Cinema de montanha e aventura: A história de um gênero que chegou ao Oscar

O cinema de montanha e aventura, um subgênero oriundo do documentário esportivo, normalmente utiliza cenas de ação para mostrar e explorar lugares exóticos e inóspitos, para transmitir experiência e façanhas que superam o que se considerava convencionalmente físico e mentalmente impossível. Tudo isso de uma maneira enérgica e inspiradora.

Aventura, no âmbito do cinema de montanha, não se refere a uma narração relacionada com a ficção ou fantasia, mas sobre histórias reais de feitos reais, as quais, geralmente, existe a busca pelo alcance de uma meta esportiva ao ar livre, a qual exige desafios físicos e mentais. Hoje este subgênero de documentários, já possui maturidade e linguagem própria, além, claro, de já possuir grandes diretores que servem de referência para todos os apreciadores do gênero.

O começo

A história do Cinema de Montanha e Aventura se remonta aos princípios do século passado, incluindo aí os Irmãos Lumière. Os irmãos, creditados como os inventores do cinema, buscaram obter imagens panorâmicas de culturas remotas. Auguste Marie Louis Nicholas Lumière e Louis Jean Lumière foram os inventores do cinematógrafo e são considerados os pais do cinema. A primeira projeção pública de apresentação do invento ocorreu a 28 de Dezembro de 1895 na primeira sala de cinema do mundo, o Eden (o qual existe até hoje).

Mas talvez o filme “Cervino”, um curta-metragem de 6 minutos de duração, gravado em 1901, no qual um grupo de três alpinistas, provavelmente guias, que saíram de Zermatt e escalaram o Matterhorn pelo lado Suíço, tenha sido o primeiro filme de montanha da história. Como a montanha está na divisa entre Suíça e Itália, é conhecida pelo lado italiano como Monte Cervino (que deu origem ao nome do curta). O autor do filme (que pode ser assistido abaixo) é desconhecido, mas especula-se que poderia ser Franck Ormiston-Smith, um jovem francês pioneiro do cinema de montanha.

Herbert Ponting também captou imagens de uma aventura ao ar livre, quando acompanhou o capitão Robert Scott em sua expedição de 1911 à Antártida. Scott foi um oficial da Marinha Real Britânica e um explorador que liderou duas expedições à Antártida.

Anos mais tarde, em 1914, Frank Hurley, fotógrafo oficial da expedição à antártica de Ernest Shackleton, também levou uma câmera de cinema para criar o filme “South” (1919). O filme pode ser assistido no vídeo abaixo.

Também nas primeiras décadas do século passado, com o filme Grass (1925), Merian C. Cooper e Ernest Schoedsack não somente trabalharam na produção do filme “King Kong” (1933), mas também com com cinema de aventura. Isso para chegar às montanhas do Iraque e às exóticas selas da Tailândia.

Uma outra vertente, agora cinematográfica e antropológica, Robert Flaherty, considerado um dos “pais” tanto do documentário quanto do cinema etnográfico, levou suas câmeras ao Ártico para capturar a cultura dos Inuit (membros da nação indígena esquimó que habitam as regiões árticas do Canadá).

Eles mesmos se referiram aos cineastas como “os agressivos”, e assim nasceu o filme “Nanook of the North” (1922) (assisa o filme abaixo).

O filme é considerado por estudantes de cinema como a consolidação da ideia de documentário, tal qual temos hoje, apesar de não ser na mesma estrutura atual. Parte das filmagens de “Nanook of the North” foram encenadas para a câmara, e não apenas documentadas espontaneamente. Flaherty era intuitivo e pragmático, mas não era um teórico.

No ano 1930, o cineasta escocês John Grierson tornou-se o maior símbolo do movimento documentarista, desenvolvido na Inglaterra. O movimento reconhecia o filme documentário como gênero autônomo e distinto dos restantes filmes. A partir de então, com os conceitos de Grierson, os quais são utilizados até os dias de hoje, o gênero de documentário foi reconhecido e identificado por cineastas. Inclusive, foi o primeiro a usar o termo documentário e definiu esse tipo de filme como “tratamento criativo da atualidade”.

John Grierson foi o fundador da escola inglesa de documentário, a qual foi responsável pela afirmação institucional do gênero ao lançar as bases para o que hoje se denomina documentário clássico. Grierson foi o responsável por formalizar os documentários como um produto elaborado (não somente contemplativo), atribuindo a ele a função social de instrumento de educação das massas e de formação da opinião pública.

O filme “Drifters” (1929) fala sobre o trabalho dos pescadores de arenque é o único dirigido por Grierson e pode ser assistido abaixo.

Filmes de Montanha

Talvez o mais próximo de um filme de montanha, ainda mais documentando acima de oito mil metros de altura, foi realizado pelo capitão John Noel, que gravou a terceira ascensão britânica no teto do mundo.

Todo filmado no Everest em 1924, o filme “The Epic of Everest” (1924) foi uma produção que buscou registrar detalhes da expedição, captando as primeiras imagens da cultura tibetana nesta época. A cultura tibetana era ainda isolada do mundo ocidental.

O filme “The Epic of Everest” pode ser assistido abaixo.

Todos os filmes citados acima, pertencem ao período do cinema mudo, os quais foram pioneiros do gênero de documentário que, como todos os outros gêneros, foram se desenvolvendo com o tempo. Desta maneira, os documentários de aventura e esporte começaram a abraçar culturas, façanhas, superações, explorações e experiências que marcaram a história da humanidade na vida real e que, por sua vez, desfizeram a ideia do que era impossível ou ficcional. Isso para que outros possam vê-lo com seus próprios olhos e, desta maneira, sentir-se inspirados.

Apesar de que depois de uma épica, os cineastas focaram nas técnicas de retrospecção e dos sofisticados efeitos especiais. Deixando de lado as viagens a lugares remotos, para começar a criar espaços dentro de estúdios. Assim, o cinema de aventura e exploração continuou por fora de Hollywood, sob as mãos dos criadores independentes.

Hollywood e documentários de aventura

A partir do desenvolvimento tecnológico e dos efeitos especiais para o público de Hollywood, as heroicas façanhas nas montanhas e lugares remotos eram histórias inalcançáveis. Todas pareciam ficção, com heroísmo, adrenalina, drama e amor. Tão irreais quanto o mesmo fundo artificial que usavam.

Partindo desta premissa, podem ser conferidos os filmes “Montanha Sagrada” (1926) e “Inferno Branco em Piz Palu” (1929), ambos do diretor Arnold Fanck. Há ainda “A Montanha Sinistra” (1938) de Edward Dmytryk, “Licença para Matar” (1975) com Clint Eastwood, “Cinco Dias, um verão” (1982) de Fred Zinnerman, “Risco Total” (1993) de Renny Harlin, “Missão impossível 2” (2000) de John Woo, “Everest” (2015) de Baltasar Komakur, “Caçadores de Emoção” (2015) de Ericson Core, entre muitos outros.

Todos seguindo a linha de que na “montanha morava a morte”, ou o “perigo nas alturas”. A mesma linha desde 1926 grande parte dos jornalistas leigos no assunto aposta quando cobrem montanhismo.

Enquanto isso, para a comunidade de montanhistas, escaladores e exploradores, seu tipo de cinema (o de aventura de verdade) era a transmissão de histórias reais, de feitos reais, com os quais se identificavam, apaixonavam e inspiravam. Estava nascendo ali um nicho de mercado e o embrião do que conhecemos como filmes outdoor.

Durante décadas, este cinema resistiu (e ainda resiste) diante das clemências do mercado e do consumo. Há quem diga (erroneamente, claro) que os filmes de aventura e montanhismo devem ir cada vez mais se parecendo com propagandas. Quem assistiu “First Ascent” (2006), “Valley Uprising ” (2014) e “Dawn Wall” (2018) sabe que isso não é verdade. Portanto, foi desenvolvido um espaço um tanto hermético. Não tanto por convicção, mas porque a linguagem era voltada a um nicho. Quem era montanhista entendia facilmente e se identificava imediatamente.

Mas hoje em dia, os filmes de montanha começam a viver uma nova época. Não somente com grandes produções menos sensacionalistas como “Everest” (2015) de Baltsar Kokamur, mas porque o próprio desenvolvimento técnico, artístico e narrativo dos diretores deste nicho, estão tocando as portas de públicos mais diversificados. As histórias que narram, com inspiração, solidariedade e superação, são o motor do filme. Tudo isso para poder tocar qualquer ser humano (seja ele montanhista ou não).

No ano de 1974, o diretor Mike Hoover foi nominado ao Oscar na categoria de melhor documentário de curta-metragem por seu filme “Solo”. O filme documenta os esforços e emoção de um montanhista que escala em solitário.

Atualmente o impacto de uma produção é muito maior que há 40 anos. Os festivais de cinema se multiplicaram. Hoje todos respeitam os produtores, colocando as produções para serem exibidas em salas de cinema (não mais em parques, como na década de 1970). Tendo os filmes projetados em salas de cinema, os produtores se sentem valorizados e reconhecidos. O efeito disso é a crescente qualidade apresentada e o sucesso de público que os filmes começam a atingir, chegando a salas independentes e comerciais.

Jabier Baraiazarra, diretor do Mendi Filme Festival de Bilbao, comentou a um veículo espanhol que “Ainda que o nicho principal do público seja de expectadores “convencidos”, atualmente observo que o público de cinema de montanha é mais heterogêneo. Existe uma audiência oculta, que pouco a pouco vem se aproximando para conhecer mais do gênero, fundamentalmente através dos festivais temáticos e saem fascinada e emocionada das salas”. Baraiazarra também é diretor da Alianza Internacional de Festivales de Cine de Montaña (IAMF-International Alliance for Mountain Film), uma associação criada no ano 2000 e que congrega 23 festivais, de 17 países diferentes nos 5 continentes.

Produções como “Sherpa” (2014) e “Mountain” (2017), ambas da diretora australiana Jennifer Peedom, são dois claros exemplos deste impacto e ampliação do público. Cada vez mais o gênero deixa de ser um nicho, para começar a ser uma realidade. Talvez o momento culminante, até o dia de hoje, tenha sido em 2017. Neste ano o filme “The Dawn Wall”, de Josh Lowell, Peter Mortimer e Philipp Manderla, conseguiram chamar a atenção de um público maior. O filme foi ovacionado na South by Southwest Film Festival, saindo como vencedor do prêmio do público.

O filme tornou-se ainda o maior ganhador de prêmios em festivais de filmes de montanha da história. Unido a este, está o filme “Free Solo” (2018), dirigido por Jimmy Chin e Elizabeth Chai Vasarhelyi. Desde o início de sua exibição, consagrou-se como o filme de aventura e montanha exibido no maior número de salas de cinema da história, despertando interesse de milhares de pessoas, sejam elas montanhistas ou não.

Recentemente, o filme “Free Solo” chegou mais longe. O documentário produzido pela National Geographic narra a épica aventura do escalador norte-americano Alex Honnold em uma escalada em solo integral na via “Freerider no El Capitán. O filme foi indicado ao Oscar de melhor documentário de 2018.

Comparando-a com o filme hollywoodiano “Star Trek V – A última fronteira” (1989) de Willian Shatner, Honnold se lança à aventura, da mesma maneira que o Capitão Kirk, ao escalar o El Capitan em solo integral. Mas desta vez, como muitas outras vezes no montanhismo, a realidade supera a ficção. O norte-americano consegue algo fora de série na história das grandes façanhas esportivas e do que era considerado impossível. Honnold precisou de doze câmeras gravando simultaneamente, evidenciando sua absoluta concentração e habilidade para capturar tudo em uma só tomada (não haveria repetições deste projeto).

Assim, mais de um século depois, nos encontramos no início de uma época em que o cinema de montanha e aventura se reúnem movente com as grandes telas, produções e públicos. Esperamos que esta seja, também, o começo de uma nova era para a inspiração e a fome de aventura nos expectadores. Esperamos que seja um convite para repensar não somente a importância física, aventureira e de entretenimento que nos brinda o ar livre e a montanha, mas também de conscientização das causas e consequências do impacto negativo do homem e sua passagem pelo planeta Terra.

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