Adventure Sports Fair 2016 – Faltou organização e aventura em evento marcado pela falta de identidade

Na última semana aconteceu na cidade de São Paulo a Adventure Sports Fair, considerada a mais relevante feira de esportes outdoor do Brasil, em novo local e data (tradicionalmente acontecia no primeiro semestre), após passar  por um hiato de mais de 2 anos desde a sua última edição. O período sem a realização, segundo alegaram seus organizadores, foi atribuído à grave crise financeira que existe no país, .

Portanto desde 2014, no Brasil, não acontecia um evento que pudesse reunir as grandes marcas, fabricantes, personalidades, veículos de informação e adeptos de esportes de natureza. Por tudo isso a edição de 2016 era aguardada com ansiedade e apreensão pela comunidade outdoor como um todo.

No total foram 5 dias de evento com atrações para o público visitante (sobretudo iniciantes e leigos), mas também marcado pela ausência de quase todas grandes marcas de equipamentos outdoor que atuam no Brasil. Esta ausência refletiu sobretudo nas palestras e oficinas realizadas que priorizaram o conteúdo promocional de personalidades televisivas. Palestrantes vinculados a sites sem identidade e credibilidade no universo outdoor foram priorizados sobre outros temas mais relevantes.

Como toda e qualquer feira de negócios houve pontos positivos e negativos. Estes acertos e erros necessitam ser analisados com cuidado para qualquer um chegar a uma equilibrada e sóbria conclusão.

Foto: Antis Outdoor

Foto: Antis Outdoor

Pesquisa de opinião

A reportagem da Revista Blog de Escalada realizou uma pesquisa verbal com vários visitantes, além de inúmeros palestrantes e lojistas, tanto no dia da estréia (feriado de 12 de outubro) quanto no penúltimo dia (sábado, 15 de outubro). As respostas seguiam o mesmo tom : todo o potencial da feira não foi usado e havia uma indisfarçável perda de identidade com o que é o mercado outdoor e com os praticantes.

Mesmo as opiniões mais otimistas a respeito da Adventure Sports Fair muitas convergiram, cada qual à sua maneira,  na conclusão de que é necessária uma releitura dos objetivos da feira além da sua abordagem na organização do evento. Foram apontadas a todo o tempo a ausência de grandes marcas, esportistas de renome e descaso com a importância das oficinas e palestras realizadas no evento. A estratégia de chamar a atenção do público não praticante chamando personagens de programas televisivos foi considerada deselegante e evidenciando a miopia de mercado dos idealizadores.

Quando questionada pela reportagem a maioria das pessoas também afirmou que havia preocupação excessiva, por parte da organização, com a parte de turismo e pouquíssima, para não dizer nenhuma, com a prática de esportes e atividades outdoor. Este tipo de observação evidenciou que a teoria da pirâmide do turismo de aventura parece não refletir a realidade e por isso sufoca a relevância do evento. A teoria, que foi elaborada com questionável embasamento científico e estatístico, não é usada para grandes eventos mundiais do mercado outdoor como a Outdoor Show, na Alemanha, e a Outdoor Retailer, nos EUA (esta realizada em duas edições : Janeiro e Agosto).

Foi revelado reservadamente à reportagem que, pelos poucos profissionais que representavam produtos outdoor, a Adventure Sports Fair talvez esteja sem norte por falta de com o que comparar-se. Hoje é considerada a maior por ser a única e não necessariamente por ser de fato, e de direito, grande. Há visivelmente uma falta de sensibilidade com o mercado outdoor que evidentemente não condiz com a realidade mundial.

Durante conversa com alguns palestrantes foi confidenciada que a insistência em práticas de marketing obsoletas pode ser comparada à tática suicida do técnico de futebol Luis Felipe Scolari utilizada no jogo Brasil x Alemanha na Copa do Mundo de Futebol de 2014. Assim como a seleção brasileira, segundo relataram, a feira corre sério risco de tomar o seu 7×1 por confiar em visões deturpadas de publicitários e marqueteiros que vivem fora da realidade.

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Foto: divulgação ASF

Pontos Fracos

Com a organização mais preocupada em aparecer na mídia, do que com os praticantes de esportes outdoor, é, sem sombra de dúvida, o principal defeito a ser apontado na edição de 2016. Havia muitas personalidades televisivas e poucos praticantes relevantes, o que caracterizou acentuadamente o afã de ser adotado pelo mundo pop. O grande potencial que o evento possui para confraternizações entre os praticantes foi ignorado com o pueril objetivo de idolatrar pessoas que sequer são montanhistas de verdade. Não houve sequer um coquetel de lançamento entre os lojistas, palestrantes e organizadores como nos anos anteriores.

Inegavelmente as atrações para o público leigo são importantes para entregar vivências das atividades, porém são oferecidas as mesmas de sempre: tanque de mergulho, pista de snowboard e apresentações de slackline. Nada de realmente novo foi oferecido. Estas mesmas atrações também fazem parte de outros eventos que sequer possuem identidade com o universo outdoor.

Sobravam  stands com produtos sem qualquer relação com o universo de esportes outdoor como, por exemplo, spray de pimenta e artigos militares. Mesmo sendo a Adventure Sports Fair uma feira que tinha o objetivo de concretizar negócios, ignorou fatos relevantes em detalhes que fazem a diferença para cada visitante :

  • Havia stands de lugares turísticos, mas não havia sorteio de pacotes promocionais
  • Havia agências de viagem, mas sem promoções ou descontos
  • Havia automóveis, mas não havia preocupação com patrocinar, ou divulgar, expedições
  • Havia espaço para campismo, mas nenhuma barraca à venda ou para sorteio
  • Haviam empresas, mas não possuíam representantes do marketing para fechar negócios
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Foto: divulgação ASF

A Adventure Sports Fair cometeu o equívoco administrativo de deixar o evento ser planejado apenas por profissionais de marketing, mas com pouca, ou nenhuma, experiência em atividade física ou turística (urbana ou outdoor). Houve excesso de soberba por parte dos responsáveis pela organização que insistiram erros básicos como pesquisar o perfil do público participante, para, desta maneira, saber de antemão quais os mais relevantes veículos e pessoas poderiam estar na feira.

Muitas alianças equivocadas foram feitas em nome de algo que, seguramente, não foi para ajudar na divulgação da feira e sim para privilegiar este ou aquele veículo ou marca. Houve, portanto, falta de identificação de quem de fato seria destinada a feira e de como é o verdadeiro perfil de os praticantes de qualquer atividade outdoor no Brasil.

O descuido com detalhes, além da falta de sensibilidade, pode ser visto pela seguinte imagem : Na feira havia um enorme stand do Greenpeace mas em todo o espaço do evento não havia nenhuma coleta seletiva de lixo. Muitos stands de veículos motorizados e pouca divulgação de atividades na natureza como trekking, camping selvagem, canoagem, etc. Houve workshop para tentar ressuscitar as corridas de aventura, mas nenhuma de corrida de montanha, hoje um esporte em ebulição, não havia nenhum interesse.

Em contrapartida houve alguns problemas que não podem ser somente colocados nos ombros da organização da feira como, por exemplo, várias deficiências de sinalização do novo edifício da São Paulo EXPO, que parecia inacabado em vários aspectos e, mesmo assim, cobrando valor absurdo (R$ 40,00) pelo seu estacionamento. Para se ter uma ideia da falta de noção do que é razoável, o valor cobrado é o dobro do praticado por Shoppings Centers na cidade de São Paulo.

A infra-estrutura oferecida pela São Paulo EXPO mostrou-se precária, entregando às palestras e oficinas tecnologia defasada em pelo menos 10 anos e que, obviamente, prejudicou o andamento de várias. Chegou-se ao absurdo de não oferecer internet ou sinal de Wi-Fi para quem estivesse nas oficinas ou palestras.

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Foto: Divulgação asf

Pontos Fortes

Todo evento possui tanto um lado positivo quanto um negativo e com a Adventure Sports Fair não poderia ser diferente. Inegavelmente a magnitude do espaço  destinado impressiona ao mais cético dos visitantes.

Avaliando apenas o espaço físico e os serviços disponibilizados ao visitante (com exceção à estrutura destinada à palestras e oficinas) não tem com não ficar boquiaberto com a dimensões de tudo : estacionamento, restaurantes, banheiros, etc.

Não houve stands minúsculos e mesmo o mais pequeno espaço eram de proporções que cabiam várias pessoas interagindo com as pessoas ali trabalhando.

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

There are 6 comments

  1. Daniel Dacol

    Eu não fui na feira, mas todas as pessoas que foram, que eu conheço, fizeram críticas. Não vi ninguém satisfeito…
    Agora tenho algumas dúvidas:
    A falta de diversos operadores de turismo é devido a que, preço para expor?
    A falta de fabricantes de equipamentos esportivos é devido a crise?
    A falta de palestrantes renomados só que menos conhecidos é devido ao perfil da feira?

    Ou será que o mercado de esportes outdoor no Brasil é muito pequeno e falta de interesse na feira se deve a isso?

    Muitos que lá não estiveram, com certeza tem seus motivos para não querer expor na única feira do segmento no Brasil, qual é o real motivo que os levaram a isso?

    grande abraço
    Daniel Dacol

  2. Case

    Foi triste mesmo a primeira coisa que me chamou a atenção (Negativamente) foi a quantidade excessiva de espaço destinado a veículos 4×4.

    O que ajudou o evento foram as oficinas, assistia uma dava umas voltas na feira, assitia outra, subia a parede de escalada… e por ai foi.

    Vamos esperar que em 2017 haja mais interesse de grandes marcas de Outdoor invistam e com isso possam oferecer uma feira melhor.

  3. Luiza Campello

    Pois é Luciano, concordo em vários pontos (praticamente todos!). É uma pena ver a feira que já foi a principal representação do setor se perdendo em tantos aspectos. É lamentável e ruim para todo mundo.

    E lendo outros textos de blogueiros parece que todos tiveram uma mesma visão. Você não achou tbm que o espaço das palestras do Congress ficou prejudicado por estar tão distante? Me informaram que algumas palestras (assim como algumas oficinas) ficaram vazias! :(
    Quero ver quem vai pagar para ver a próxima edição, que inclusive já tem Data (out/2017) e Local (o mesmo!) definidos.
    Para min o custo de ir do Rio até Sampa para a feira não compensa…

    1. Natalia De Marco

      Pois é Luiza, e o mais triste é eles falando que a feira foi um sucesso. Da nossa palestra não podemos reclamar porque tinha muita gente, mas oficinas de nossos parceiros, que eram muito interessantes, estavam vazias, o que mostrou que o publico lá não tinha interesse em esportes outdoor de verdade e nem falar da mudança de horários sem avisar aos palestrantes. Fica a esperança de que leiam as críticas e tentem melhorar para o próximo ano.

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