Qual a real importância do grau de dificuldade que você escala?

Depois de uma acalorada sobe o grau de escalada que presenciei entre dois escaladores, uma pergunta me veio de imediato: É importante o grau de escalada? É valido querer escalar um grau maior e colocar como meta subi-lo? Subir de grau é sinônimo de divertir-se?

A resposta da grande maioria das vezes é um sonoro SIM, mesmo que esteja na moda negar a pergunta (para se fazer de humilde). Na escalada, o grau de dificuldade é a maneira de padronizar a dificuldade que domina, somente isso. Não vai te fazer mais bonito (a), nem inteligente, nem seu valor como ser humano será maior. Simplesmente escala mais forte e pronto.

Existe uma corrente muito forte na escalada de de denegrir ao escalador que quer subir o grau, como se fosse pecado demonstrar o desejo publicamente.

A palavra “ego” é apontada como uma faca para levar à fogueira, aquele que disser que o grau é a sua única meta. “Ego” para cá, “ego” para lá… E este é o melhor jeito encontrado para tentar ofender (não tente negar, pois muitos o fazem).

Então permita-me colocar algumas coisas objetivas que podem abrir os seus olhos.

Graus de escalada e estatísticas

Todo local de escalada existe vias de todos os graus (ou pelo menos deveria ter). Mas em um destes lugares existem uma concentração de vias fáceis ou difíceis. Um bom exemplo, claro, é Rodellar, local que o termômetro se move pela dificuldade, vias atléticas e de resistência. É quase obrigação estar escalando 7c francês (9a brasileiro) para aproveitar o lugar. Exatamente isso: “aproveitar o lugar”.

Existem vias fáceis, inclusive setores com vias de 6a francês (6° brasileiro), mas estão tão escaladas que as agarras se transformaram em mármore polido. Na minha opinião, o 6a francês (6° brasileiro) polido é o mais desagradável que escalei na minha vida quando estive em Rodellar. Uma via que, seguramente, deve ter sido uma maravilha quando foi conquistada. Nela, não senti nenhum prazer.

Escalar graus mais fortes abre fronteiras a você, além de possibilitar de escalar muito mais e visitar muitos lugares de escalada.

Na maioria dos locais de escalada, as vias abaixo de 6b francês (6°sup brasileiro) são poucas. Um dia tive a ideia de fazer um cadastro da quantidade de vias e sua porcentagem em vias abaixo de 6b francês (6°sup brasileiro) em Las Chilcas (local de escalada no Chile), considerado um dos melhores lugares chilenos. A porcentagem foi de 9% (aproximadamente 10 vias), as quais são escaladas apenas pouco mais da metade. Ou seja, desta maneira apenas 5% das vias do setor eram consideradas fáceis. Mas, vou admitir, queria ver quantas vias do local estavam cotadas em 8a francês (9c brasileiro), obtendo um valor similar ao de vias consideradas fáceis: 12%. O resultado foi bem interessante: 40% das vias estavam entre 6b francês (6°sup brasileiro) ao 7a francês (7c brasileiro). Entre 7a+ francês (8a brasileiro) e 7c+ (9b brasileiro) de 35%.

É necessário levar em conta que para conseguir escalar entre 6b francês (6°sup brasileiro) e 7a francês (7c brasileiro), é possível somente escalando e dedicando-se à técnica e repertórios de movimentos. Força física, não estar gordo, colabora para conseguir. Mas é uma meta bastante razoável. Isso porque escalar entre 7a+ francês e 7c francês requer que treine e seja muito constante no treinamento, para chegar a chegar à uma porcentagem gorda dos escaladores medianos no mundo. Isso quer dizer que se subir o grau, seu leque de possibilidades se abre em algo como 80% de todas as vias de um local de escalada. Pense na quantidade de “diversão” que terá por somente conseguir escalar um grau mais alto.

Diante deste raciocínio, ainda pensa que é somente “ego” que está em jogo quando quer subir o seu grau?

Não confunda passar bem com ser medíocre. Não justifique sua falta de progressos com: “é que escalo para sentir-me bem”. Existe muita gente que faz isso, mas não me atreveria a “opinar” de que todos os escaladores que escalam 6a francês (6° brasileiro) já manifestaram o desejo de querer escalar mais forte (obviamente é uma suposição pessoal). Mas não é o mesmo quando já tem anos de escalada nas mesmas vias fáceis e constata que do lado há um monte de linhas para fazer;

O grau define muitas vezes sua atitude diante do treinamento. Em muitas ocasiões pessoas dizem na internet que o ideal para quem escalar abaixo de 6b+ francês (6° sup) é somente escalar. Que para subir o grau, treinar é uma opção objetiva. O grau também da uma motivação diferente de como fazer as coisas. Abre uma outra perspectiva de treinar para escalar melhor.

Conclusão

Para terminar esta reflexão, vou deixar aqui uma anedota.

Faz uns dois anos, aconteceu de eu ter uma escaladora para treinar que não conseguia fazer mais que 5ºsup com quase 3 anos escalando. Ia a alguns ginásios de escalada e pagava para treinamento personalizado. Os instrutores (que somente tinham experiência como “atletas”) a faziam escalar para que se divertisse apenas. Mas no fundo a frustração a queimava por dentro. Depois de algumas conversas come ela, veio a pergunta evidente: “O que quer na escalada?”. Com vergonha, como se tivesse confessando um pecado ao reconhecer, respondeu: “Subir o grau”.

Quatro meses depois, após um treinamento intenso e quase 100% fora da sua zona de conforto, conseguiu encadenar seu primeiro 6b francês (6°sup brasileiro) e 6c francês (7a brasileiro) de top-rope.

Atualmente ela não escala mais, por causa de seus estudos. Mas a sensação de satisfação de ter conseguido um grau, que parecia proibitivo, ainda a deixa contente. Estes quatro meses intensos, para subir o grau de escalada, deram muito mais satisfação e segurança que os três anos de escalada “apenas para divertir-se”. De vez em quando ela volta, somente escala 6a fancês (6° brasileiro) agora, mas é outra pessoa. Sabe que pode chegar a 6b francês (6ºsup brasileiro) e até mais se voltar a dedicar-se. Diverte-se muito mais agora que antes.

Posso dizer que esta história já vi se repetir com muitos escaladores. Incluindo eu mesmo.

Sentem que conseguiram uma meta impossível na vida e levam esta recordação para sempre. Mesmo que agora o grau seja menor que antes. Neste momento deixaram de olhar para o lado, somente importando o que são, sem se importar com o que outros escalem.

Concluindo: quando te perguntarem que grau escale, pensa se a resposta te incomoda. E for o seu caso, pense nisso.

Tradução autorizada de: http://rocanbolt.com

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Gonzo Rocanbolt é chileno, médico, escalador e indiscutivelmente uns dos mais completos autores de artigos sobre treinamento de escaladores existentes no mundo. Respeitado em todo o mundo é o organizador do Simpósio de Medicina de Montanha no Chile e palestrante de eventos de escalada no Chile, Argentina e Espanha

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