Entendendo e descomplicando a graduação britânica de escalada

Fosse necessário apontar qual graduação de escalada é a mais difícil de assimilar, seguramente a escolha seria a britânica. Assim como acontece com várias unidades de medida inglesa (libras, stones, galões, yards, milhas, etc), a graduação inglesa de escalada, que serve para “medir” a dificuldade, parece bastante confusa à primeira vista.

Para quem não sabe, a graduação inglesa de escalada leva em consideração vários fatores não objetivos que as graduações yosemite (utilizada nos EUA, Canadá, México e alguns países da América do Sul) e francesa (utilizada em grande parte dos países europeus e alguns da América do Sul) não levam. Os ingleses procuraram colocar implícito na sua graduação a periculosidade da escalada levando em conta fatores como qualidade da rocha, exposição, tipos de proteções, clima e estilo.

Mas uma coisa todos concordam: a graduação britânica (utilizada em todo o Reino Unido) é muito sutil e confusa ao mesmo tempo. Nesta graduação, que é utilizada muito na escalada tradicional (sobretudo com proteções móveis), é necessário inernalizar seus conceitos. Nela é utilizado uma unidade de medida para a proteção e o objetivo (ou mesmo o perigo) de uma via. Este tipo de “subjetividade” é expressa pela letra “E”.

Estilo Hard grit?

Como a escala inglesa de escalada é, para muitos, confusa e de difícil entendimento, algumas lendas foram criadas ao redor da mesma. Esta dificuldade de entendimento da graduação, que serve para escalada em vias e boulders, cria muita confusão, Uma confusão que se faz constantemente é com o termo “hard grit”, o qual é erroneamente atribuído (sobretudo por pessoas desinformadas) a um estilo de boulder na Inglaterra.

Que fique claro de antemão que “hard grit” é apenas um nome de um filme, não necessariamente o nome de um estilo. Explicar que um escalador foi à Inglaterra e escalou em “hard grit”, é o mesmo que dizer que uma pessoa foi para os EUA e praticou “Dosage”, ou foi à Índia e escalou em “Rampage”. Tanto “Dosage”, quanto “Rampage”, eram filmes de escalada (protagonizado por Chris Sharma) e não necessariamente um estilo de vias e boulders.

O que existe de característica peculiar nos boulders da Inglaterra é que há um tipo de rocha chamado de gritstone (popularmente chamado de grit), que nada mais é uma espécie de arenito muito duro, polido pela chuva constante do Reino Unido, que tem como característica os abaulados.

Por exigir uma aderência acima do normal em suas agarras, é constante tema de filmes de escalada britânicos. O filme “Hard Grit” foi produzido em 1998 (portanto, já fazem 20 anos) por Mark Turnbull, o qual tinha como protagonistas escaladores Ben Moon, Jerry Moffatt e Seb Grieve, dentre outros.

Foto: http://kletterszene.com

No filme, as linhas de boulders graduadas como E6 6b (Piece of Mind), E7 6c (Kaluza Klein), E8 6c (End of the Affair), E9 7a (Parthian Shot), E9 7b (Samson), além de muitas outras, impressionaram pela dificuldade em agarras abauladas.

Como usavam uma graduação de linhas de boulder pouco difundidas (o grau de escalada britânico), escaladores com pouco conhecimento neste tipo de notação, acreditaram que o nome do filme (Hard grit) referia-se a um novo estilo de boulder o que, evidentemente, não era.

A letra “E”

No Brasil, que possui uma graduação própria, pesadamente inspirada na francesa, expressa para as vias a duração (utilizando a letra “D”) e a exposição (utilizando a letra “E”). O grau de exposição da graduação brasileira em nada tem a ver com a inglesa. Apenas é uma coincidência de letras, mas que frequentemente é confundido, especialmente por escaladores mais leigos e/ou iniciantes. Apesar de significaram filosoficamente algo supostamente relacionado (o “perigo” de uma via), não possuem qualquer relação. Igualar as duas unidades, seria o mesmo que acreditar que libra esterlina (unidade monetária) e libra (unidade de medida de peso) teriam alguma relação. Ambas possuem o mesmo nome, mas medem duas coisas completamente sem relação direta uma com a outra.

Portanto, abstraindo de maneira subjetiva, a letra “E” significa o risco e/ou o perigo da via. Não necessariamente é sobre a distância entre as proteções, mas também pelo etado das proteções, qualidade da rocha e perigo de animais e outros tipos de “perigo” à integridade do escalador. Sigifica até mesmo quantas vezes um escalador pode ou não cair com a corda.

Foto: Michele Caminati

A escala inglesa de escalada é entendida como tendo duas partes: adjetiva e técnica (adjectival e technical), e trabalham juntas para dar uma informação ao escalador para que saiba o que esperar da rocha. A parte adjetiva (adjectival) pode ser comparada com a escala francesa de dificuldade, e indica a dificuldade da via ou enfiada. Possivelmente é a parte que qualquer escalador não-britânico consegue entender. Portanto, para a dificuldade dos movimentos, a escala britânica já atribui um número. Este tipo de informação, letra E e número, serve para que o escalador obtenha muita informação a respeito da via.

Não fosse o bastante confuso, há ainda a medição chamada de “tech grade”, que nasceu da graduação francesa de boulders, desenvolvida em Fontainebleau. Ela nada mais mede a dificuldade do crux de uma via, precedido da letra “F”. Para entender melhor é necessário utilizar os exemplos abaixo:

  • E2 6b (F6c+) – Significa que a via possui movimentos duros, mas com proteção muito boa, mas exige técnica mais alta que o grau total da via.
  • E2 5a (F6a) – Significa que a via de escalada, apesar de possuir uma graduação fácil, possui proteções muito ruins ou rochas soltas.

Como pode ser visto, é um sistema de graduação que demanda muito estudo para que o conhecimento seja absorvido de maneira total. Mas como pode ser visto no exemplo, pela graduação britânica, é possível distinguir facilmente entre duas vias que na graduação brasileira possuiria a mesma dificuldade (como um 6sup brasileiro).

Um bom macete é observar o valor do “E” em comparação ao grau da via. Em uma via com graduação muito baixa, mas com um “E” alto, quer dizer que as condições de rocha e proteções são “desafiantes” (bold).

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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