Os treinos em fingerboard são realmente eficientes?

Há algum tempo fiz um comentário sobre o uso das pinças em fingerboard, explicando como produziam mais lesões do que melhoria neste tipo de abaulado. Na verdade, toda agarra pode produzir lesões. Mas o “lado B” desta realidade é que se for utilizar um fingerboard, não usar o usar. Esqueça conselhos dos “especialistas” de listas de whatsapp quando pensar em treinamentos neste equipamento e procure alguém com conhecimento científico.

Isso porque lesionar-se em um fingerboard, ou mesmo no muro ou rocha escalando, parece fazer parte da vida de um escalador… Mas tratando-se de fingerboard, não é bem assim.

Foto: https://www.trainingbeta.com/

Os treinos em fingerboard são efetivos se o trabalho é específico (para qual tipo de agarra necessita), com uso correto de pegada e muito bem planejado. Se o escalador está começando a escalar 6°, mesmo que se aqueça e alongue devidamente, ficar pendurado em um reglete de 15 mm por 5 segundos pode significar muitas coisas.

Uma delas é que este tipo de abordagem é das piores do mundo. Justifico: porque este tamanho de reglete é indicado a quem está escalando pelo menos 7a brasileiro (6c francês). Portanto, se acreditar em tudo que lê nas listas de whatsapp, ficará parecendo que estará procurando gritar de dor por alguma lesão de polia, ou mesmo adquirir uma tendinite.

Lembrando, especialmente aos leigos sobre ciência do esporte, que ficar pendurado por cinco segundos não é suficiente nem para ganhar força máxima, nem resistência. Em resumo, esta abordagem é uma grande perda de tempo.

Foto; http://rockandice.com

A tendência atual dos treinamentos modernos é minimizar o uso do fingerboard em treinamentos. Os motivos são os seguintes:

  1. Aquele que tudo quer, nada tem – Modelos de fingerboard com infinitas agarras e distintas umas das outras, já demonstraram que não serve para treinamentos efetivos. isso porque os modelos mais simples, com pouco menos de 20 ou 30 agarras diferentes, o escalador somente usa 3 ou 4.
  2. Existem agarras que não trarão nenhum benefício de força. Além disso, somente aumenta a incidência de lesões. Isso porque algumas posições já estão viciadas, com os músculos e tendões mal estimulados, realizando uso excessivo de polias, ligamentos e esfoço excessivo de outros músculos auxiliares. Exemplos:
    1. Pinças verticais flexionam em excesso o pulso, podendo produzir tendinite de Quervain (que na rocha nunca tenha percebido) que é uma inflamação que afeta os tendões do punho que se dirigem para o polegar.
    2. Perdurar-se com a regletada completa (polegar sobre o indicador), exige em excesso as polias e cápsulas, mas não existe ganho de força sobre os músculos flexores
    3. Regletes oblíquos, acontece algo muito parecido com o que ocorre com as pinças (podendo produzir tendinite de Quervain)
    4. Pendurar-se em monodedos/bidedos, somente irá produz uma exagerada exigência nas juntas, além de somente servir para treinar para situações muito, mas muito mesmo, específicas
  3. Tempo para escalar versus tempo para fazer fingerboard – Uma (boa) sessão de treinamento de escalada, especialmente para quem é iniciante ou intermediário, é sempre melhor que investir em fingerboard. A técnica e repertório de movimentos, devem ser trabalhados sempre. Além do óbvio de que ao escalar, treina-se também a força de mãos, sem necessidade de pendurar-se em um fingerboard. Portanto, se gastou dinheiro em uma mensalidade de um (bom) ginásio de escalada, use-o para escalar.
  4. Mau uso dos tempos e escolha ruim de agarras. Este artigo não aborda o tema de quais as agarras e tempos devem ser usados para melhorar a força das mãos. Mas me atrevo a dizer que a grande maioria dos escaladores que usam fingerboard, não possuem ideia de qualquer conceito científico, pendurando-se em qualquer agarra que achar. Via de regra acabam escutando um amigo, ou procurando ajuda dos “especialistas” de listas de whatsapp, que muito provavelmente escala diferente (melhor ou pior) mas não tem conhecimento científico nenhum (apenas a habilidade de opinar sobre o que não sabe).
  5. Uso excessivo do fingerboard – Pessoas gastam duas horas escalando no ginásio, decidindo fazer fingerboard quando já estão bem casadas para seguir no treino. Este é um dos grandes e clássicos erros, pois com o escalador cansado, com corpo já extenuado, o fingerboard somente irá cansá-lo mais. Sem obter nenhum benefício metabólico, muito menos estrutural. Muito pelo contrário, haverá aumento do número de lesões, aumento de catabolismo muscular e detrimento do anabolismo, queda das reservas energéticas além do recomendável com a provável fadiga prolongada e/ou crônica.

O fingerboard, ao contrário do que este artigo pode deixar a entender, são uma maravilha. Mas somente se as pessoas souberem usá-lo bem.

Conhecer perfeitamente como usá-lo (quando e como) é fundamental. Se não for assim, com conhecimento científico, podem ser o pior investimento que alguém pode fazer.

Tradução autorizada de: http://rocanbolt.com

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Gonzo Rocanbolt é chileno, médico, escalador e indiscutivelmente uns dos mais completos autores de artigos sobre treinamento de escaladores existentes no mundo. Respeitado em todo o mundo é o organizador do Simpósio de Medicina de Montanha no Chile e palestrante de eventos de escalada no Chile, Argentina e Espanha

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