Chegando no Tour du Mont Blanc: De cirurgia no joelho a Les Houches

Finalmente chegou o dia de eu começar a dividir com vocês o relato desta grande aventura que foi o Tour du Mont Blanc. Farei alguns relatos separados contando como foi cada um dos dias, o que eu passei em cada um deles e dentro disso, contanto todas as dicas e tudo que vocês precisam saber para fazer o TMB! Um dos relatos extras é este contando como foi a jornada para chegar até o 1º dia de trilha.

É muito difícil começar a contar da minha história do Tour du Mont Blanc sem contar de onde veio a ideia do projeto, sem contar do Abacatinho. Mas o que é o Abacatinho? Esse é o apelido que eu dei ao meu joelho quando ele foi operado em Outubro 2016. Nome para um joelho? Sim! Isso mesmo….

Eu falo que em 2016 foi quando eu comecei a me sentir uma montanhista mais completa. Planejei praticamente sozinha o circuito de Torres del Paine, fiz trilhas praticamente todo final de semana, fui responsável pela navegação de algumas, fiz exploratórias em outras. Eu estava forte e com preparação física como nunca. Até que em Julho tudo mudou.

Foto: Acervo pessoal Thaís Cavicchioli Dias

Acredito muito em questões de energia e, naquele momento, eu estava em uma fase realmente ruim com situações como sem conseguir trabalhar há mais de 6 meses, meu relacionamento da época tinha se transformado em manipulações patológicas, falta de dinheiro, enfim… minha energia interna não estava boa. Foi quando, em um tombo durante um treino funcional, meu corpo decidiu reagir a isso e o ligamento cruzado anterior do meu joelho direito rompeu (além de uma lesãozinha de menisco).

Demorei 1 mês para descobrir que teria que operar o joelho e ficar ao menos 6 meses longe do que eu mais amava e mais me fazia bem: as montanhas. Porém, durante esse 1 mês, a vida já estava me preparando para poder passar por isso e eu consegui voltar ao mercado de trabalho e o meu relacionamento ruim tinha finalmente terminado. De alguma forma, eu voltava a me sentir em paz.

Lógico que quando eu tive a consciência de que iria operar, o meu mundo caiu, mas eu levantei pouco depois de terminar de chorar e falei para mim mesma: não vou deixar isso roubar a paz que eu acabei de reconquistar, e então criei uma estratégia para manter minha mente e alma bem para que então meu corpo pudesse se recuperar. Negociei no trabalho que a cirurgia aconteceria em outubro para que eu pudesse receber alta em Abril e retornar às montanhas junto com o início da temporada.

Foto: Acervo pessoal Thaís Cavicchioli Dias

Conversei com algumas pessoas que haviam passado por uma cirurgia parecida e se realmente haviam se recuperado em 6 meses. Todas disseram um “sim”, com aspas mesmo. Isso porque depois que elas recuperavam boa parte de suas vidas normais e os processos da recuperação se tornavam mais simples, elas começavam a fazer corpo mole. Decidi que não poderia deixar isso acontecer comigo e precisava então de um projeto que me não demorasse muito e me mantivesse motivada.

Veio então o Projeto Tour du Mont Blanc em Agosto! Agosto era o mês… Um dos melhores meses para fazer o TMB lá na Europa já que chovia menos, já poderia tirar férias lá no trabalho novo e seriam 4 meses para recuperar a minha condição física e preparo depois da cirurgia. Além disso, o TMB foi escolhido porque seria algo que eu já teria condições de ir sozinha! Sim! Sozinha… Seria a primeira trilha que faria sozinha na vida, mas depois de pensar que poderia ter feito Torres del Paine sozinha, esse era meu próximo passo como Montanhista Independente.

Pronto! Era só esperar 2 meses pela cirurgia (esses foram mais fáceis porque eu pude continuar trilhando usando um imobilizador), seis meses de recuperação focada para a alta, 4 meses de treinos intensos e em 1 ano eu realizaria meu maior projeto: percorrer mais de 170 km, ganho de aclive de mais de 10.000 metros, cruzando três países ao redor do maciço do Mont Blanc e tudo sozinha!

Foto: Acervo pessoal Thaís Cavicchioli Dias

Foi então que logo após a cirurgia, surgiu meu companheiro para esta aventura. A primeira semana é a mais difícil e eu sofri muito. Até que em um dos dias, eu estava ali olhando aquela coisa gigante e esverdeada, fazendo carinho e pedindo para que ele parasse de doer e ficasse bom logo e então eu percebi “Nossa, parece um abacate” e então ele foi personificado e se tornou o meu Abacatinho – meu parceiro de dor, de fisioterapia, de recuperação e de Tour du Mont Blanc.

Foram realmente 6 meses de uma recuperação focada com mais de 130 sessões de fisioterapia, natação, fortalecimento, subidas em escadas controladas, esteiras até que chegou Abril. O acordo com o médico era fazer o exame de força e se eu tivesse nota entre 7,5 e 8,5, eu estaria liberada para começar a trilhar. Abacatinho estava super forte e ele tirou 9,2. Uma nota absolutamente não esperada para 6 meses pós cirurgia, isso foi graças ao super foco na recuperação. Decidimos com o médico continuar o fortalecimento na fisioterapia até a viagem, seguiria usando o imobilizador para proteger e eu voltei para as montanhas para alegria do coração e para garantir que eu estivesse preparada para o que eu iria enfrentar.

Foto: Acervo pessoal Thaís Cavicchioli Dias

E como eu sabia o que eu iria enfrentar? MUITA pesquisa pelo wikiloc. O TMB possui mais de 30 pontos diferentes para pernoite ao longo de seus 170 km e você pode decidir fazer dias mais longos ou mais curtos. Meu objetivo era fazer o clássico de 11 dias e eu avaliei o quanto eles eram pesados pelos gráficos do wikiloc. O objetivo era fazer trilhas no Brasil ao longo destes quatro meses que pudessem me aproximar do que eu iria enfrentar lá. Como lá tudo era muito mais pesado do que eu poderia experimentar aqui, eu fazia os treinos levando mais peso do que eu teria na Europa.

Como o montanhismo surgiu na Europa muitos anos atrás, ele já é bem mais desenvolvido e os clubes alpinos possuem bons refúgios ao longo das montanhas. Além disso, o TMB passa por alguns vilarejos nos vales das montanhas que também tem oportunidades de acomodações. Com isso, não valia a pena carregar o peso extra de barraca/saco de dormir, ainda mais que acampamento selvagem é proibido por grande parte do trajeto e eu li e conheci relatos de pessoas que tiveram que pagar multa por dormir em lugares proibidos. Com isso definido, minha mochila deveria seguir com peso aproximado de 10kg, então eu trilhava sempre com ela em torno de 18 kg.

Se eu conseguia fazer os mais pesados da Mantiqueira com 18 kg, eu deveria conseguir fazer o TMB com menos, certo?

Foram 4 meses com essa mochila super pesada nas costas e o Abacatinho aguentando bem! Fiz alguns treinos sozinha na trilha do Pai Zé (Pico do Jaraguá- SP) para ver como eu me sentiria e levamos com a gente o Zinho! Esse seria o 3º elemento do time no TMB: meu mini ursinho de pelúcia que me acompanha em toda viagem que faço sozinha desde a 1ª vez que andei de avião quando fui para a Europa em 2007.

Com os 3 prontos: Eu psicologicamente preparada para 11 dias de trilha sozinha, o Abacatinho forte suficiente para nos levar montanha acima e abaixo e o Zinho com sua mochila feita especialmente para levar chocolates suíços, partimos para a Europa.

Foto: Acervo pessoal Thaís Cavicchioli Dias

O TMB, como trilha circular, pode ser começado por diversos pontos e em minhas pesquisas, descobri que o tradicional era em um vilarejo próximo da famosa Chamonix que se chama Les Houches. Na falta de informações de onde era melhor começar, decidi seguir com o tradicional… no último dia de trilha entendi que ali era realmente o melhor lugar para começar (fica o suspense para o relato do 11º dia). Como o TMB em si não passa por Chamonix (a cidade fica em um vale, enquanto a trilha segue pela crista da montanha ao lado do vale) o plano era ir direto para Les Houches.

O Aeroporto mais próximo para chegar em Chamonix/Les Houches é o de Genebra na Suíça. Não encontrei voos diretos então foi analisar as diversas conexões possíveis e eu acabei seguindo com uma opção, a princípio, ilógica: Istambul: O voo da Turkish Airlines não era apenas o mais barato, mas ele também me proporcionava algo único: chegar na Suíça já descansada. Alguns voos com conexões acima de 10h, tem direito a pernoite em hotel + transfers. Dessa forma, eu chegaria em Les Houches já descansada do voo transatlântico e pronta para começar a trilhar.

A conexão em Istambul tornou-se uma experiência a parte nesta jornada “solitária”. Já em Guarulhos para embarcar eu cruzei com uma mulher em sua burca, coberta com tecido preto da cabeça aos pés, apenas seus olhos mostravam quem estava ali dentro. Eu, na esperança de fazer a primeira amizade nessa aventura, sorri. Ela, sabendo que seus olhos não poderiam responder à altura, soltou o passaporte de uma das mãos e me acenou ainda tentando apertar os olhinhos para passar um sorriso em retorno. Ali estavam duas mulheres de culturas tão diferentes, simplesmente, se conectando.

Não cheguei a conseguir este tipo de conexão com as outras mulheres que cruzei pela Turquia, mas foi muito especial ver como cada uma era feliz dentro do que decidia seguir. Vi em uma mesma família, mulheres seguindo as tradições do lenço de formas tão diferentes. Desde o 100% preto/coberto até aquelas que só usavam um lenço colorido ao redor dos cabelos que nem os cobria direito. Todas juntas, todas (ao menos pareciam) felizes da forma que estavam e todas aceitando como a outra estava seguindo o que deseja ser, a forma como desejava respeitar e homenagear a sua cultura. E eu lá… Ocidental com uma roupa estranha de trilha indo para o meio da montanha sozinha.

Foi um presente que a conexão me proporcionou e foi quase tudo bem. O único problema de fazer conexão em Istambul é que eles são MUITO mais severos com segurança no aeroporto. Me obrigaram a tirar o imobilizador algumas vezes e acho que pensaram que meu excesso de pilhas poderia ser para uma bomba (estava levando quase 100% dos itens do TMB na bagagem de mão). Independente disso, deu tudo certo e em poucas horas eu estaria nos Alpes suíços.. Ou seriam os franceses? Os dois!

Foto: Acervo pessoal Thaís Cavicchioli Dias

Do avião, foi possível ver as famosas montanhas de cumes nevados e então finalmente cheguei em Genebra. Eu havia me programado para comprar alguns snacks para a trilha quando chegasse em Les Houches, mas a mocinha que eu conversei esperando as malas, me explicou que os mercados fecham aos domingos e que era melhor eu comprar no mercado que havia na estação de trem junto ao aeroporto. As malas demoraram, corri ao mercadinho, comprei minhas “besteiras-com-nutella” e corri para quase-não-perder o transfer.

A região de Chamonix é repleta de turismo o ano todo. No inverno são incontáveis estações de esqui enquanto no verão as mesmas montanhas são escaladas pelos grandes e pequenos (como eu) montanhistas do mundo, então existe um serviço estruturado de transportes entre o aeroporto e lá. Eu fechei o meu com Alpybus que cobra 60 euros, te deixa na porta do lugar que vai na ida e pega na porta (pode ser outro lugar na volta), e além que pode escolher diversos dos vilarejos que existem na região de Chamonix. Cheguei a tempo!

Fui a última a chegar e então o único lugar disponível na van era lá na frente ao lado do motorista. A princípio pensei que poderia ser ruim ou desconfortável, mas que presente que me esperava! A estrada entre Genebra e Les Houches já é nos pés das montanhas e foi logo nesse primeiro contato que eu percebi a grande diferença entre as montanhas dos Alpes e as que estamos acostumados da Mantiqueira: as montanhas lá são MUITO próximas umas das outras o que tornaria todos os cenários lindos, mas todas as subidas/descidas bem mais íngremes.

Em pouco mais de 1 hora, eu fui a primeira a saltar da van em Les Houches, na porta do meu primeiro Refúgio, o Gite Michel Fagot, uma pequena casinha nos pes das montanhas com cara de Hostel que é administrado por uma família com uma linda bebezinha. Primeira coisa que aprendi sobre os refúgios na Europa foi que sempre haverá uma salinha próxima a entrada para colocar as botas. Todas as botas de trilheiros ali reunidas após um dia inteiro de andanças, não era fácil entrar, mas havia uma sensação especial de pertencimento. Os quartos eram compostos de alguns beliches, bem limpo e o chuveiro me deu um banho quentinho com funcionamento bem igual ao que eu tenho aqui em São Paulo. A atmosfera é toda de montanha e praticamente todos ali estão pelo mesmo motivo: Tour du Mont Blanc.

Foto: Acervo pessoal Thaís Cavicchioli Dias

Aproveitei que ainda teria um tempo antes do jantar e fui dar uma volta pelo vilarejo. Tudo parecendo um sonho com as pequenas casinhas rodeadas pelas montanhas e pelo clima de trilhas com todas as lojas de equipamentos. Passei em uma espécie de padaria e provei um pãozinho com queijo e não pude deixar de passar em uma loja de doces e já provar alguns e conhecer o macaron original francês. Comecei a ver algumas pessoas chegando do seu dia de trilha e bateu uma ansiedade ao pensar que amanhã seria eu terminando meu dia de trilha em um vilarejo lindinho.

Voltei para o Gite e conheci pessoas que estavam terminando seu último dia do TMB, a Jolene da África do Sul que estava sozinha e iria tentar uma parte do TMB e uma parte da Haute Route, a americana Song que tinha arrastado seu irmão para tentar alguns trechos de trilha e alguns de ônibus e mal sabia eu que a Chloe da Suíça que estava ali no seu 3º dia de TMB poderia se tornar uma grande amiga.

De todas as pessoas que eu conheci nessa primeira tarde/noite o trio de franceses todos com mais de 60 anos foram os que me mais marcaram. Eu falo inglês fluente e arranho espanhol, Uma das senhoras só falava francês, a outra jurava que falava espanhol, mas eu nunca a entendia e o parceiro delas acreditava entender inglês mas também nunca foi possível falar nesta língua com eles. Nos comunicávamos então com sinais, sorrisos e a meia dúzia de palavras que eu sabia falar em francês como “Bom Jour” e “Ça vá?” Que são “bom dia” e “Tudo bem?”. Eles passaram 11 dias cruzando comigo e TODA vez queriam cuidar de mim e se preocupavam como estava o meu “genou” (joelho) por traz do imobilizador.

Dividi com eles minha primeira taça de vinho montanhística e o primeiro jantar-de-refúgio e foi a constatação de que não importava o quanto eu iria andar nessas trilhas, eu iria voltar para casa com quilinhos a mais. Primeiro veio uma entrada com salada bem gostosa e farta com pãezinhos na mesa. Seguida de um suculento frango com legumes e arroz e um sorvete de sobremesa. Encher a pança me ajudou a conseguir dormir porque a ansiedade tomava conta de mim. Mais de 1 ano antes eu tinha decidido fazer essa trilha e finalmente o dia havia chegado. Amanhã eu começo o TMB!


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  • Chegando no Tour du Mont Blanc: De cirurgia no joelho a Les Houches

Tradicional garota da cidade grande (São Paulo – SP) teve seu primeiro contato com trilhas em 2013 no Peru, mas só veio descobrir as belezas da sua vizinha Mantiqueira em 2015.

Apaixonou-se pelas montanhas e passou a se dedicar ao trekking e à escalada por diversos cantos do Brasil além de Peru, Chile, Venezuela, França, Itália e Suíça. Completou os 180 km do Tour du Mont Blanc sozinha após uma cirurgia no joelho.

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