Lynn Hill é considerada das cinco melhores atletas, homem ou mulher, de seu esporte até os dias de hoje. Margo Hayes, que em 2017 tornou-se a primeira mulher a encadenar uma via de graduação 12a, assim como Angela Eiter que meses mais tarde foi a primeira mulher a encadenar uma via 12b, logo citaram Lynn Hill como inspiração para treinamento e estilo de escalada. Hill era uma atleta completa e atualmente a nova geração aplaude de pé Alex Honnold e Adam Ondra (com inteira justiça, diga-se) é porque ambos tiveram o caminho pavimentado pela americana, que foi uma das precursoras da escalada livre (free climbing).

A Revista Blog de Escalada foi o único veículo brasileiro a entrevistar a escaladora em 2011. Em sua entrevista, a escaladora falou detalhes de como é a vida de mãe, os planos que possui para seu filho.

A lenda de Lynn Hill

Lynn Hill

Lynn Hill com 20 anos de idade | Foto: http://gnarlygreg.tumblr.com

Lynn Hill nasceu no início de janeiro de 1961, na cidade americana de Detroit. Enquanto era muito jovem, seus pais, uma higienista dental e engenheiro espacial, mudaram para Fullerton, cidade localizada no estado norte-americano da Califórnia. Hill era a quinta filha de um total de sete irmãos e, segundo relato de seus familiares, era uma criança bastante ativa e que tinha como hábito subir pelos móveis da casa.

Para que pudesse gastar este excesso de energia, sua mãe a levou quando tinha apenas 8 anos de idade para que fizesse ginástica olímpica. No relacionamento com as crianças que praticavam a atividade, acabou se desentendendo com as filosofias do esporte e comportamento de suas colegas. Mesmo assim, perseverou na atividade, tendo relativo sucesso em competições no estado que morava.

Durante o colegial, Lynn Hill dedicou-se novamente à atividade (que tinha abandonado por alguns anos) e tornou-se uma atleta de destaque na Califórnia. Credita-se que muito do sucesso de Hill na escalada era devido às habilidades, força e equilíbrio desenvolvidas na ginástica olímpica.

No ano de 1975, quando tinha apenas 14 anos de idade, o noivo de sua irmã, Chuck Bludworth, levou Lynn Hill para a sua primeira escalada. Naquele primeiro dia, Lynn guiou sua primeira via, impressionando a todos pela sua habilidade de movimentos curtos, equilíbrio e concentração. Na época, seus pais estavam divorciando, o que gerou um impacto muito grande em sua vida, e a escalada acabou tornando-se uma espécie de válvula de escape. O sentimento de ser escalador, e ao mesmo tempo uma espécie de pária da sociedade, seduziu a então adolescente que se dedicou fortemente na atividade.

Lynn Hill

Lynn Hill aos 18 anos de idade | Foto: https://www.oliunid.it

Aos 16 anos de idade, sua primeira viagem de escalada foi para Yosemite, quando foi introduzida aos escaladores que habitavam o Camp4. Na época Lynn Hill conheceu seu primeiro namorado: Charlie Row. Com o escalador ela conheceu vários estilos e à época encadenou seu primeiro 7a brasileiro (5.11 americano) e sua primeira escalada em Big Wall. Mas como a escaladora era muito jovem, além de ser menor de idade, não possuía muitos recursos para poder estar em Yosemite todo o tempo.

Portanto, ainda adolescente, Hill escalava constantemente no Joshua Tree National Park, para treinar os dedos e sua técnica, e trabalhava como garçonete em uma rede de restaurantes norte-americana chamada de Carl’s Jr. Com o noivo de sua irmã, foi sendo evangelizada sobre a cultura da escalada, filosofias, estilo de vida e começou a assinar as principais revistas da época sobre o assunto. Na época as revistas tinham uma relevância que atualmente não existem, sendo as principais fontes de informação as revistas on-line. Junto das revistas, Lynn devorava livros e livros sobre o assunto e foi pesadamente influenciada pelo escalador Yvon Chouinard, que foi o idealizador da cultura de “leaving no trace”. Chouinard, anos mais tarde, fundou uma das mais importantes empresas de indumentária outdoor, a marca Patagonia. Atualmente, Lynn Hill é evangelizadora da marca.

Na época a escaladora Beverly Johnson, uma das atletas de destaque da época, inspirou Hill. A escalada em solitário da “Dihedral Wall” no El Capitan feita por Johnson, inspirou Lynn a dedicar-se a ser a melhor escaladora possível, ainda mais em um esporte dominado prioritariamente por homens. Nas palavras da própria Lynn Hill em sua autobiografia, “a coragem e confiança de Beverly Johnson que colocou ela na linha, rompendo barreiras em um dos big walls mais difíceis do mundo, da maneira mais desafiadora possível: solitário. O sucesso dela deu confiança a mulheres como eu para ser nós mesmas e não sentir limites, mesmo sendo uma minoria no esporte”.

A vida adulta

Lynn Hill

Lynn Hill | Foto: http://www.discovery.com

Logo ao entrar na vida adulta, quando terminou o segundo grau, tendo de ingressar na faculdade, Lynn Hill foi para o Fullerton College, no próprio estado norte-americano da Califórnia. Segundo ela mesma declarou mais tarde, seu interesse pelos estudos eram ofuscados pelo seu crescente interesse em escalar. Assim, no final dos anos 1970, início dos anos 1980, ela era presença constante no Camp 4 em Yosemite, fazendo parte da comunidade (uma espécie de hippies escaladores, como ela mesmo descrevia) e sendo parte integrante da equipe de resgate do parque.

De acordo com relatos da própria escaladora, com apenas US$ 75,00 ao mês, conseguia sobrevier em Yosemite e, desta maneira, dedicar-se cada vez mais ao esporte. Apesar de ser considerado como uma comunidade socialmente igualitária para os sexos, Lynn Hill entrou na luta junto com Beverly Johnson, para que mais mulheres fizessem parte da comunidade. Uma das atitudes tomadas por Hill for firmar parcerias constantes com outras mulheres. Assim Lynn Hill, dos 18 aos 22 anos de idade, escalou constantemente com Mari Gingery todos os finais de semana. A dupla consagrou-se à época como a primeira cordada 100% feminina a escalar o “The Nose” e “The Shield”, em escaladas que chegavam a durar seis dias.

Lynn Hill

Foto: https://lynnhillclimbing.com/

Pouco mais tarde, no ano de 1986, Lynn Hill foi convidada a visitar a Europa pelo clube alpino Francês, local que não conhecia ainda: Verdon. A escaladora acabou apaixonada pela cultura de montanha europeia, especialmente a francesa, e decidiu mudar-se para lá. Culturalmente a mudança fez muito bem a Lynn, que com o pasar dos anos tornou-se fluente en francês e italiano. O contato com outras culturas, oriundas de vários países europeus, Hill começou a tornar-se uma pessoa com pensamento mais pluralista e intelectual.

Morando no sul da França, a escalada em paredes de calcário seduziu por completo a escaladora norte-americana. Descobrindo a escalada esportiva, à época um esporte em desenvolvimento, foi convidada a participar do Arco e Bardonecchia Sportroccia ’86, que estava na segunda edição e buscava novos nomes para consolidar-se como um evento tradicional. Hoje este evento é o prestigiado Arco Rock Master. Na competição, que foi realizada em duas etapas, Lynn Hill ficou em segundo lugar, perdendo para outro ícone mundial da escalada: Catherine Destivelle.

Dois anos mais tarde, competindo na Europa, Lynn Hill se estabeleceu como escaladora profissional, tornando-se campeã do mundo em duas oportunidades. Se atualmente hoje, ser um escalador profissional é um sonho para poucos, à época era quase impensado. Mais da metade dos seus ganhos monetários eram oriundos de premiações nas competições. Mesmo já sendo uma espécie de personalidade do universo da escalada, Lynn Hill não abandonou seu estilo dirtbag que adquiriu em Yosemite, e viajava gastando o mínimo por vários lugares da Europa.

Acidente e volta por cima

Lynn Hill

Lynn Hill em sua escalada na “The Nose” | Foto: https://cliffhangerguides.com

O final da década de 1980 ficou marcado para Lynn Hill como o mais duro golpe sofrido em sua vida. Em maio de 1989 a escaladora caiu de uma altura de 25 metros em Buoux, local de escalada francês. Por sorte, sua queda foi amortecida por uma árvore, mas mesmo assim ao chegar ao chão estava inconsciente. No acidente a escaladora deslocou o cotovelo e quebrou um osso do pé. Na época a norte-americana estava treinando duro para a Copa do Mundo de escalada, à época organizada pelo UIAA, e teve de se afastar dos treinamentos.

O acidente, segundo escreveu na sua autobiografia, foi causado por uma desatenção no momento de fazer o nó da corda em sua cadeirinha. Lynn Hill fez o nó conhecido como “lais de guia”, que é um tipo de nó contestado pela comunidade de escalada desde então. Surpreendentemente, Hill já estava de volta à escalada seis semanas depois, apresentando uma recuperação espetacular.

Lynn Hill

Foto: Claudia Lopez | https://www.claudialopezphotography.com

Em janeiro de 1990 Lynn Hill fez história quando tornou-se a primeira mulher da história a encadenar uma via de dificuldade 10c brasileiro (5.14 graduação americana) na via “Masse Critique”, no local de escalada francês Cimaï. Atualmente, mesmo com todos os progressos na escalada e treinamentos, muito poucas escaladoras conseguiram escalar neste nível. A título de exemplo, no Brasil, não há ainda registro comprovado de que uma mulher conseguiu escalar neste grau, tanto em terras brasileiras e muito menos na Europa.

A vida intensa de Lynn Hill como escaladora esportiva a fez começar a contestar o sentido de tudo aquilo, especialmente durante sua recuperação do acidente. Sentindo falta de vivenciar suas raízes, anunciou sua retirada dos circuitos competitivos em 1992. Sua intenção era poder dedicar-se mais à escalada em rocha. A constante mudança de regras, ambiente muito masculinizado e egos inflados de escaladoras, uma realidade não muito diferente do que é testemunhado em competições, foram os motivos alegados por ela.

Buscando novos desafios, estabeleceu como desafio o que era considerado por muitos: escalar a via “The Nose” em livre. A escaladora já tinha escalado a via em 1989 com Simon Nadin, quando em uma conversa concluiu que a via poderia ser escalada em livre. Algumas tentativas da dupla para a realização do desafio se mostraram infrutíferas. Mas quatro anos depois da primeira tentativa, junto de Brooke Sandahl, Lynn Hill tornou-se a primeira pessoa, homem ou mulher, a escalar em livre o “The Nose”. Lynn sugeriu o grau de 9c brasileiro (5.13b americano).

Lynn Hill

Foto: https://steemit.com

Um ano mais tarde, Lynn Hill surpreendeu novamente o mundo ao tornar-se a primeira pessoa a escalar em livre o “The Nose” em menos de 24 horas. A escalada usualmente leva seis dias para ser completada no estilo artificial. Hill continuou a escalar em alto nível e em meados da década de 1990 se uniu a uma marca de roupas outdoor americana para uma série de expedições pela Ásia. No mesmo período a escaladora começou a dedicar-se também a realizar clínicas de escalada e a ajudar a formar a nova geração de escalada. Tida como ícone feminino do esporte mundial, Lynn Hill também acabou se envolvendo em algumas campanhas políticas.

Já consolidada como grande nome do esporte mundial, Lynn Hill conheceu o chef de cozinha Brad Lynch, durante uma viagem de escalada em Moab. Embora admitindo que não foi planejado, Lynn Hill engravidou de seu filho aos 42 anos de idade. Desde então a escaladora diz como seu tempo para dedicar-se à escalada foi suprimido por conta de seu filho.

Lynn Hill atualmente vive na cidade norte-americana de Boulder, onde se dedica a ensinar escalada, cuidar do filho. A escaladora, quando tem tempo, participa de vários encontros de escalada e ainda escala em alto nível, embora ainda esteja longe da realidade de ter projetos para realizar. Mas mesmo que tivesse vontade, uma coisa é certa: Lynn Hill não tem mais nada a provar a ninguém.

Lynn Hill

Foto: https://lynnhillclimbing.com/

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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