A senhora loucura e a escalada free solo

Olá, tudo bem? Caso não me conheçam, muito prazer eu sou a senhora Loucura. Senhora por que já tenho certa idade, estou aqui a mais tempo do que possam imaginar. Há milhares de anos quando um homem ensandecido sob olhares incrédulos de seus parceiros de trevas batia freneticamente uma pedra contra outra, era eu quem lhe sussurrava ao pé do ouvido – mais forte mais forte. Até que se fez fogo e ele nunca mais foi chamado louco.

Talvez vocês me conheçam por alguns de meus vários codinomes e definições tais como: Alienada, doida, insensata, aquela de pensamentos e atitudes não comuns a sociedade (rs rs rs), enlouquecida, desajustada. Porém o pai dos burros (dicionário ou mesmo o Google) também me definem como aquela que é arrebatadora, imoderada, solta, livre, alegre, extravagante, apaixonada e a minha predileta: Aquela que pode girar independentemente sobre o eixo em que está montada, sem comunicar a rotação a este.

Fascinante não?

Sou parceira costumeira dos corajosos, resilientes e apaixonados. O medo, a timidez e a apatia simplesmente não me toleram.

Fui eu quem assoprou teorias incrédulas a Albert Einstein e Isaac Newton, motivei a genialidade de Leonardo da Vinci e William Shakespeare, convenci Michael Jordan e Santos Dumont de que o homem podia voar, inspirei Sócrates e Joana d`Arc mesmo sob pena de morte a não abdicarem de seus princípios e tantos mais que já nem me lembro.

Concentrar-me-ei daqui por diante, há tempos menos remotos.

Tratarei agora de vocês, considerados loucos por praticarem insistentemente um esporte ou atividade física qualquer, mesmo que esses não lhes tragam lucros financeiros diretos, lhes causem dor passageira, os obriguem a acordar cedo ou dormir tarde e faça com que tenham hábitos alimentares incomuns ou mesmo que abdiquem por alguns instantes de seu convívio social padrão.

Vocês são uma espécie em extinção, em breve serão dizimados por uma sociedade sedentária e apática, havidos a satisfazerem suas expectativas gastronômicas com fontes energéticas falsas e contaminadas que sacarificam seu precioso tempo à deriva em plataformas digitais.

Hoje, apresentar-lhes-ei alguns dos raros transgressores de tudo isso, os meus caros amigos escaladores de montanhas. Diga-me, qual de vocês escaladores de montanhas nunca foram chamados de loucos pelo menos uma dúzia de vezes, sobre tudo vocês que em algum momento e por algum motivo optaram pela escalada free solo, a escalada sem cordas ou qualquer outro equipamento de segurança.

Nos idos dos anos 80 e 90 enamorou-se por mim um jovem chamado Dan Osman, exímio escalador de montanhas. E tamanha foi essa paixão que em pouco tempo passou a deixar a corda no chão, abdicou desse cordão umbilical e passou a escalar livremente, acompanhado apenas por mim, passando a praticar uma modalidade denominada “free solo speed climb“, algo tipo”louco que escala montanhas sem cordas em alta velocidade’’. Formávamos uma bela dupla. Contudo a queda lhe atraia mais que a ascensão, sendo assim, foi um dos precursores da expressão ‘’se joga”.

Praticando um esporte no qual ele se lançava de verdadeiros abismos de mais de 300 metros de altura, pendulando com cordas simples e passando a poucos metros do chão, o que ele chamava de queda controlada, hoje mundialmente conhecida como Rope Jump ou pêndulo humano. Morreu traído por uma corda que se rompeu, quando bateria mais uma vez seu próprio recorde mundial, nesse esporte em que foi um dos idealizadores.

Osman não fez fortuna ou fama à época com suas práticas radicais, inovadoras e amalucadas, mas abriu caminho para inúmeros esportes que hoje são denominados esportes radicais e não mais práticas loucas e aventureiras simplesmente, como eram conhecidas no passado recente.

free solo

Outros grandes escaladores comungaram comigo a intensidade da escalada free solo, como: Dean Potter, John Bachar, Leonel Terray, Gunther Messsner, Steph Davis, Reinhold Messner, Katharine Destivelle, Lynn Hill, Austin Howell, Alexander Huber e tantos outros, sendo que muitos desses sucumbiram à queda e em nenhum deles reconheceu arrependimento quando seus olhos cruzaram os meus em seus instantes finais.

É meu dever alertá-los, no entanto que escalar uma montanha sem cordas ou qualquer outro equipamento de segurança requer bem mais que minha companhia simplesmente. Para isso lhes apresentarei meu mais novo amigo e confidente, o Sr. Alex Honnold, maior escalador de altas montanhas da história e candidíssimo a louco da década por praticar sem cerimônia esse que é considerado por muitos o esporte mais perigoso do mundo.

Ele e tantos outros de vocês, loucos, que não se incomodam em escalar montanhas com ou sem cordas, são dotados de várias qualidades e atributos que os capacitam para tal feito. Esmiuçarei os principais deles a seguir: O medo, a resiliência e a paixão, o triângulo amoroso perfeito para se escalar montanhas com ou sem cordas ou simplesmente girar independentemente sobre o eixo em que está montado, sem comunicar a rotação a este.

Medo

Comecemos por aquela que talvez seja a mais enigmática das emoções (o medo). E sendo uma emoção, não pode ser evitado, no entanto os meus amigos que ousam escalar livremente aprenderam a lidar com ele conhecendo-o, estudando-o, descobrindo como e o porque de sermos acometidos por ele, e quando ele chega, como não nos surpreendermos.

O predador então se torna a presa. Nenhum de vocês podem evitá-lo, mesmo que de mãos dadas comigo, mas podem se preparar para quando ele os assombrar, através de treinamentos físicos, técnicos e psíquicos constantes e quando se depararem com ele possam transformá-lo em algo conhecido como “coragem”.

Resiliência

Palavra por vocês pouco conhecida e menos ainda proferida, talvez por medo de não poderem cumpri-la.

Resiliente é um termo originário da física e da química, para definir alguns materiais que acumulam energia quando submetidos a estresse sem ocorrer ruptura. Adaptado para vocês humanos, diz-se resiliente daquele indivíduo capaz de suportar situações adversas, obstáculos, problemas e intempéries sem sucumbir ao estresse emocional e nem entrar em surto psicológico. Os resilientes se adaptam, buscam a melhor estratégia, a melhor rota a seguir, dominando seu sentimento de medo, sua falta de perspectiva e muitas vezes aprendem com essas situações de desafio.

Qualquer semelhança com o ato insano de se escalar uma montanha sem cordas ‘’não’’ é mera coincidência.

Paixão

Pathos ou path, palavra grega que significa paixão, excesso, sofrimento, doença. Como em Paixão de Cristo (sofrimento de Cristo).

A paixão é minha irmã legítima, nascemos no mesmo dia e hora inclusive, mas não dividimos a mesma placenta (a intensidade), somos gêmeas fraternas ou bivitelinas, que diferente dos gêmeos univitelinos, somos parecidas em alguns aspectos, mas não iguais. Assim, fomos criadas distantes uma da outra e eu me tornei a filha ou a irmã bastarda. Por vezes nos encontramos às escondidas e passamos um tempo juntas, encontro esse que é sempre passageiro, dura entre seis, dezoito a no máximo vinte e quatro meses.

Hoje, meu caro, a ciência definiu através de comprovações confiáveis que a paixão (minha irmã) é também um processo patológico, bem como eu fui diagnosticada desde sempre. Segundo cientistas, áreas de seus cérebros são ativadas com maior ou menor intensidade durante o processo de apaixonamento. Neurotransmissores como a dopamina por exemplo se mostram altamente ativos gerando grandes doses de motivação, energia, vontade e prazer.

Os níveis de serotonina cerebrais caem drasticamente durante a paixão, assim como também acontece durante o processo de transtorno obsessivo compulsivo (TOC). Quando vocês estão apaixonados tendem á atitudes obsessivas e compulsivas com relação á pessoa ou objeto de sua paixão. Seus níveis do hormônio cortisol, associado á respostas rápidas ao estresse se elevam, ocasionando euforia, ansiedade, insegurança (ciúmes rs rs rs), perda de apetite e hipervigilância (ausência de sono).

E por último e não menos importante, a paixão causa a inibição das estruturas pré-frontais de seus cérebros que são responsáveis por suas tomadas de decisões plausíveis e refletidas, sob efeito da paixão ou do álcool que também causa desajuste do córtex pré-frontal, vocês tendem a tomar decisões que em condições naturais não tomariam normalmente (bêbados conhecem bem esse efeito rs rs rs). E tudo isso está diretamente associado às características detectadas durante as demências (loucuras rs rs rs).

Em suma sob a ótica da ciência, a paixão é um estado hipermotivacional, de demência temporária, com caracteres de estresse, obsessão e compulsão (TOC), mas sempre passageira, dura entre seis, dezoito a no máximo vinte e quatro meses.

Bom, é isso, caso um dia me reconheçam em vocês, nem que por breve instante, seja lá qual for suas atividades prediletas, e lhes dirigirem a palavra invocando meu nome, contentem-se, vocês estarão girando independentemente sobre o eixo em que foram montados, sem comunicar a rotação ao mesmo, e isso significa escalar (viver) livre e intensamente a sua ‘’própria’’ vida.

Nos esbarraremos por ai, e espero que não me ignorem.

Os manicômios foram construídos para que os que estão fora deles se julguem normais
– M.Foccoault

Referências bibliográficas

  • O Elogio da Loucura de Erasmo de Roterda 1511
  • A Natureza do amor de Donatella Marazziti 2007

Rui Paulo é escalador, formado em educação física e trabalha como Personal trainer na região metropolitana da cidade de São Paulo

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