Guia fundamental para tornar-se um excelente parceiro de escalada

Na escalada a relação entre as pessoas transcende a amizade. O relacionamento entre escalador e seu segurador, está em um outro nível que é até difícil a compreensão para quem não está ambientado no esporte. Mesmo em competições, a performance do escalador pode ficar comprometida se este não tiver a devida confiança no segurador.

Esta falta de confiança compromete não somente a realização de algum projeto, mas todo o dia que foi reservado para a prática da escalada. A esta relação entre pessoas, que se dizem “parceiras”, é que está o conceito intangível chamado popularmente de “vibe”.

Diferentemente do futebol, por exemplo, que basta alguém ter uma bola para ser considerado “amigo” e organizar uma partida, na escalada somente possuir equipamentos não torna uma pessoa confiável para um dia de escalada. Desta maneira algum escalador, com o rack da cadeirinha todo equipado não revela a capacidade de ser um bom companheiro, ou parceiro, de escalada. Basta ter um pouco de experiência na escalada, para saber que amigos e parceiros de escalada são duas coisas completamente diferentes.

Para querer encontrar um bom companheiro de escalada, é necessário também ser um bom parceiro. Da mesma maneira que desejar um mundo com pessoas educadas, inevitavelmente passa pela atitude de ser educado sempre. Portanto, buscar ser um bom parceiro de escalada deve-se primeiro, ter preocupações mais profundas do que simplesmente ter um carro disponível para viajar.


Segurança em primeiro lugar

Foto: Rafael Gribel

Um bom companheiro de escalada tem a preocupação fundamental com a segurança. Toda pessoa que deseja estar na escalada deve saber usar corretamente todos os equipamentos de segurança, assim como os procedimentos técnicos. Preferencialmente deve ter ojeriza a qualquer coisa improvisada. Para isso, deve ter feito um curso com um instrutor responsável e reconhecido pela comunidade.

Frases do tipo “sempre fiz assim” (especialmente quando usa um grigri errado), “comigo nunca aconteceu” (quando realiza uma técnica incorreta) ou “aqui não precisa disso” (quando questionado sobre um procedimento incorreto), já demonstram falta de preocupação com a segurança. Pessoas que possuem descaso com a segurança própria, além da do parceiro, não servem para serem seguradores.

Um bom companheiro de escalada, além de se preocupar com a segurança, deve saber de antemão que existem dois tipos de procedimentos: o certo e o errado. Se alguém não está realizando o correto, consequentemente está utilizando o correto. Ao sair de casa um bom parceiro de escalada deve ter a consciência que, sendo ou não “experiente”, ninguém sabe tudo e sempre há algo novo para aprender e descobrir no esporte.

Aquele que deseja ser um bom parceiro de escalada deve, acima de tudo, não ter medo de corrigir alguém que esteja realizando algo errado. Atitudes erradas como jogar lixo no chão, realizar um procedimento errado, colocar som alto na base de uma via, fazer barulho próximo a alguém escalando, desrespeitar propriedades particulares, assim como muitas outras, não devem passar despercebidas. Ser companheiro é completamente diferente de ser cúmplice ou comparsa de crimes ou atitudes desrespeitosas.


Sempre pilhado

 

Um bom parceiro de escalada está sempre querendo escalar, por isso possui aquele desejo de também fazer todos escalarem melhor. Não confundir com o “empolgado”, que pensa que “masturbar o grau” é o único caminho para evoluir. Este tipo de atitude é tão equivocada, quanto acreditar que escalar com ajuda de algum tipo de substância é seguro.

Uma pessoa que sabe as limitações de cada indivíduo, além de compreender que cada um tem seu próprio ritmo de evolução, optando sempre pelo diálogo para incentivar é o que caracteriza um bom companheiro de escalada. A partir desta atitude, de incentivar a todos a sua volta para querer escalar melhor (mas não necessariamente um grau mais forte), é que garante uma evolução natural e prazerosa de todos estão escalando com ele.

Além disso, um bom parceiro de escalada é aquele que sempre está querendo escalar. Não importa o dia, sempre que o chamar para a atividade ele irá encontrar uma maneira de poder ir. Pois para ele a escalada (não somente dar segurança) é um prazer, muito além de uma atividade física qualquer.


Paciente

Foto: https://freeman.com.mx/

 

Não há uma estatística a respeito do assunto, mas seguramente ninguém gosta de conviver com pessoas que possuem o egoísmo exacerbado. Para isso, um bom companheiro de escalada deve ter um excelente desconfiômetro e uma exacerbada paciência. Na escalada não há chefes ou patrões (apesar de existir muitos quem pensem), que determinam o tempo ou as vias que devem ser escaladas.

Como dito acima, cada pessoa possui seu próprio ritmo de evolução e de escalada. Há dias que um escalador está com rendimento impressionante, mas também há dias que nada funciona e tudo parece atrapalhar. Cabe a um bom parceiro ter a paciência e identificar este tipo de sintonia com o ambiente de escalada. Conversar francamente, aconselhar de maneira eficiente e, claro, não querer acelerar qualquer tipo de processo evolutivo.

Toda pessoa possui problemas pessoais, por isso, às vezes, saber ser paciente para escutar algum lamento e saber aconselhar na medida certa faz parte também de um bom parceiro.


Conhecimento técnico

Há um equívoco muito grande no universo outdoor em confundir “experiência” com “conhecimento”. Alguém que possui experiência de 10 anos em escalada, mas sempre realizou procedimentos incorretos, apenas significa que tem experiencia em procedimentos errados. Tempo de prática em um esporte não necessariamente não significa que a pessoa possui conhecimento avançado em algo.

Na escalada, em específico, há muitos escaladores que se dizem experientes, mas sequer possuem experiência em várias técnicas e procedimentos do esporte. Realizam ao longo do tempo que pratica o esporte, técnicas incorretas e sempre são displicentes com a experiencia de qualquer pessoa à sua volta.

Estar sempre procurando saber os procedimentos técnicos, aprender constantemente novos e, se possível, reciclar-se em oficinas e viagens a outros lugares de escalada caracterizam um excelente parceiro de escalada. Isso porque ele procura aprender a saber mais para ele mesmo prezar pela segurança, mas não para ser o dono da verdade. Quem possui alto conhecimento técnico sabe que que sempre há algo novo para aprender. Aquele que acredita que sabe tudo, sempre com atitude arrogante diante de todos, é um exemplo cristalino de péssimo companheiro.


Confiável e responsável

 

Ser confiável deveria ser a característica de todo indivíduo. Mas infelizmente o mundo não funciona assim. Há pessoas que se dizem confiáveis mas não sabem guardar segredos, não honram compromissos, não cumprem promessas, etc. Na escalada não é diferente.

Aquele parceiro que não é confiável, que sequer consegue cumprir um horário combinado, não serve para a escalada. Pode servir para alguma festividade ou evento social. Mas não para a escalada. Não há maneira de confiar em uma pessoa que constantemente está realizando “mancadas” em relação a várias coisas. A relação de escalador e segurador é baseada na confiança e respeito. Se o seu companheiro de escalada não é confiável, por que insistir em escalar com ele?

Um parceiro de escalada confiável é aquele que constantemente confere os próprios equipamentos e realiza a devida manutenção.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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