Leitura de vias de escalada: Como é esta arte de escalar com a mente?

Este artigo nos chegou graças ao nosso parceiro escaladagranada.es O artigo foi traduzido e possui bons conselhos.

Entendemos como leitura de via, ou a prática da imaginação e criação de uma experiência na mente e realização de uma habilidade a partir de uma representação cognitiva, para preparar-nos para uma posterior realização da atividade propriamente dita e, finalmente, realizá-la fisicamente. Para isso realizamos um esquema mental que somente imaginamos o percurso da escalada, mas também as sensações que iremos experimentar quando tentarmos.

Após a visualização buscamos criar um esquema de aprendizagem que se supõe uma pesquisa à partes da memória sobre informações armazenadas, as quais implicarão ao máximo número de sentidos possíveis para, desta maneira, chegar à visualização de um gesto sem necessidade para conduzir o foco principal ao objetivo.

Foto: http://alexchapmanclimbing.com/

Este é um aspecto muito importante a saber para melhorar o rendimento de um escalador, isso porque minimiza a margem de erro e o grau de incerteza. Além disso foca a atenção nos aspectos mais importantes da situação e melhor o ritmo de execução que, por sua vez, diminui o tempo de escalada além do gasto energético. Portanto, em geral, melhora a eficiência da escalada.

Funções da prática da imaginação

Geralmente utilizamos a prática da visualização para adquirir uma nova técnica, ou para corrigir e reforçar alguma que dominemos.

Devido a situações que sempre mudam na escalada (ou seja, que nunca encontramos um movimento idêntico ás vias anteriores) e a incerteza que sobre o que encontraremos, podemos dizer que encontramos algumas “habilidades abertas” e que, por isso, não podemos automatizar nem lembrar movimentos concretos e específicos para o planejamento da via.

Levando em conta isso, devemos partir da ideia de que devemos realizar uma visualização específica para cada parte da via que desejamos realizar.

Podemos aplicar a prática da visualização em diferentes situações, como as abaixo:

  • Estabelecimento dos objetivos
  • Correção de erros
  • Preparação prévia para o exercício
  • Criação de uma rotina
  • Recuperação de lesões
  • Relaxamento prévio para um exercício

Fatores influenciadores

  • 1 – Nível de ativação (excitação)

Entendemos como excitação o nível de ativação, tanto fisiológica como psicológica, existente em um indivíduo. Isso pode ser desde o nível mais baixo (dormindo ou em coma) até o mais alto grau de excitação.

Um vez estabelecido estes extremos, devemos entender que o nível adequado de encontrarmos é o ponto intermediário entre estes pontos. Isso porque devemos ter a hipótese do “U invertida”, fazendo alusão do progressivo aumento da eficácia na execução conforme aumenta a excitação, mas se superarmos há uma alta que se produz, em detrimento progressivo da tarefa que diminuiria a eficácia.

Em contrapartida um nível de ativação baixo pode fazer com que não realizemos a tempo uma ação, ou até mesmo não nos  atentemos a todos os estímulos que se apresentam na tarefa. Isso também em alto nível podemos encontrar sintomas de estresse, ou ansiedade, que fazem com que aumente a taxa de batimentos cardíacos e, por isso, realizemos mais tensão nos músculos, não podendo focar a atenção ao que é verdadeiramente importante na situação. Desta maneira gastamos mais energia para realizar o restante da atividade.

É importante destacar que cada nível de excitação é diferente, dependendo de cada indivíduo e suas características. Geralmente, mesmo que o nível ideal seja somente um ponto intermediário, não é o ponto da continuidade e é um intervalo que nem sempre se encontra no centro ( Y. Hanin (1965), Teoría de la Zona Óptima de Funcionamiento).

Como conseqüência do item anterior, devemos manter um estado de ativação que nos permita escalar tranquilos, mantendo uma taxa de batimentos cardíacos normal e controlando a respiração. Isso fará com que nos situemos em um estado de relaxamento, mas quando tenhamos um nível de ativação suficiente para poder responder a todos os estímulos existentes é possível dar uma resposta a eles  o mais rápido possível.

  • 2 – Nível de Concentração

O nível de concentração é a focalização de toda a atenção nos aspectos relevantes de uma tarefa, ignorando tudo, (Lorenzo (1992)).

Ao escalar encontramos numerosos agentes, tanto internos como externos, e que devemos focalizar nossa atenção. Isso porque o mais importante no momento de realizar uma hierarquia de prioridades no momento de focar-las para, desta maneira, conseguir nos anteciparmos a elas e, sobretudo, ignorar as que não são relevantes.

Segundo Niedeffer (1976), podemos diferenciar uma atividade dependendo da amplitude e da direção do foco de atenção.

http://escaladagranada.es/

Para finalizar, é importante dizer que existe uma relação entre a concentração e o rendimento. Nesta relação é necessário um bom grau de concentração para otimizar o rendimento no momento de escalar e alcançar o êxito. Isso nos permitirá concentrarmos as atenções nas partes importantes de uma via, ou boulder, conseguindo desta maneira encaixar todos os movimentos sem cometer erros.

  • 2 – Grau de concentração

O grau de concentração é o estado interno que ativa, conduz e mantê o comportamento. É o que faz um sujeito atuar de uma determinada maneira, mas que sem dúvida com qualquer atividade a motivação será um dos pilares fundamentais para cumprir um objetivo.

Devemos diferenciar a motivação em dois tipos:

  • Motivação intrínseca: O objetivo é o próprio prazer, ou interesse pessoal, para realizar algo
  • Motivação extrínseca: A conduta é realizada devido a situações externas, que não se encontram dentro da pessoa

Na escalada apreciamos ambas as motivações: nos movemos por nossas sensações e vivências na hora de escalar, mas também aproveitamos de todo  o entorno que nos rodeia, junto com todos agentes externos que encontramos nele.

Para a realização de qualquer esporte é fundamental desenvolver a motivação intrínseca. Necessitamos buscar novas metas, sempre buscando a satisfação pessoal, mas também é necessário a  criação de objetivos, tanto a curto como a longo prazo. São eles que influenciam unicamente na atuação do indivíduo.

Seguidamente encontramos os cenários de competição, nos quais o indivíduo encontra um elemento de desafio e competitividade contra outros colegas. Mas isso nem sempre pode ser uma coisa boa, pois, na minha opinião, devemos buscar nossas próprias realizações e observar nossa própria progressão para conseguir esta motivação intrínseca.

Tomada de decisões e antecipação

A tomada de decisões, como mencionei anteriormente, possuímos habilidades que dependem de situações aleatórias e devemos toma-las constantemente. Temos um amplo repertório de movimentos, mas o que é recomendavel treinar é o maior número de movimentos possíveis. Isso para tentar automatizar certos padrões que às vezes aparecem repetidamente, mesmo que não sejam idênticos, assim como aqueles que possam aparecer como novos.

Independentemente disso devemos ser capazes de resolver problemas o mais rápido possível durante e depois da visualização para conseguir uma maior eficácia no momento de realizar certas passagens.

Foto: http://squad.southamptonclimbingwall.co.uk/

A antecipação é muito importante para que nos antecipemos aos seguintes movimentos em uma sequência de uma via. Isso porque desde um descanso até começar uma sequência diferente. Caso seja a mesma, procurar minimizar o tempo de escalada e economizar energia.

Isso também fará com que escalemos com melhor ritmo, o que faz com que, como mencionado, economizemos energia para enfrentar o que sobra d viia de escalada. A antecipação pode faze com que procuremos menos agarras de pé, para podermos focar a atenção em nossos movimentos enquanto escalamos. Devemos realizar uma estratégia eficiente para enfrentar toda a linha da via.

Farei uma pequena observação também sobre a improvisação. Isso porque devemos saber que mediante a visualização buscamos eliminar, em grande parte, o estado de inquietação. Isso porque sempre devemos tomar decisões novas quando nos encontramos em uma situação a qual poderíamos ter resolvido se fizéssemos corretamente a leitura da via.

Como treinar leitura de uma via?

Para treinar a leitura de uma via (visualização) utilizarei um caso prático:

1 – Visualizar a execução de um objetivo previamente estabelecido. Neste caso sempre devemos usar uma via muito abaixo de nosso nível para começar a treiná-la.

2 – Planejar uma estratégia prévia para começar a escalada, a qual não quer dizer que possa falhar e, por isso, tenhamos de tomar novas decisões durante o percurso.

3 – Usar a técnica de questionamentos, a qual alguém nos coloca um problema e, a partir disso, devemos encontrar a resposta. Devemos tomar decisões em nível cognitivo. É boa solução que nos desenhem sequencias que tenham algum “truque” e seja difícil de descobrir a sequência correta. Isso para que visualizemos diferentes métodos para colocarmos em prática.

4 – Para começar a visualizar uma via devamos ter um alto grau de concentração. Isso porque para analisar tanto os movimentos de uma via de escalada, como também todos os agentes (externos e internos) que aparecem com eles. Isso nos leva a mentar um nível de relaxamento que implique também a ter um grau de ativação suficiente para poder atender a todos os elementos externos expostos durante a via. Para isso é muito importante controlar a respiração e manter uma taxa de batimento cardíaco normal. A partir daí devemos aplicar a visualização desde o início onde estamos, da mesma maneira de quando descansamos para, desta maneira, anteciparmos aos movimentos seguintes.

5 – Memorizar tanto os movimentos a serem realizados como também as partes que nos passaremos. Isso tanto se visualizarmos um percurso novo (nos imaginando em um descanso, por exemplo) quanto em uma parte já realizada (nos imaginando como nos sentimos anteriormente enquanto escalávamos). Por isso sempre que temos de ter um esquema mental para poder nos antecipar aos movimentos e, desta maneira, economizar energia e manter o ritmo e concentração adequados.

Conselhos para colocar em prática

Para colocar em prática é aconselhável realizar exercícios de aquecimento prévios à leitura da via, para estimular e ativar o organismo.

Para começar é recomendavel visualizar a via de escalada por partes, já que se fizer em sua totalidade será muito complexo. Comecemos visualizando uma sessão do percurso e imaginando como realizar, tentando antecipar-se aos movimentos seguintes antes de realiza-los. Isso deve ser feito antes de focar a atenção nas agarras seguintes (mexer os pés antes de mirar para cima, pois devemos saber antecipadamente onde está a agarra de cima e, claro como devemos nos posicionar).

Seguimos visualizando uma seção do recorrido e seus movimentos. Desta vez devemos memorizar os movimentos para, posteriormente, lembrar sem olhar a linha. Podemos desenhar um esquema, ou mesmo decorarmos a sequência, para logo confirmar que estamos fazendo o certo no momento de falar nossa sequência de movimentos.

Começamos a perceber e memorizar sensações. Se em uma via de escalada nova devemos nos imaginarmos realizando todo o caminho, incluindo as sensações. Se for em uma via de escalada conhecida, devemos imaginar como fizemos na tentativa anterior

Fase final: esquema mental completo

Volte a realizar o esquema mental completo de um percurso desde o descanso. Controle a respiração, tanto antes como durante a atividade. Para começar a escalada desde o chão, ou mesmo de um repouso, é recomendavel contar três vezes as ventilações no momento de respirar e, desta maneira, começar a escalar na terceira expiração. Isso criara um padrão que realizaremos sempre e nos ajudará a relaxar, além de controlar nossa respiração para baixar o ritmo cardíaco.

Importante memorizar tudo da via: movimentos, colocação dos pés, agarras de costura, descansos…

Uma vez que conseguir tudo, poderá tentar realizar a linha com os olhos vendados (no caso de escalar, é recomendavel fazê-lo de top-rope, mesmo simulando a passada de corda). Faça primeiramente por partes da via para, posteriormente, realizar de maneira completa.

Como curiosidade: alguns atletas usam padrões como “rituais” e “manias”, antes de realizar uma atividade. Isso para conseguir maior grau de relaxamento e concentração. Sempre realizam a mesma sequência de movimentos antes de começar a realizar sua atividade.

Tradução autorizada de Escalada Granada

Mídia digital dedicada ao mundo do esporte em geral, e mais especificamente à escalada esportiva. Com linha editorial baseada na pluralidade de opiniões e variedade de informação.

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