Força de vontade e autocontrole: Os grandes parceiros da escalada e da vida

Para escrever esse artigo me baseei novamente numa experiência pessoal e que me demandou “força de vontade e autocontrole”. E se você tiver força de vontade suficiente para ler esse interminável artigo de mais ou menos 6 minutos de leitura, lhe asseguro que saberá a importância dessas duas habilidades humanas. Prometo ser breve, pero no mucho rs .

Certa vez, quando escalávamos uma montanha em algum lugar do interior de alguma cidadezinha do sudeste do Brasil, passamos horas subindo rocha à cima, pois a via era bem difícil, e depois de termos subido e descido a montanha, já no caminho de volta para casa, como de praxe paramos em um estabelecimento comercial revendedor de bebidas geladas à beira da estrada (leia-se Boteco) para nos refrescarmos.

Ali, parado, à frente de um balcão de madeira rústico (caindo aos pedaços rs), diante de minha incompetência física para abrir uma garrafa de água (ou de cerveja, não me lembro bem agora rs ) pedi então gentilmente que a mocinha atrás do balcão o fizesse por mim. Ela devia ter uns 14 anos, medir 1,40 cm e pesar uns 40 kg, ficou meio estranhada com meu pedido, mas abriu aquela garrafa de um modo incrivelmente fácil.

Exemplo de antebraço “inchado” | Foto: Filipe Ascensão

Voltemos ao começo da história para que compreenda melhor. Eu escalei durante horas uma montanha dificílima, o que me exigiu extrema força física, logo os músculos extensores e flexores da minha mão, responsáveis pela preensão manual que me garantiu ficar agarrado àquela pedra por tanto tempo, ficaram extenuados, o que culminou no meu fracasso ao tentar abrir aquela garrafa.

À época (ou na época, meu português não é lá grande coisa) conclui que exigi demais dos músculos dos meus braços e não me sobrou energia sequer para uma tarefa simples como a que se apresentou (abrir uma garrafa).

Educadores Físicos, que são estudiosos do corpo humano em movimento diriam que o glicogênio muscular (responsável por fornecer energia para os músculos) existente na musculatura dos meus braços se depletaram (depletado: Esgotado, exaurido, exausto) quase que por completo e esse processo resultou em níveis de reservas insuficientes de blá, blá, blá, blá, blá… Tempos depois eu li no excelente livro “O Poder do Hábito” de Charles Duhigg uma frase que me levou a refletir:

“Força de vontade não é só uma habilidade, é um músculo, como os músculos de seus braços ou pernas, e ela fica cansada quando faz mais esforço, por isso sobra menos força para outras coisas.”

Sacaram agora? O que mais me prejudicou não foi o tal glicogênio muscular depletado e nem o resultado de níveis de reservas insuficientes de blá, blá, blá, blá, blá…

O que me impediu de abrir aquela garrafa, tarefa fácil para aquela mocinha (que muito provavelmente não escalava montanhas), mesmo eu tendo o dobro do tamanho dela foi “força de vontade”.

Controle-se já estou quase terminando

Escrevi aqui há algum tempo que o autocontrole é como o dinheiro, quanto mais gastamos, menos temos. E segundo alguns cientistas, que provavelmente tem algo mais importante para fazer a não ser escalar montanhas, parece que com a força de vontade acontece algo similar, quanto mais gastamos, menos temos também (essa lógica é muito boa, desde que você não seja um economista).

Essa relação força de vontade/autocontrole explica por que é que grandes empresas evitam reuniões em fim de expediente ou próximo ao fim de semana e explica também por que DRs (discussão de relacionamento) são mal vindas tarde da noite (para os homens são mal vindas a qualquer hora do dia rs ). E falando em coisas mais serias e perigosas, é por conta de um desajuste do nosso autocontrole/força de vontade que um montante muito maior de acidentes no montanhismo de forma geral, ocorre durante a descida e não durante a ascensão (subida).

Em suma pesquisas indicam que quanto maior o nosso cansaço ou mais visível nossa provável meta, menor é nosso nível de força de vontade e autocontrole, o que nos leva a tomar decisões menos assertivas (fazemos mais merdas). Estamos assim mais sujeitos a algo que a psicologia chama de ‘’fadiga de decisão’’: Quanto mais decisões importantes tomamos, menos energia mental temos para tomar nova decisão, por mais simples que ela se apresente agora. E isso explica também o por que de batermos o carro faltando tão pouco para chegarmos em casa.

Pessoas morem, se acidentam gravemente ou mesmo se perdem em trilhas e escaladas de grandes montanhas. E isso ocorre normalmente durante a descida, quando seus estoques de força de vontade estão diminuídos e seu autocontrole quase que totalmente depletado.

Foto: Alton Richardson

Segundo algumas pesquisas, as principais causas de acidentes nessas atividades dizem respeito principalmente às ações de seus praticantes, que se abstêm do uso de capacete ou de verificar um nó, se distraem na execução de procedimentos de ancoragens e se descuidam com cuidados básicos no momento que descem a montanha. Incidentes como pedras soltas, animais peçonhentos, mudança de tempo, e garrafas dificílimas para serem abertas, por exemplo, correspondem a uma parte bem menor do número de incidentes envolvendo montanhistas.

Como vimos nossas ações, escaladores ou não, são quase todas formuladas principalmente pelo nível de força de vontade e autocontrole que possuímos.

De hoje em diante antes de sair por aí, gastando sua força de vontade e seu autocontrole indiscriminadamente, verifique se estas estão sendo bem empregadas e em momento propicio.

Salvo o fato de que você queira mudar-se para o cume de alguma montanha (o que não seria má ideia, pois lá não tocam certas musicas), reserve quantidades extras de autocontrole e força de vontade para o caminho de volta para casa.

No meu caso acredito que agi bem as usando para me manter agarrado àquela rocha ate o fim, no máximo teria recorrido à um abridor de garrafas (era mesmo uma cerveja rs ), caso a mocinha não se predispusesse a me socorrer no tal estabelecimento comercial revendedor de bebidas geladas à beira da estrada (Boteco).

“Só com o esforço prolongado e sinceridade, disciplina e autocontrole, o sábio se torna como uma ilha, que nenhuma enchente consegue inundar.”

– Buda

‘’A força de vontade dos fracos chama-se teimosia’’

– Marie Von Ebner-Eschenbach

Rui Paulo é escalador, formado em educação física e trabalha como Personal trainer na região metropolitana da cidade de São Paulo

There are 5 comments

  1. Simone

    Sábias palavras tesouro!!!
    Mais um excelente Artigo !!
    Valiosa troca de experiência com exemplos reais, parabéns e obrigada por nos inspirar com tamanha “força de vontade” para compartilhar seus textos impecáveis, que nos fazem “refletir”e “assimilar” às nossas situações cotidianas, nos ajudando a trabalhar nosso “autocontrole”.. :-) !!!!

  2. Renato minguta

    Muito bom o artigo, aconteceu algo parecido comigo vindo de um trekking domingo passado, fui até o cume do pico da Bandeira com um amigo, pois tínhamos combinado de pegar 4 picos ao redor da trilha, pois pela falta de experiência desse amigo ele me questionou pq eu estava subindo tão devagar durante a trilha;
    Eu disse, pq preciso poupar minhas forças para o retorno, pois a descida é tão desgastante e na maioria dos casos acontece às lesões nos montanhistas;
    Ele ficou parado olhado e continuamos nosso trajeto.
    Ao chegar no pico tiramos fotos e retornamos a trilha para o 6 maior pico do Brasil, no meio do caminho ele já estava com os músculos e psicologico deteorados, fazendo a disistir de seus propósitos.
    Ao retornar ao acampamento continuei no meu ritimo devagar porém nem sentia vontade de descançar e meu amigo não estava aguentado a descida, mas chegamos bem ao acampamento.
    Eu cheguei com apenas um leve cançasso e meu amigo chegou muito fadigado.

    Resumo.
    Não importa seu ritimo o importante é sempre seguir em frente e guardar energias para seu retorno, pois vc tem alguém que te espera em casa para ouvir suas estórias de aventuras.

    Controle, foco e determinação.

    Instagram: Renato minguta
    Trekking

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