Graduação Alpina para Leigos

A graduação alpina foi criada nos Alpes onde é amplamente usada. Mas não é só por lá: cada vez mais ela é utilizada grandes cordilheiras.

Diferente de outras graduações, o grau alpino não determina somente a dificuldade técnica – pois numa escalada de montanha esse não é o único fator determinante para o sucesso de uma cordada.

As dificuldades mentais e físicas necessárias para completar uma via, além das condições do terreno e climáticas, aproximação e comprometimento, entre outros, também são descritas numa graduação alpina, a fim de oferecer um resumo da via e evitar surpresas.

Por isso, é composta de várias graduações mais específicas, como por exemplo: grau de escalada em gelo ou grau escocês, grau misto, de escalada em livre, de artificial, etc.

A divisão básica da graduação alpina atualmente é:

  • F (Facile – Fácil)

Escalaminhadas em rocha, encostas de neve com pouca inclinação, em geral sem necessidade de encordamento, alguma atividade em geleira. São vias muito comuns em vulcões.

  • PD (Peu Difficile – Pouco Difícil)

Alguns trechos de escalada técnica fácil e geleiras um pouco complexas. Em geral montanhas acessíveis e descidas descomplicadas.

Também são bastante comuns em vulcões.

  • AD (Assez Difficile – Relativamente Difícil)

Escalada técnica e vertical ou encostas longas de neve e/ou gelo a mais de 50 graus de inclinação, em montanhas um pouco remotas.

As descidas já não são simples, e fisicamente são escaladas exigentes.

  • D (Difficile – Difícil)

Escalada técnica difícil e constante em gelo e/ou neve acima de 60 graus e/ou rocha acima do 5 grau, em vias curtas ou longas.

Geleiras com navegação complexa. Em geral o grau de comprometimento já aumenta devido à possibilidade de mau tempo, ou dificuldades de descida e abandono da via.

  • TD (Très Difficile – Muito difícil)

Vias indiscutivelmente difíceis, longas, remotas, e altamente técnicas. Escalada em rocha acima do sexto grau, em gelo acima de 70 graus constantes, podendo apresentar trechos negativos.

Muitas enfiadas, vias de proteção difícil e precária, problemas de clima notórios, montanhas muito remotas, grandes dificuldades de descida ou impossibilidade de abandono sem antes chegar ao cume.

  • ED (Extremement Difficile – Extremamente difícil)

São as vias mais sérias com as dificuldades mais contínuas. Aumentos na dificuldades são indicadas por ED1, ED2, etc.

Além das características de uma via TD, são vias normalmente muito expostas à perigos objetivos, clima e frio, e que levam muitos dias pra serem terminadas, além de serem extremamente técnicas.

A presença de um trecho em A2 torna uma via um ED-, no mínimo. Tuc D´Ermer, nos Pirineus | Foto: David Polo

A presença de um trecho em A2 torna uma via um ED-, no mínimo. Tuc D´Ermer, nos Pirineus | Foto: David Polo

Fatores que compõe o grau alpino

Como dito anteriormente, a graduação é baseada nos seguintes fatores: aproximação, descida, altitude, dificuldade técnica, perigos objetivos, e comprometimento.

Mas vamos por partes, para não dar nó na cabeça!

  • Aproximação

Aproximações podem ser longas ou curtas, em trilhas bem marcadas ou sem trilha, planas ou íngremes, de poucas horas ou de muitos dias, influenciando na logística e condição física da cordada ao iniciar uma escalada.

  • Dificuldade técnica

Vias alpinas podem apresentar as dificuldades técnicas de qualquer modalidade de escalada, apesar de que dificilmente chegam ao extremo mais difícil, incluindo:

Escalada em livre (graduação francesa)

Escalada artificial (A# ou C#)

Neve íngreme (geralmente indicado pelo grau de inclinação, até 90 graus)

Water ice (gelo duro, mais técnico, graduado de WI#)

Gelo alpino (mais comum em montanhas mais altas, graduado como AI#)

Escalada mista ou dry-tooling (M#)

  • Descida

Algumas vias podem ter chapas para rapel, ou muito material de outras cordadas abandonado, outras exigem pouco ou muito abandono de material, e na pior das hipóteses, em algumas vias só é possível descer após chegar ao cume – fator que já compõe o grau de comprometimento.

  • Altitude

Quanto mais alta a montanha, maior a dificuldade física de escalar e terminar uma via. As dificuldades técnicas ficam mais duras, e a cordada progride mais lentamente.

  • Perigos objetivos

A exposição a seracs, possibilidade de avalanches, frequência de queda de pedras soltas, aumentam a dificuldade de uma via pois exigem mais rapidez na escalada.

  • Comprometimento

A duração para se completar a via, a exposição ao clima, a facilidade ou dificuldade de abandono da via. Este quesito tem uma graduação própria.

Agora vamos aos exemplos

Vias F

Um bom exemplo de rota é a via normal (F) do Aconcágua, 6.962 m, que apesar da altura e possibilidade de problemas climáticos, não apresenta dificuldades técnicas.

A via Machame (F) no Kilimanjaro, 5.895 m, recebe a mesma classificação.

A exposição a seracs e largura da via caracterizam a normal do Cotopaxi uma típica via PD | Foto: Cissa Carvalho

A exposição a seracs e largura da via caracterizam a normal do Cotopaxi uma típica via PD | Foto: Cissa Carvalho

Vias PD

Um exemplo de grau PD, também conhecido dos brasileiros, é a via normal (PD+) do Huayna Potosi, 6.088 m.

Pouco ou nenhum trecho íngreme porém um trecho de 45 graus de extensão média, exposição na aresta do cume e grande altitude.

Outro PD bastante frequentado pelos brasileiros é a via normal pela variante noroeste (PD) do Cotopaxi, 5.897 m, que apesar de ser mais baixo tem uma geleira mais complexa e é mais exposto a seracs.

Vias AD

A via normal (AD/AD+ dependendo das condições) do Cabeza de Condor, 5648 m, no maciço Condoriri, por sua parede de 150 m com neve a 55 graus. O Island Peak, 6189 m ( AD-), no Himalaia, se escalado em livre (sem corda fixa), por sua parede final de 200 m com neve a 50-70 graus.

A Aresta do Cosmiques (AD), 3842 m, nos Alpes, também recebe a graduação AD por já involver escalada mixta, trechos aéreos e exposição.

Vias D

Algumas vias clássicas sul americanas são a Direta Francesa (D) do Alpamayo, 5947 m, por sua parede de gelo alpino de 70 a 90 graus, por 400 m constantes; a Direta da Face Norte (D+) do Ranrapalca, 6126 m, uma via de 1000 m – 800 deles em gelo a 60 graus e com três crux de escalada mixta de quinto grau e rocha podre; e a Direta Francesa (D) do Huayna Potosi, 6088 m, uma longa parede de neve de 70 graus e 700 m que leva diretamente ao cume.

Vias TD

A Supercanaleta (TD+) no Fitz Roy, 3405 m, por sua dificuldade técnica contante e exposição ao clima. Também entra aqui a Direta Noroeste (TD+) na Piramide de Garcilazo, 5885 m, na Cordilheira Branca, muito similar ao Alpamayo, porém 2 vezes mais longa, mais exposta à queda de seracs e com um complicado crux de escalada mixta feito em 2 enfiadas de 6a.

Grand Jorasses, K2 e Fitz Roy: alturas e características distintas porém motanhas com várias vias de graduação ED. Fotos: Grand Jorasse - SPer Mamo / K2 - SPer Pete Thomson / Fitz Roy - SPer Boisedoc

Grand Jorasses, K2 e Fitz Roy: alturas e características distintas porém motanhas com várias vias de graduação ED. Fotos: Grand Jorasse – SPer Mamo / K2 – SPer Pete Thomson / Fitz Roy – SPer Boisedoc

Vias ED

Talvez o grau que mais demonstre como ele próprio é complexo, seja o ED.

Algumas vias que caem nesta graduação são tão variadas quanto: a (extinta) Via do Compressor (ED) no Cerro Torre, 3.100 m; a Jaeger (ED1) no Chacraraju Leste, 6.001 m; a via Casarotto (ED2) na face norte do Huascarán, 6.655 m; quase todas as vias mais duras das faces nortes clássicas dos Alpes (Drus, Jorasses, Eiger, Droites, Matterhorn, etc).

Pra finalizar os exemplos, podemos comparar em detalhe tres clássicas vias de graduação ED, em regiões tão distintas quanto os Alpes, Himalaya e Patagônia.

Nos Alpes, temos o Espolão Walker nas Grandes Jorasses (4.208 m), que tem a graduação ED- (IV, 6a, A0, 1.800 m).

O que tudo isso quer dizer? Que a via tem grau de comprometimento IV (via de muitas cordadas em altitude), grau obrigatório em livre 6a (grau francês, porém note-se que normalmente as Jorasses são escaladas com botas de montanha e não sapatilhas), grau de artificial A0, e 1800 metros de desnível do começo da via até o cume, o que já implica ao menos 1 bivaque na parede para cordadas em velocidade média, e outro no cume, antes de iniciar a descida.

No Himalaia, podemos citar a a Magic Line, no K2, que receberia a graduação ED+ ou ED2 (ou até a pouco usada ABO, graduação seguinte à ED, e que significa abominavelmente difícil).

Chamada uma vez por Reinhold Messner de via “suicida”, ela foi escalada poucas vezes, tem um desnível de quase 4000 m, escalada em gelo duro de WI 4-5, mixta de M 4-6 e trechos de neve a 90 graus.

Tudo isso a muitos mil metros de altitude extrema.

Finalmente na Patagônia, temos a via Franco-Argentina no Fitz Roy, (ED, V, 6a-6c, A1, 650 m).

Essa deixo pra vocês decifrarem!

Conclusão

Apesar de abrangente, a graduação alpina quando utilizada corretamente pode ser bastante precisa. Por englobar fatores técnicos e subjetivos (comprometimento, disposição da cordada, tolerância à risco) ela é determinante na escolha dos objetivos.

Vejam que o Espolão Walker, a Magic Line e a Franco-Argentina tem a mesma graduação, porém com dificuldades técnicas, logísticas e físicas distintas.

O fato é que a partir de certo nível de dificuldade, é difícil até para os escaladores de elite graduarem algumas vias, o que prova a importância de entender a descrição global de uma via, para estar seguro de estar preparado para enfrentar todos os aspectos de uma escalda alpina.

É muito comum no verão alpino francês escutar sobre cordadas sendo resgatadas das grandes faces nortes, a principal delas, a do Grands Jorasses, mesmo tendo metade da altura do K2.

Alguns alpinistas por exemplo, nunca passam de um certo grau, preferindo se aperfeiçoar em vias mais técnicas porém menos remotas (exemplo, Alpes franceses, onde existem vias tecnicamente muito difíceis porém de fácil acesso, fácil abandono e fácil resgate).

Outros escalam vias muito técnicas em baixa altitude, mas baixam 1 ou 2 graus quando estão em altitude extrema.

A princípio parece uma graduação complicada, mas com a prática, algumas partes se automatizam.

O importante é levar todas em conta sempre que estiver escolhendo uma via ou se preparando para uma escalada alpina, adequando sua capacidade às exigências apresentadas pela graduação.

Assim está garantida a diversão e o retorno seguro da cordada, ou seja, sucesso.

Foto no topo: Enfiada do crux da via Suíça (TD), no Les Courtes, Alpes Franceses. Foto: Cissa Carvalho.

Cissa Carvalho é natural de São Paulo e praticante de esportes outdoor desde os 8 anos de idade. É alpinista fanática, e nas horas vagas tenta escalar em rocha, surfar e arranjar dinheiro para continuar viajando. Já esteve em todos os continentes e já escalou na América do Sul, África, Ásia e Europa

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